Nove meses e um pouco mais na Índia

Nove meses e um pouco mais na Índia

Andrea Tissenbaum

24 Janeiro 2017 | 07h58

Camila no RIMYI | Foto: Camila Raso

Camila no RIMYI | Foto: Camila Raso

Qual caminho você quer trilhar ou retomar? Inspire-se com a experiência da professora de yoga Camila Raso em Pune, na Índia!

Tirar um tempo para si. Usar esse tempo para viajar. Escolher um lugar desafiador, diferente de tudo que você conhece. Fazer uma jornada de autoconhecimento. Essas são algumas das premissas do que chamamos de um ano sabático. Algo que todos nós, em algum momento da vida, deveríamos fazer.

Camila Raso tem 36 anos e é professora de yoga. Sua história com a prática começou quando tinha 14 anos de idade e nunca mais parou. É na yoga que ela encontra serenidade, clareza e percepção que a ajudam a expandir a consciência, aproximando-a das respostas.

Desde criança, Camila tem verdadeiro fascínio pela Índia. Não sabe explicar de onde vem essa ligação. “A Índia apareceu de diversas formas na minha vida. Eu fui cedo pra lá, foi uma das minhas primeiras viagens. E até hoje a Índia ainda volta para mim, não consegui praticar o desapego. Quando estou lá me sinto em casa, fico muito feliz”, ela conta.

Ruas de Pune | Foto: Camila Raso

Ruas de Pune | Foto: Camila Raso

Em julho de 2005 Camila foi pela primeira vez para Pune, no estado de Maharashtra, para praticar yoga. Uma das cidades mais vibrantes do país, Pune sintetiza a “nova Índia”, misturando o antigo e o moderno.

Com pouco mais de três milhões de habitantes, a cidade é conhecida por suas indústrias automotivas e institutos de pesquisa de tecnologia da informação. No entanto, Pune também é um importante centro espiritual. É lá que ficam o Osho International Meditation Resort, e o Ramamani Iyengar Memorial Yoga Institute (RIMYI), entre outros centros e escolas. Estudantes de todo o mundo vão a Pune para realinhar seus valores de vida e para aprender ou se aprofundar em suas práticas de meditação e yoga.

“Eu gosto de coisas profundas”, Camila explica. “Fui uma das primeiras brasileiras a ir para Pune. Pratiquei yoga por um mês no RIMYI e viajei por outros 15 dias. Passei por altos perrengues, porque a Índia não é nada fácil, especialmente na sua primeira viagem para lá”, acrescenta.

Assim que retornou a São Paulo, Camila decidiu que precisava voltar e ficar em Pune por um ano, praticando yoga, se preparando. “Uma voz interior me pediu para estar lá naquele momento”. E ela foi, desta vez com seu marido, o Edu, um publicitário que também pratica yoga há anos.

Camila e Edu em Pune | Foto: Camila Raso

Camila e Edu em Pune | Foto: Camila Raso

“Vendemos tudo o que tínhamos e partimos. Nós chegamos na época das chuvas de monções. Foram quarenta dias de águas torrenciais que não paravam. Eu praticava todos os dias de segunda a sábado no RIMYI. À tarde ficava na biblioteca estudando. Tive o prazer de ouvir o Iyengar, fundador do instituto e uma referência para todos nós, falar na biblioteca algumas vezes. Aprendi que a velhice não existe, não há idade para fazer as coisas. Vários dos colegas que praticavam comigo tinham mais de 70 anos. Fui muito feliz, foi um tempo muito especial na minha vida”, ela conta.

“Eu já tinha tido um gostinho do RIMYI no ano anterior. É um lugar maravilhoso para aprender sobre a vida. Pessoas de todas as partes do mundo vão para lá, com diferentes propósitos e necessidades. E eles tem uma sensibilidade e compaixão especial com os alunos. Eu gosto de beber água da fonte e para mim foi uma experiência incrível, que vou carregar por toda a vida”, acrescenta.

B.K.S. Iyengar no RIMYI | Foto: Camila Raso

B.K.S. Iyengar no RIMYI | Foto: Camila Raso

Durante a entrevista, Camila me explicou que não queria falar do yoga. “Mas é que viver a prática diariamente, naquele espaço, foi fantástico. O sentimento mais forte que guardo foi o estado de contentamento, de felicidade plena que atingi. Porque está tudo lá, e eu entrei nessa frequência. Aprendi coisas maravilhosas porque tinha espaço para isso. Nós morávamos em um quarto. Eu tinha seis camisetas e duas calças. Não precisava de mais nada”.

Em sua vida, Camila busca um aprimoramento, se entender, ser uma pessoa melhor. “Eu sabia que a Índia era o lugar que me ajudaria nesse processo de reflexão. Porque você perde todas as referências, fica analfabeto de repente, não compreende o idioma. Essa perda faz com que você mergulhe muito pra dentro. Para quem busca isso é um lugar muito interessante, as vivências são muito intensas. Certa vez parei na rua para olhar uma mulher trabalhando em uma construção – lá as mulheres fazem muito serviço de pedreiro. O grupo estava comendo e ela me convidou para que me juntasse a eles, compartilhando seu almoço.

B.K.S. Iyengar e Camila | Foto: Camila Raso

B.K.S. Iyengar e Camila | Foto: Camila Raso

Com todos os seus conflitos entre a busca pela ocidentalização e a tradição, a Índia me mostrou o melhor do ser humano. É um país onde a delicadeza e a suavidade estão presentes nas relações. Os indianos são detalhistas, cuidadosos para fazer as coisas. São objetivos, mas capazes de perceber alternativas para um sim ou um não. E deixam a vida acontecer”.

Sobre o retorno, Camila conta que não foi nada fácil voltar a viver em São Paulo. “Exatamente porque você mergulha nesse silêncio. Mas tenho claro que esta experiência me ensinou a ser muito mais paciente, a ter uma visão mais ampla e generosa do mundo e das pessoas. Se você puder refinar o seu ouvido para essa voz interior, não deixe o passional te atrapalhar. Não é uma jornada fácil, mas é extremamente rica”.

Desde 2005, Camila Raso retorna a Pune todos os anos. Para se reabastecer.

Camila, Edu e a pequena Vida, no RIMYI | Foto: Camila Raso

Camila, Edu e a pequena Vida, no RIMYI | Foto: Camila Raso

Andrea Tissenbaum, a Tissen, escreve sobre estudar fora e a experiência internacional. Siga o Blog da Tissen no Facebook e no Twitter