Os impactos da ciência no desenvolvimento do Brasil

Os impactos da ciência no desenvolvimento do Brasil

Andrea Tissenbaum

12 de julho de 2022 | 07h20

Foto: Jeswin Thomas, via Unsplash

Foto: Jeswin Thomas, via Unsplash

Fomento à interação com cientistas de todo o mundo é fundamental para crescimento, geração de conhecimento, inovação  e inserção no ambiente global.

“Todos os avanços tecnológicos propiciados pela ciência tem um impacto imenso na economia. Conforme vamos nos tornando uma sociedade mais desenvolvida, temos mais acesso, produzimos conhecimento, e criamos infraestrutura mais adequada. A experiência com a produção das vacinas da COVID-19 é um excelente exemplo disso. Os pesquisadores, no processo de aprendizado, melhoram como seres humanos, têm subsídios para pensar e criticar o que está ao seu redor e prover melhorias. Na ciência o ato de discordar é básico”.

A fala, do matemático Tiago Pereira da Silva, professor da Universidade de São Paulo, sem dúvida é contundente. De origem muito humilde, a ciência se encarregou de fazer o pesquisador viajar pelo mundo. Formado em física pela Universidade de São Paulo – USP, Tiago fez seu doutorado em dinâmicas não-lineares na Universidade de Potsdam, Alemanha. No período de pós-doutorado passou pelo Imperial College London, na Inglaterra, o Instituto de Matemática Pura e Aplicada no Rio de Janeiro, a Universidade Humboldt de Berlim, Alemanha, e o Centro Helmholtz para a Dinâmica da Mente e Cérebro, no mesmo país.

“O acesso ao conhecimento transforma a sociedade em um lugar melhor, mais crítico. Mas para desenvolver esse conhecimento, o relacionamento com o mundo é fundamental. Se ficamos ensimesmados, isolados, é difícil evoluir. É que o olhar de fora aponta para a qualidade do que estamos fazendo e impacta o nosso crescimento, produz um choque de realidade. No mês em que comemoramos o Dia da Ciência (8 de julho), o que acho mais espetacular é que ela não tem fronteiras”, reforça o pesquisador.

Tiago também explica que apesar de termos um excelente treino, a matemática não é boa em todo o país porque o nível de conhecimento oscila muito. “Temos centros de excelência em varias instituições de ensino e fazemos um esforço grande com os medalhistas de matemática. No entanto há bolsões onde o domínio desse conhecimento deixa muito a desejar, impactando o desenvolvimento do aluno e, por conseguinte, o futuro da pesquisa”.

Em outros países como a Alemanha, França e Estados Unidos, o acesso mais universal ao conhecimento científico e à sua produção estimula o interesse dos estudantes. A ciência é reconhecida como geradora de soluções para a vida cotidiana, um importante canal de respostas aos desafios atuais. Não é à toa que a chamada “STEM Education”, focada nas ciências, tecnologia, engenharia e matemática é tão valorizada. A abordagem STEM não só promove a criatividade e o pensamento crítico, como motiva e inspira os jovens a usar o conhecimento adquirido para experimentar e inovar.

“Em 2013 e 2014 eu estava na Europa e nesse momento o Brasil estava bem, muitos pesquisadores que estavam fora voltaram. Hoje o clima é diferente, há grandes cortes de financiamento, os programas não tem bolsas de estudo. Apesar das principais agências estarem estão tentando combater essa situação por meio da internacionalização dos pesquisadores e seus projetos, a falta de perspectiva é grande. Os jovens, em início de carreira, estão sem direção, sem saber se serão absorvidos pelo mercado de trabalho”.

Além de colocar em risco o desenvolvimento do país, a atual ausência de fomento à pesquisa científica produz um perigoso isolamento. Em um passado não tão distante, o Brasil enviava estudantes totalmente financiados para se aprimorarem no exterior. Sim, o universo acadêmico é internacional por premissa e sair da zona de conforto para se tornar competitivo no mundo de um modo geral, fundamental. Por todas essas razões, fomentos à pesquisa e ao processo de internacionalização são tão essenciais, eles estimulam nossa inserção no âmbito global. Se professores e pesquisadores se mantiverem nos lugares onde estudaram, não haverá mobilidade e troca de conhecimento, como em outras partes do mundo.

Tiago explica que conversar com outros pesquisadores, compartilhar o que você esta fazendo e ouvir o que eles pensam é chave para a evolução da nossa ciência. Sua experiência fora do Brasil trouxe um grande diferencial à sua vida. “Do lado pessoal eu vim de uma família pobre e consegui seguir carreira. Tenho claro que uma das poucas maneiras de você conseguir sair do lugar e transitar em novos ambientes ou grupos é a Educação. Aprendi outro idioma, a cada dia era exposto a algo novo, e ganhei uma visão diferente do mundo, afinal, os problemas do seu país são comuns a outros lugares. Do ponto de vista técnico, pude trabalhar com os melhores cientistas da minha área e me colocar em uma categoria profissional melhor. E, apesar de ser possível nos desenvolvermos estudando aqui, a interação com esse “mindset” (mentalidade) global é necessário para entender o que está acontecendo. Ela nos coloca em contato com o que os grandes cientistas estão fazendo e no que estão pensando”.

A retomada aos incentivos para pesquisa e desenvolvimento científico é urgente. Uma internacionalização boa, facilita o acesso a grandes potencias de diferentes áreas e insere o Brasil no mapa do mundo, garantindo o compartilhamento de conhecimento. Trata-se de criar um “network” de cientistas sem fronteiras que não permite que as pessoas se isolem. “Você passa a fazer parte de uma rede, trabalhando com pessoas de outras origens e culturas, se reconhecendo na produção e projetos de outros profissionais”.

Atualmente, Tiago está envolvido em um projeto interdisciplinar na USP, que envolve outros grupos de pesquisa com larga experiência internacional do IMPA, FGV, UFAL e Unicamp, no qual modelos matemáticos ajudam a otimizar distanciamento social na pandemia. O mecanismo de controle, permite simular quando, por quanto tempo e qual o nível de distanciamento deve ser implantado em cada localidade, a fim de evitar o colapso do sistema de saúde.

A pesquisa é apoiada pelo Instituto Serrapilheira, primeira instituição privada, sem fins lucrativos, de fomento à ciência no Brasil, criado para valorizar o conhecimento científico e aumentar sua visibilidade. No intuito de fomentar uma cultura de ciência no país, o instituto atua em duas frentes: Ciência e Divulgação Científica.

Andrea Tissenbaum, a Tissen, escreve sobre estudar fora e a experiência internacional. Também oferece assessoria em educação e carreiras internacionais

Entre em contato: tissenglobal@gmail.com

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