Brasileiras ganham bolsas para mestrado na Califórnia

Brasileiras ganham bolsas para mestrado na Califórnia

Andrea Tissenbaum

12 Junho 2018 | 10h04

Liziane Silva, nova bolsista da USC à direita de Barack Obama | Foto: Liziane Silva

Liziane Silva, nova bolsista da USC à direita de Barack Obama | Foto: Liziane Silva

Elas são as novas bolsistas do mestrado em empreendedorismo social da University of Southern California – USC e partem em 20/6. Confira!

O que você acha de fazer um mestrado em Empreendedorismo Social nos Estados Unidos? Anualmente, a Fundação Lemann, em parceria com a University of Southern California – USC, oferece duas bolsas de estudo para brasileiros no programa de Mestrado em Empreendedorismo Social

O objetivo é alavancar as iniciativas de um dos principais centros da universidade, o Lloyd Greif Center for Entrepreneurial Studies e, ao mesmo tempo, beneficiar alunos brasileiros que possam criar iniciativas de empreendedorismo e impacto social no Brasil. Afinal, os problemas complexos atuais exigem perspicácia comercial e lideranças capazes de proporcionar uma mudança sustentável.

No próximo dia 20 de junho, duas brasileiras “do bem” embarcam para os EUA, onde darão início ao seu programa de mestrado como bolsistas. A aposta nelas reforça o desejo de mudança no Brasil e o investimento em um trabalho persistente e de alto impacto.

Liziane Silva com a equipe da INK | Foto: Liziane Silva

Liziane Silva com a equipe da INK | Foto: Liziane Silva

A curitibana Liziane Silva, de 32 anos, mora em São Paulo desde 2014. Formada em Economia na Universidade Federal do Paraná, tem uma sólida trajetória como empreendedora social.

Criadora da INK, uma empresa voltada à gestão de projetos sociais, desde 2012, acumula com sua equipe oito prêmios nacionais e internacionais. “Nós trabalhamos com uma certificação internacional em projetos sociais que é disseminada pelo mundo. A INK já trabalhou com 900 organizações, gerenciou 53 projetos e treinou mais de 2 mil profissionais da área”, ela conta.

“A base do nosso trabalho é fazer com que a gestão do projeto seja muito eficiente. Analisamos a maximização do potencial dessas organizações, ampliando a utilização dos recursos e facilitamos a comunicação da rede. É um trabalho de bastidores que garante que os objetivos propostos sejam cumpridos, causando o maior impacto possível.

Desde o início de nossa trajetória eu sempre soube que a INK tinha muito potencial. No entanto, eu também sabia que em algum momento ia querer fazer coisas novas na área de empreendedorismo social. Em 2015 comecei a organizar uma transição e no ano passado, com a empresa mais preparada, vi uma divulgação na mídia sobre essa bolsa. Eu tinha uma viagem marcada para os Estados Unidos na mesma época e resolvi ir até a USC para entender melhor o programa. Essa visita fez muita diferença para mim, fiquei mais confiante para me candidatar.

Um aspecto do processo seletivo extremamente valioso, foi o de poder dizer as coisas que penso e sinto. Uma das perguntas mais difíceis da entrevista foi porque no colégio eu tive ótimas notas e na faculdade nem tanto. Respondi que não estudei o que realmente me interessava na faculdade, estava preocupada com o mundo, queria focar em empreendedorismo social. Entendi a importância do caminho do autoconhecimento. Conhecer seus pontos fortes e fracos e saber falar deles com clareza é fundamental”, reforça.

Esta não é a primeira vez que Liziane passa uma temporada estudando no exterior. Durante o ensino médio, fez um intercâmbio de um ano em Raleigh, Carolina do Norte. Ganhou uma bolsa de estudos oferecida pela empresa onde seu pai trabalhava. “Morei com uma família americana e me encantei em conhecer gente do mundo inteiro e viver culturas diferentes”. Depois disso, fez um intercambio de seis meses em Medelin, na Colômbia. Foi pela AIESEC, a maior organização estudantil do mundo, trabalhar como empreendedora social.

“Estou muito animada com a oportunidade. Quero falar do Brasil lá fora, mostrar a sociedade civil incrivelmente eficiente que temos aqui. Só que quero falar disso usando as ferramentas acadêmicas, através de pesquisa. Quero criar pontes e trazer conhecimento novo para as organizações. Tenho 14 de anos de experiência na área e estou no momento certo para fazer um download do meu conhecimento. Para mim esta é uma forma de me reabastecer, entendo isso como um sabático, um momento de transição com apoio, para pensar e adquirir novos conhecimentos”, conclui Liziane.

Luciana Chalita, bolsista da USC, com os empreendedores sociais do IPTI | Foto: Luciana Chalita

Luciana Chalita, bolsista da USC, com os empreendedores sociais do IPTI | Foto: Luciana Chalita

Formada em direito, Luciana Chalita, de 26 anos é de Aracaju. Desencantou-se com a profissão quando ainda era estagiária e resolveu juntar dinheiro para viajar. Foi para Londres assim que se formou e ficou por lá quatro meses, fazendo um curso de inglês. Conheceu alunos de várias partes do mundo e profissionais da ONU, com quem conversou bastante. Encantou-se com a possibilidade de trabalhar em uma organização internacional.

“Venho de uma realidade onde há pessoas muito pobres à nossa volta o tempo todo e percebi a necessidade de fazer alguma coisa. Quando voltei, disse a meu pai que queria me candidatar para trabalhar em uma organização internacional, fazer coisas maiores. Prontamente, ele me respondeu, bonito, você vive em um dos lugares mais pobres do mundo e quer fazer isso de Londres ou Nova York? Ele estava coberto de razão. Então fui atrás de organizações sociais aqui na minha região e me apresentei no IPTI – Instituto de Pesquisas em Tecnologia e Inovação. O diretor me avisou que havia a possibilidade de uma vaga abrir em alguns meses, mas que eu podia experimentar o trabalho lá como voluntária. Aceitei o desafio. Quando a vaga abriu, comecei como apoio institucional e de novos negócios. Depois passei para a coordenação de projetos. 

No ano passado vi a noticia sobre essa bolsa aqui no Blog da Tissen. Eu nunca pensei que conseguiria uma oportunidade como essa! Sempre fui muito boa de relacionamento, nunca uma aluna exemplar. Mas no IPTI nós atuamos exatamente nessa área, trabalhamos diretamente com a comunidade e a minha experiência em campo é única. Mandei alguns e-mails para a USC para entender melhor como era o curso. Também enviei meu currículo para uma pré-seleção. No fim deu certo e fui chamada para a entrevista final. Estava bem tranquila porque meu trabalho me satisfazia muito, tinha emplacado um projeto interessante que ia coordenar”, explica.

O IPTI surgiu em 2003 em São Paulo, fundado por ex-professores da USP e da UFScar, que queriam criar uma instituição que ampliasse o escopo das artes, ciências e tecnologia nas comunidades, melhorando a qualidade de vida das pessoas e o IDH – índice de desenvolvimento humano.

Luciana Chalita, em seu trabalho, no IPTI | Foto: Luciana Chalita

Luciana Chalita, em seu trabalho, no IPTI | Foto: Luciana Chalita

“A cidade sergipana de Santa Luzia do Itanhy foi a escolhida para dar inicio ao projeto em 2009. É uma comunidade de pescadores, com muitos quilombolas onde 45% das pessoas vivem em extrema pobreza. Em 2010 nos tornamos uma organização social. Desenvolvemos projetos em educação, saúde e geração de renda – com foco em economia criativa – trabalhando com os ativos do lugar. O grande diferencial é ajudar as pessoas a criar a partir do que elas sabem fazer, colocando-as em nível de mercado global.

A qualidade final dos produtos é excepcional. Alguns de nossos jovens desenham para marcas brasileiras importantes atualmente. Oferecemos cursos de artes, design, cinema, literatura e programação (música e eletrônica). Também oferecemos um curso de inglês, fundamental para ajuda-los a fazer negócios internacionais. Recentemente recebemos um aporte de recursos do governo de Sergipe e no próximo ano teremos um prédio novo. Vai ser ótimo poder participar da coordenação do projeto quando retornar ao Brasil”, enfatiza Luciana.

“Eu tenho muitas expectativas sobre o impacto desse mestrado em minha vida profissional. Estou certa que o ganho acadêmico será enorme. Serei uma das mais novas da turma, então o desafio é grande. Acho ótimo ter a Liziane como parceira, admiro o trabalho dela e vou aprender muito no processo. Quero trazer a veia de negócios para o IPTI, gerando independência e sustentabilidade financeira aos nossos projetos. Quero voltar e ajudar nas iniciativas que já estão acontecendo. Aqui conseguimos fazer coisas importantes com a vantagem de entendermos a dinâmica, é importante trabalhar no Brasil. A gente fala a mesma língua, em todos os aspectos”, ela afirma.

Para você que está pensando na possibilidade de concorrer a uma bolsa de estudos, Luciana deixa uma dica: “Tente e vá com fogo nos olhos, vá atrás que pode dar certo. Eu sou o maior exemplo disso. Identifiquei um curso que se encaixava perfeitamente no meu perfil e funcionou. Encare como algo que não seja seu único objetivo de vida, mas como uma oportunidade que pode acontecer. Vá tranquilo, é melhor assim. Planeje o processo: crie um esquema para dar sequência ao trabalho que tem pela frente. Eu fiz isso e me ajudou muito”.

Andrea Tissenbaum, a Tissen, escreve sobre estudar fora e a experiência internacional. Também oferece assessoria em educação e carreiras internacionais
Entre em contato: tissen@uol.com.br

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Biblioteca Doheny - USC | Foto: Padsquad19, via Wikimedia Commons

Biblioteca Doheny – USC | Foto: Padsquad19, via Wikimedia Commons