A educação internacional sem fronteiras

A educação internacional sem fronteiras

Andrea Tissenbaum

29 de abril de 2021 | 08h21

A educação internacional sem fronteiras | Foto: Fredrik Alpstedt, via Flickr

A educação internacional sem fronteiras | Foto: Fredrik Alpstedt, via Flickr

Sempre mais ampla que o planejado, essa jornada de aprendizados pode tornar-se uma experiência inclusiva para todos. O que precisa mudar?

Quando começamos uma jornada, seja lá para onde for, nos colocamos a mercê de experimentar uma passagem. Curtas, médias ou longas, jornadas são viagens que sempre trazem em sua essência a possibilidade do convívio com o inesperado, com o diverso e com o inusitado. Se vamos de peito aberto, intercâmbios extraordinários podem acontecer e mudar o rumo de nossas histórias. É só uma questão de estarmos atentos, disponíveis e dispostos a receber aquilo que nos é oferecido.

A cada encontro com o outro, seja lá quem for ou onde for, aprendemos sobre o que desconhecemos e sobre nós mesmos. Apesar de, em um primeiro momento, desconstruirmos nossa identidade para receber o novo, reacendemos as chamas de nossas origens no processo e entendemos melhor a essência de quem somos. Nessas horas, nos dispomos a flexibilizar nossos limites internos e até a questionar os externos. Afinal, misturas se fazem a partir de nossa capacidade de absorver a grandeza de nossa própria cultura e da grandeza das culturas dos demais.

Foi nessa toada que a extraordinária cantora brasileira, Monica Salmaso, criadora da série “Ô de Casas”, que já reuniu diversos artistas em mais de 150 encontros virtuais durante a pandemia, iniciou sua fala sobre a jornada e o pertencimento na Conferência Virtual da Associação Brasileira de Educação Internacional – Faubai 2021. Uma das mais inspiradoras e comoventes que assisti.

“Nós somos uma soma de nossos interesses, oportunidades e escolhas”, ela disse. “Nossas jornadas, flexíveis e mutáveis, são mais amplas do que planejamos. Hoje vivemos o desmoronamento de um futuro presumido, resultado de uma situação devastadora que se assemelha a uma guerra. E o amanhã, como será? O que aprendemos no caminho?”

Retiradas do contexto específico da pandemia, essas perguntas valem para qualquer experiência. Nossa capacidade de nos reinventarmos, permite criar caminhos que dão novos sentidos ou propósitos às nossas vidas, acolhendo o que importa e o que é valioso.

Por meio de sua música, Monica Salmaso, transcende fronteiras e traz as mais diferentes pessoas para perto, independentemente de sua localização. Apesar da distância, a troca não só acontece mas é extremamente rica. E, como a música, experiências educacionais também podem ir além do espaço físico.

Intercâmbios virtuais e currículos internacionalizados são ações inclusivas que democratizam a vivência internacional e a aquisição de habilidades globais. Potencializam todas as dimensões das trocas interculturais e aprofundam o autoconhecimento. Criam espaços que promovem a equidade e a colaboração. Disseminam conhecimento, compromisso social e engajamento global.

Estamos vivendo um momento de grande impacto que clama por transformações internas e exige o desenho de novos caminhos. Precisamos de novas lentes para olhar a jornada, compartilhar melhores práticas e estabelecer diálogos. A educação, direito universal, demanda que a diversidade cruze trilhas, promovendo esforços colaborativos para resolver problemas que vão muito além de fronteiras.

Historicamente, as universidades são espaços propulsores da diversidade e da pluralidade. Nelas, as trocas, institucionais ou individuais, procuram se fundamentar na reciprocidade, cooperação e solidariedade. Diferentemente do que estamos habituados a ouvir, intercâmbios não se restringem a estudar ou pesquisar em outro país. A interação entre pessoas, mesmo que virtual, é uma potente forma de intercâmbio na qual nossa escuta e a escuta do outro se ampliam e a troca de informação e experiências acontece. Sistemas locais são impactados a partir da construção desses novos conhecimentos. Ideias que, quando somadas a outras ideias, geram valiosas alternativas.

As estruturas tradicionais do ensino superior precisam ser repensadas. Longe de seguirem o caminho da rigidez, devem optar pela flexibilidade e sinuosidade natural da aquisição do conhecimento, dos percursos do pensamento e da capacidade de relacionamento entre os mais diversos seres humanos. Intercâmbios acadêmicos virtuais como o BRaVe – Brazilian Virtual Exchange, criado pela Faubai e implementado na Unesp e na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), entre outras instituições de ensino, demonstram, por meio de seus resultados positivos, a necessidade de mudança. O programa inovador, possibilita aos estudantes de graduação e pós-graduação cursar disciplinas online, desenvolvidas em parceria com universidades estrangeiras, e interagir com colegas e professores de várias partes do mundo. Centenas de alunos e docentes brasileiros vêm se beneficiando dessa modalidade de ensino. Outros milhares em alguns países europeus e nos Estados Unidos, por meio dos mais diversos programas virtuais desde 2006.

Utopia? Não sei. Mas sem ousadia e sem riscos, não transformaremos as estruturas que conhecemos e não evoluiremos. É preciso ter coragem para iniciar essa jornada de diálogos interculturais mundo afora, incluindo o maior número possível de estudantes. Resiliência e capacidade de adaptação também são necessárias. Mas a troca ajuda a expandir nossas mentes e a construir identidades. Ela é o motor que impulsiona a engrenagem do porvir.

A Conferência Virtual Faubai 2021 começou dia 20 de abril e vai até 6 de maio. Inscreva-se AQUI.

Andrea Tissenbaum, a Tissen, escreve sobre estudar fora e a experiência internacional. Também oferece assessoria em educação e carreiras internacionais.
Entre em contato: tissen@uol.com.br

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