Voando abaixo do radar
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Voando abaixo do radar

Apesar do papel fundamental do MEC, inclusive em relação ao repasse de verbas, há muito a ser feito em prol da Educação pelos Estados e municípios independentemente do governo federal neste momento de instabilidade

Ana Maria Diniz

28 de março de 2019 | 13h25

Tenho uma teoria na vida que sempre me ajudou muito em momentos difíceis. Quando as dificuldades parecem complexas demais para serem resolvidas e, para completar, grande parte da solução do problema não está nas suas mãos, depende dos outros, a melhor coisa a fazer é baixar a cabeça e focar nas pedras do caminho, com o objetivo de transpor cada uma delas, uma de cada vez.

Acredito que vivemos um momento desses no Brasil, principalmente na Educação. A confusão do MEC é grande, nada parece fazer sentido, é uma situação literalmente desesperadora. Ao mesmo tempo, há inúmeras coisas que os Estados e municípios, os entes federativos que de fato executam a Educação,  podem e devem fazer para melhorar a qualidade do nosso ensino e tirar a Educação brasileira do buraco.

Os Estados e municípios mais pró ativos já perceberam que a evolução da Educação neste momento, mais do que nunca, depende deles e estão em franca atividade focando no que é importante como, por exemplo, na alfabetização das crianças e na aplicação de provas diagnósticas para identificar já no inicio do ano o que as crianças sabem e o que não sabem para, a partir disso, elaborar um plano de reforço com sequências didáticas estruturadas que ajudam o aluno a aprender o que precisa. Outros estão dando bastante ênfase na gestão eficiente das secretarias de Educação, repensando cargos e salários inclusive com a ajuda instituições renomeadas da sociedade civil especializadas no tema.

A nível macro e estratégico, os dois órgãos fundamentais que reúnem as secretarias de Educação dos Estados, o Consed, e as dos municípios, o Undime, têm procurado fazer a sua parte, participando ativamente da articulação e do suporte às secretarias na tarefa de tirar a BNCC Base Nacional Curricular Comum do papel para torná-la realidade viva nas escolas até 2020. Os Estados, agora, também têm um desafio adicional: a implementação da reforma do Ensino Médio, que precisa convergir para incorporar a BNCC desta etapa de ensino, homologada em dezembro do ano passado, ainda em discussão com os conselhos estaduais de Educação de cada Estado brasileiro.

Tudo isso corrobora com a tese que há muito o que se fazer, independentemente do governo central . O MEC tem um papel fundamental, inclusive em relação ao repasse de verbas. Porém, neste momento de instabilidade, Estados e municípios devem e podem avançar, voando abaixo do radar, “under the radar”, na expressão em inglês, para que possam trabalhar em paz.

Tenho a convicção de que a Educação de um país só muda quando ela passa ser o propósito para toda a sociedade. Felizmente, no Brasil, evoluímos muito em relação ao envolvimento da sociedade civil em torno de um projeto comum de Educação de qualidade para o país. O Movimento Todos Pela Educação, do qual sou fundadora, é um ótimo exemplo disso e tem contribuído imensamente para aumentar a consciência dos brasileiros sobre a importância da Educação e de seu papel estratégico para o desenvolvimento econômico do Brasil.

Os cidadãos, a grande maioria da comunidade educadora e os entes federados que executam a Educação na ponta estão muito mais maduros e preparados para ajudar a Educação brasileira a dar um salto de qualidade e, assim, começarmos a fechar o “gap” educacional que tanto nos distancia dos países desenvolvidos. Estranhamente, neste universo somente um ator está destoando e desafinando a música, e ele é exatamente o governo federal.