Quando sua melhor amiga parte para o exterior

Quando sua melhor amiga parte para o exterior

Andrea Tissenbaum

22 Maio 2018 | 11h25

Ruas de Londres - Street Art | Foto: Andrea Tissenbaum

Ruas de Londres – Street Art | Foto: Andrea Tissenbaum

Chegou a hora da despedida. E agora, como vai ser para quem vai e para quem fica? 

Ela sempre falava sobre isso – um dia quero viver em um outro país, como você fez. Não sabia explicar muito bem o porque desse desejo, mas tinha muita clareza que precisava realiza-lo. Ao longo de alguns anos se preparou para fazer essa mudança e devagar, foi construindo uma nova realidade para fazer seu sonho acontecer.

Em outra época da minha vida, em outras circunstâncias, eu fui viver no exterior, onde fiquei por muitos anos. Não me preocupei com a dor das saudades que eu deixaria nas pessoas, simplesmente parti.  Era uma “trip” interna, não dava tempo para pensar no que deixar o que eu tinha representaria. Nem me passou pela cabeça que quem ficou sentiria falta da minha presença.

Hoje, do lado de cá, de quem fica, percebo o que essa falta representa. Minha amiga de tantos anos foi viver em um outro país. Nossa cidade diminuiu de tamanho subitamente, ficou sem graça. Claro que vamos nos encontrar, conversar por Skype, trocar figurinhas. Mas de longe, de muito longe.

Em uma frase que adoro, Saramago resume bem o que eu considero o real sentido da partida: “é necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não saímos de nós”. Isso vale para quem vai e para quem fica. Precisamos nos afastar para entender quem somos, o que buscamos, o que queremos. Precisamos ficar para entender o lugar das pessoas que nos rodeiam, o valor que elas têm no nosso cotidiano.

A ausência temporária sempre deixa um gostinho de quero mais. E a saudade, sentimento estranho, é um misto de privilégio e plenitude. Sentimos falta daquilo que nos é valioso, que nos preenche e nos deixa felizes. Ao mesmo tempo, temos o privilégio de saber que “aquilo” ainda faz parte de nós e de nossa história. Ter amigos de muitos anos é uma conquista de vida, nada pode nos conceder tamanha plenitude de existência.

A localização geográfica, o tempo e a indisponibilidade física não nos afastam de quem tanto queremos bem. Pelo contrário, tornam-se provocações para estarmos juntos.  Um telefonema, uma conversa virtual, uma viagem para visitar um amigo.

A vida segue, é verdade, e muitos acreditam que com isso um distanciamento pode acontecer. Curiosamente, esses “gaps” também despertam uma genuína vontade de saber como o outro está e o que está vivendo no seu novo cotidiano. Fatores chave para uma mudança profunda. Como já não temos aquela presença em nosso dia-a-dia, genuinamente passamos a aproveitar ao máximo os momentos que teremos. Nos tornamos mais generosos e empáticos com o outro.

Minha melhor amiga de tantos anos está vivendo em um outro país. Quis experimentar o mundo além-mar. Vai ser feliz porque foi consciente, preparada para sua aventura. Leva consigo sua história, sua cultura, suas origens e sua especial maneira de ser. Numa parte desse todo, vou com ela. Na contrapartida, parte dela também fica aqui comigo.

Em sua nova vida, vai aprender muito sobre si mesma e sobre a grandeza do mundo. Vai entender o que é viver em uma outra cultura e de onde veio. Vai encontrar novos caminhos e desafios. Vai crescer e amadurecer. Vai observar, aprender, absorver.

Vou sentir sua falta, ficar com saudades. Mas também sei que sou uma privilegiada por poder sentir isso. Então, minha saudade será branda e feliz.

*A frase de Saramago está no livro O Conto da Ilha Desconhecida.

Andrea Tissenbaum, a Tissen, escreve sobre estudar fora e a experiência internacional. Também oferece assessoria em educação e carreiras internacionais
Entre em contato: tissen@uol.com.br

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