Os méritos do trabalho duro e da criatividade

Os méritos do trabalho duro e da criatividade

Andrea Tissenbaum

02 Agosto 2016 | 08h38

Giuliana Reis no saguão da Chicago Booth School of Business durante seu MBA

Giuliana Reis no saguão da Chicago Booth School of Business durante seu MBA

Conheça a trajetória da bolsista Giuliana Reis que acaba de completar seu MBA na Chicago Booth School of Business.

Giuliana Reis é uma jovem de 27 anos. Filha única de pais de origem humilde, nasceu e viveu em Ribeirão Preto, São Paulo, até os 11. Mas a vida dela e de sua família mudou quando aos quatro anos de idade foram viver em Boston, nos Estados Unidos, por seis meses.

“Esta foi a primeira vez que saímos do Brasil. Meus pais perceberam que saber bem inglês seria um diferencial e deixaram tudo para fazer isso. Minha família passou por todas as dúvidas que as pessoas que querem estudar fora passam. Fiquei bem assustada com a mudança. Mas quando voltamos para o Brasil, me lembro que a carreira deles deslanchou de vez”, ela conta.

A experiência precoce fez Giuliana perceber a importância de explorar o mundo, investir na educação, falar outro idioma com fluência e ter amigos que vem de lugares e origens bem diferentes da sua. “Essa ideia de um dia ir morar e estudar fora ficou na minha cabeça”.

Aos 11 anos a família se mudou para São Paulo onde ela seguiu seus estudos. Passou no vestibular, mas antes de começar a faculdade fez um intercâmbio. Foram seis meses em Vancouver, no Canadá. Estudou inglês com foco em business, visto que em seu retorno ia cursar Administração. “Meus melhores amigos no intercâmbio tinham as mais diversas origens. Viajamos juntos, fizemos um mochilão pelas montanhas rochosas canadenses. Foi espetacular.”

Voltou, cursou o Insper e se formou com menção honrosa. “Entrei para o mundo das finanças. Trabalhei em um banco de investimentos por três anos. Foi um aprendizado sobre resiliência, responsabilidade, relacionamentos e foco”.

No início de 2013 resolveu mudar novamente o curso de sua vida. “Eu tinha experiência de mercado, bom conhecimento de inglês, tava na hora de dar o terceiro pulo”. Deixou o banco para se preparar para um MBA no exterior e se dedicar ao trabalho voluntário que fazia desde os 13 anos. “Tirei o pé do acelerador de um dia pro outro de uma forma bem radical. Acho que nos momentos de incerteza e ansiedade as melhores reflexões chegam”.

Apesar da agenda cheia, Giuliana encontrou tempo livre para empreender. Em uma viagem para o interior, parada no trânsito, notou que muitos motoristas viajavam sozinhos. E criou a Tripda, uma plataforma online de caronas e transporte colaborativo. Não demorou muito para que a Rocket internet, uma incubadora de negócios digitais, se interessasse pelo projeto. Giuliana atuou como CEO da Tripda que chegou a ter algumas dezenas de funcionários e a operar em mais de 10 países. Foi uma experiência transformadora para essa jovem que tinha apenas 23 anos.

Nove meses depois foi aceita para o MBA em Columbia e Chicago com bolsas de mérito das duas escolas. Optou pela Booth School of Business de Chicago. Para complementar os custos de seu MBA, conseguiu uma outra bolsa pela Fundação Estudar.

“Foram os dois melhores anos de minha vida. Acho que ainda vou falar sobre eles e descobrir o quanto transformadores foram por muito tempo. Adquiri maturidade e experiência de vida. Aproveitei para, além dos estudos, me envolver com diversas atividades extracurriculares da universidade. Aprendi a importância de ter projetos paralelos. Às vezes é nesses projetos que as melhores coisas acontecem. Agora que estou passando uns meses de férias no Brasil estou envolvida em vários projetos da Fundação Estudar, no programa de bolsas do Insper como entrevistadora, em dois eventos da Universidade de Chicago e ainda sou co-chair (vice-presidente) do Class Gift, o fundo de doações dos alunos de Chicago”.

Giuliana Reis com sua melhor amiga na semana de boas vindas da Chicago Booth School of Business

Giuliana Reis com sua melhor amiga na semana de boas vindas da Chicago Booth

“O trabalho é importante, sem dúvida, mas hoje eu acho que você não pode ser o seu trabalho. Você tem que ser um projeto de vida e não um projeto de carreira. Foi isso que eu aprendi. Você tem que ser mais completo e não deixar o trabalho definir quem você é”, afirma Giuliana.

“Saí muito da minha zona de conforto em Chicago. Estava habituada a fazer amizades com pessoas parecidas comigo, que pensavam como eu. Hoje meus amigos são os mais variados. Eu gosto disso. Quando você aprende a gostar da diferença, uma mudança qualitativa acontece. A vida pra mim depois de Chicago ficou bem divertida”.

Sobre a possibilidade de conseguir uma bolsa, Giuliana dá valiosas dicas:

>> “Trate o processo de bolsa como um processo novo. Muita gente deixa de tentar porque acha que é difícil conseguir. Nossa geração não foi criada para receber não, tem muito medo disso. Mas o não você já tem, se não se candidatar não vai passar mesmo. É obvio que custa tentar – tempo, preparação, dinheiro. Mas vale a pena. O meu tempo de preparo para o MBA foi um tempo de reflexão. Aprendi a contar a minha historia, a fazer conexões e a deixar a criatividade fluir”.

>> “Trate o processo de bolsa com a mesma seriedade e empenho que teve para passar na faculdade. A instituição que está te concedendo a bolsa teve um trabalho muito grande para fazer aquele dinheiro chegar a você. Respeite e aprecie isso. A bolsa não é um gesto de bondade. Mostre que está disposto a fazer isso pelos outros. Informe-se de onde veio a bolsa e de como no futuro você também poderá agregar valor e contribuir. Crie empatia e conexão com a instituição e as pessoas que estão te entrevistando. Isso facilita muito o processo”.

>> “Trabalhe duro e pare com o mimimi. Eu aprendi a não me obcecar tanto com o resultado final, me apaixonei pela caminhada”.

Giuliana entende que quem pensa no que vai poder fazer pelo coletivo segue um caminho que tem as portas abertas. Sempre quis trazer para o Brasil o que aprendeu fora. E vai continuar cumprindo o seu objetivo, desta vez desde Dubai, para onde parte em breve para trabalhar em uma multinacional brasileira.

* Fotos cedidas por Giuliana Reis.

Andrea Tissenbaum, a Tissen, escreve sobre estudar fora e a experiência internacional. Também oferece assessoria em educação e carreiras internacionais. 
Entre em contato: tissen@uol.com.br

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