Universidades em crise de identidade
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Universidades em crise de identidade

Se uma geração atrás fazer uma faculdade e ter um diploma era um meio de subir a ladeira social, hoje, para a maioria dos jovens, é uma apólice de seguro contra a queda

Ana Maria Diniz

13 de setembro de 2019 | 12h59

Shannen, de 17 anos, é uma garota americana de família pobre, nascida no Bronx, que frequenta o último ano do ensino médio e passa as tardes e noites estudando para entrar em uma universidade. Visivelmente exausta, abaixo do peso, ela não está empolgada com a faculdade, mas continua a se esforçar porque sabe que o seu futuro, ou melhor, a sua sobrevivência, depende de um diploma. A história, real, é contada pelo escritor e jornalista Paul Tough no livro The Years That Matter Most: How College Makes or Breaks Us, sobre a situação crítica em que se encontra o ensino superior dos Estados Unidos e de todo o mundo, e está longe de ser um caso isolado.

Apesar de estar sendo muito mais discutida e documentada pelos americanos, a crise das universidades é global e centenas de milhares de garotos e garotas de diferentes de países vêm experimentando o mesmo desalento de Shannen, se esforçando para entrar e pagar uma faculdade cada vez menos motivados pela esperança e mais pelo medo.  “Se há uma geração ter um diploma era um meio de subir a ladeira social, hoje, para a maioria dos jovens, é uma apólice de seguro contra a queda, para não piorar de vida”, escreve Tough. De fato, as universidades foram por muito tempo um poderoso mecanismo de mobilidade social, mas a engrenagem enguiçou, tornando-as disfuncionais, sem significado e excludentes.

A cultura que vigora dentro do campus está no cerne da questão. Na maioria das instituições, a aprendizagem foi desvalorizada em detrimento de métricas que alimentam os rankings. Os currículos em estilo “bufê”, com módulos e cursos desconectados, transmitem a ideia de que o aprendizado ocorre quando se empilha o conhecimento como se fossem blocos de construção. Mas sem argamassa para conectar esses blocos, o que se aprende é efêmero e inútil. Ao final, a maioria dos estudantes não adquire habilidades de pensamento crítico, resolução de problemas e raciocínio analítico, essenciais para o trabalho, mostrando que a diferença entre o que as faculdades prometem e o que entregam tornou-se um abismo. Essa realidade é ainda pior no Brasil, onde as universidades estão a anos luz das americanas e europeias.

Estamos cansados de saber que não podemos continuar formando jovens para um mundo que já não existe mais, mas persistimos no erro. No ensino básico, apesar de as transformações ainda não terem chegado às salas de aula de forma sistêmica, este é um assunto que vem sendo pensado há alguns anos. Mas as universidades se mantiveram desconectadas e, até agora, muito pouco se falou e se fez para preparar os alunos para a vida profissional em um contexto em que as próprias profissões estão desaparecendo.

Existe hoje uma pergunta de 1 milhão de dólares: como fazer a universidade significativa novamente no contexto de rápidas mudanças no cenário mundial e com grande influência da tecnologia que muda a lógica das coisas a todo o momento? Em seu último relatório sobre o assunto, o World Economic Forum não acredita que o caminho seja através das grandes reformas educacionais, pois são muito lentas. A inovação tem de vir do zero. Isso significa que, tal como nas start-ups, os educadores devem poder inovar, se aproximar dos alunos, falhar e ser recompensados por ideias que fazem a diferença. Segundo o estudo, é assim que as universidades irão achar soluções para os seus problemas e atender às necessidades dos alunos. Alguns passos iniciais nessa direção, segundo o World Economic Forum, são:

  • Dar liberdade ao professor de escolher o material e o método de ensino.
  • Investir nos funcionários implementando iniciativas internas de aprendizagem.
  • Desenvolver habilidades reflexivas nos alunos.
  • Maximizar a colaboração entre professores e alunos.
  • Apoiar os alunos, buscando entender seus interesses e valores e oferecendo oportunidades reais que lhes permitam aplicar esses interesses e valores.
  • Fornecer informações mais precisas sobre perspectivas de emprego após a graduação.

Uma cultura acadêmica deve abraçar a disseminação e a criação de conhecimento em alto nível. Mas isso não se consegue com um ou dois cursos obrigatórios ou em experiências aleatórias de aprendizagem fora da sala de aula. Um ou dois seminários de redação não são suficientes para produzir escritores competentes, nem os estudantes aprendem sobre liderança apenas atuando em grêmios estudantis.

Se não começarmos a chacoalhar o modelo atual, o ensino superior continuará no caminho da obsolescência e irá desmoronar. Como sociedade, não podemos deixar que isso aconteça.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: