O enfrentamento da Covid-19 durante um MBA nos Estados Unidos

O enfrentamento da Covid-19 durante um MBA nos Estados Unidos

Andrea Tissenbaum

14 de julho de 2020 | 11h04

Lauana no navio em San Diego | Foto: Lauana Herbert

Lauana no navio em San Diego | Foto: Lauana Herbert

A dramática experiência da médica brasileira, estudante da Universidade do Sul da Califórnia, que atendeu tripulantes de um navio infectado pelo coronavírus. 

A médica mineira Lauana Rodrigues Pereira Herbert é bolsista do programa IBEAR MBA, da Universidade do Sul da Califórnia. Filha mais velha de uma família pobre, Lauana estudou em escola publica até o ensino médio, quando consegui bolsa em uma escola particular. Aos 17 anos, passou em medicina na Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, em seu primeiro vestibular. Durante a faculdade fez dois intercâmbios para os EUA, atuando como monitora voluntária em acampamentos de verão.

Quando se formou em 2006, Lauana foi para a Austrália, onde fez sua residência em emergência hospitalar e revalidou sua licença médica para poder atuar na área de saúde. Em 2012, deixou o país e foi trabalhar como médica em navios de cruzeiro. Fez cursos na Itália, viajou pela Europa e tornou-se supervisora dos médicos da empresa, encarregada da gestão da América do Sul e da interface com órgãos governamentais ligados à saúde. Paralelamente, nos meses em que estava em terra, era médica diretora de um serviço de triagem em Belo Horizonte que atendia mais de 10 planos de saúde. Foi lá que tomou gosto pela área de administração em saúde.

“Percebi que havia uma comunicação difícil entre médicos/enfermeiros e a administração dos órgãos de saúde. Mas como tudo em saúde além de ser muito caro em termos de recursos, tem sequelas graves, esse bom diálogo é essencial. Eu queria entender melhor o mundo administrativo, atender melhor as partes envolvidas. Conhecia bem os sistemas de saúde brasileiro, europeu, australiano e americano, mas não tinha nenhum estudo em gestão. Foi quando decidi fazer um MBA nos Estados Unidos para me aperfeiçoar nessa atividade. Conheci a USC, que é a 15ª universidade nos rankings mundiais e o IBEAR, um programa voltado a profissionais com pelo menos 10 anos de experiência. No meu primeiro dia de aula, me emocionei e assustei ao perceber que era a única médica em minha turma. Enquanto meus colegas vinham do mercado, meu único feito havia sido salvar vidas. Recebi uma bolsa parcial de 35% e fiquei orgulhosa de fazer parte de um time de pessoas altamente qualificadas de várias partes do mundo”.

Em sala de aula na USC | Foto: Lauana Herbert

Em sala de aula na USC | Foto: Lauana Herbert

Lauana conta que o início de seu programa de MBA foi muito difícil, porque não sabia o básico. “Fazia perguntas de iniciante e estudei muito para acompanhar meus colegas”. Mas foram exatamente seu foco nos estudos e sua dedicação integral ao programa que a fizeram crescer exponencialmente. A perseverança de Lauana a levou a ser considerada uma das 10 melhores de sua turma. “Vou me formar na Beta Gama Sigma Society, uma comunidade da USC que reconhece os melhores alunos. Aprendi muito durante o IBEAR, sobretudo sobre a aplicabilidade dos conteúdos oferecidos em minha área. Meu plano era depois de formada trabalhar como consultora de saúde nos Estados Unidos. Tudo ia muito bem até o coronavírus aparecer. Foi um momento muito difícil para mim porque, sendo uma médica brasileira nos EUA, vi o caos se instalar e apesar de ter capacidade técnica para ajudar, não podia fazer nada.

Nos navios, as tripulações não podem sair livremente. Vários países fecharam as fronteiras para tripulantes e a mortalidade em março estava altíssima. Ficar “preso” em um navio era praticamente uma sentença de morte e acompanhar essa realidade foi muito angustiante. Meu ex-chefe me ligou e disse que eles estavam desesperados, precisando de médicos com urgência. No entanto, como meu visto de estudante não me permite trabalhar nos Estados Unidos eu não tinha como apoiá-los. A situação era tão grave, que ele conseguiu que a imigração e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças – CDC americanos me dessem permissão para atuar como médica voluntária. Então, no meio do meu MBA, fui atender um navio americano, atracado em San Diego, com 800 tripulantes enclausurados. Em duas horas arrumei minhas coisas e fui para a “guerra”. Quando cheguei lá a expectativa era que eu vestisse meu jaleco e começasse a atender. Mas decidi primeiro conversar com o capitão e os enfermeiros, para criar um plano de ação. Percebemos que o que precisávamos fazer era otimizar nossos recursos. Nós tínhamos reuniões diárias com o CDC, médicos em terra, guarda costeira e outros profissionais, reportando o que estava acontecendo. Testamos todos os tripulantes em um único dia e mais de 200 casos foram confirmados. Em seis semanas, nosso navio ficou livre da COVID-19 e não apresentou nenhum novo caso. Como resultado, os tripulantes puderam voltar para suas vidas. Ninguém morreu ou ficou com sequelas da doença, todos se recuperaram integralmente”.

A conquista certamente causou muito orgulho à médica mineira que além de atender os tripulantes, ainda tinha que estudar para garantir um bom desempenho no MBA, porque suas responsabilidades permaneciam as mesmas. “De dia eu ficava no navio e à noite, durante meu plantão para qualquer emergência, assistia às aulas gravadas online e fazia os trabalhos. Consegui manter minhas notas. Foi uma das coisas mais difíceis que já fiz na minha vida. Mas sem dúvida, o MBA me ajudou a tornar tudo mais eficiente e produtivo. Consegui mudar o curso do surto de uma doença desconhecida dentro daquele navio. Sem dúvida, meus conhecimentos médicos ajudaram demais, mas compreender bem o processo de gestão foi essencial. A experiência confirmou que meu sonho é factível e que há necessidade de profissionais de saúde experientes, bem qualificados em gestão. Quero continuar fazendo isso, em situações mais calmas, de preferência. É difícil encontrar um profissional com muito conhecimento médico que tenha interesse em gestão. Há um certo preconceito na própria área de saúde quando um médico “abandona” a clínica e se dedica ao processo administrativo. No entanto, o fato é que ser médico, ter conhecimento de clínica e estar munido de boas ferramentas de gestão para administrar situações e criar planos de ação é fundamental. O resultado é sempre positivo para todas as partes”.

Lauana com seus colegas do IBEAR | Foto: Lauana Herbert

Lauana com seus colegas do IBEAR | Foto: Lauana Herbert

Lauana está de volta em Los Angeles, estudando online e se forma no dia 16 de julho. Está procurando emprego em consultorias estratégicas na área de saúde. “Tenho amplo conhecimento de operações e implementação de serviços em saúde. Quero ajudar instituições privadas ou públicas a melhorar sua capacidade de atendimento e de comunicação com profissionais da área”, ela explica.

“Minha temporada aqui foi atípica. Antes do COVID-19 a experiência de estar no campus com pessoas de várias partes do mundo foi muito enriquecedora. Nossas aulas e palestras presenciais eram muito participativas. Minha turma fez uma viagem para a China, em dezembro de 2019, na qual visitamos 10 empresas, conhecemos CEOs, estratégias e formas de investimento. Foi interessante ver o que é a China no setor de negócios e como o país não está brincando em serviço. Da mesma forma, visitamos o Vale do Silício. Só que depois do COVID-19, todos os programas presenciais foram cancelados. A USC vem adaptando os cursos para as aulas online, mas não tem sido fácil, todos foram pegos de surpresa. Em março, a universidade nos garantiu que os alunos estrangeiros que quisessem deixar o país poderiam retornar com o visto de estudante. Também nos deu a opção de transformar nossas notas em conceitos, de A à D. Decidi ficar para evitar lidar com a incerteza, não queria sair para depois não conseguir voltar. Fiz bem porque a questão dos vistos de estudantes internacionais ficou bem restritiva. Além disso, eu também não tinha como cancelar meus compromissos financeiros, como aluguel e as mensalidades escolares, que permaneceram inalterados, apesar dos nossos questionamentos.

Estudar online e ficar em casa isolada durante este projeto internacional tem sido frustrante. É que o IBEAR é um programa diferenciado, que propõe um ano intenso, em tempo integral, com muita troca e uma infraestrutura impressionante. De certa forma, parte disso se perdeu com o distanciamento físico. Alguns dos meus colegas voltaram para seus países. Os brasileiros ainda estão todos aqui. Vamos nos formar à distância em alguns dias. Posso afirmar que nosso aprendizado, em todos os sentidos, foi muito real”.

Andrea Tissenbaum, a Tissen, escreve sobre estudar fora e a experiência internacional. Também oferece assessoria em educação e carreiras internacionais.
Entre em contato: tissen@uol.com.br

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