Uma janela de oportunidade para transformar a nossa Educação
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Uma janela de oportunidade para transformar a nossa Educação

O ensino público no Brasil só vai melhorar se a população se comprometer de fato com a questão educacional e cobrar uma real transformação das nossas escolas; o protesto da semana passada foi um passo importante nesse sentido

Ana Maria Diniz

23 de maio de 2019 | 12h11

Nas últimas semanas, me abstive de comentar aqui no blog sobre as crises e polêmicas recentes envolvendo o Ministério da Educação que culminaram nos protestos de quarta, dia 15. Tomei essa decisão porque não queria escrever mais do mesmo e, também, porque achei melhor esperar a poeira baixar para ter uma visão mais clara e abrangente da situação, sem me deixar levar pelas emoções. Foi bom ter dado esse tempo. Afinal, é difícil não se incomodar com a maneira como assuntos urgentes da nossa Educação vem sendo postergados ou conduzidos de forma pífia desde o início do ano.

Existe, porém, algo de positivo nessa bagunça. Hoje consigo vislumbrar um fio de esperança que não vejo desde que comecei a atuar em Educação, há duas décadas. Pela primeira vez, vejo o brasileiro realmente preocupado e engajado com a questão educacional do nosso país. A manifestação da semana passada, que reuniu 1,5 milhão de pessoas em 250 cidades, só perde em tamanho e relevância para a que ocorreu três anos atrás em torno do impeachment de Dilma Roussef. É lógico que nem todos os que foram às ruas estavam interessados no futuro das nossas universidades e escolas – muitos pegaram carona nessa onda para expor outras insatisfações. Mas isso não importa. O que importa é que a Educação virou manchete, capa de revista, editorial, enfim, ganhou o devido destaque e passou a ser prioridade para uma parcela expressiva da população.

Os brasileiros estão se apropriando da Educação e começando a entender que precisam arregaçar as mangas se quiserem usufruir desse direito, o que é ótimo! Uma sociedade só consegue progredir quando se conscientiza sobre os seus principais problemas e faz pressão para que as coisas mudem, explicam Daron Acemoglu e James Robinson em Por Que as Nações Fracassam, um livro imprescindível para entender como chegamos até aqui e de que maneira podemos virar o jogo. Muitos países que hoje figuram no topo dos rankings de desempenho estudantil e de desenvolvimento só assumiram tais posições porque a população se conscientizou sobre a importância da Educação pública e se mobilizou. Nos anos 70, o ensino do Finlândia era medíocre e só 10% dos alunos concluíam o ciclo básico no país. Trinta anos depois, o modelo finlandês virou benchmark de Educação de altíssimo nível – e isso aconteceu porque a população se comprometeu e cobrou uma real transformação de suas escolas.

É utópico, se não ingênuo, tentar replicar a experiência finlandesa de 40, 50 anos atrás. O contexto é outro, o mundo mudou. João Batista Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto, foi direto ao ponto nevrálgico da questão ao comentar os protestos da semana passada em sua coluna na Veja: a crise econômica e as mudanças demográficas puseram fim à era do mais – mais escolas, mais professores, mais recursos. As fontes secaram e, a partir de agora, só haverá dinheiro para a Educação e para todo o resto se o PIB voltar a crescer. Para isso, temos de elevar a produtividade no país, que é baixíssima. De 1982 a 2018, a produtividade no Brasil cresceu 0,5% ao ano – na China, 7,4%. Um brasileiro leva 1 hora para fazer um serviço que um americano realiza em 15 minutos. Em termos de riqueza, geramos 16,75 dólares por hora; os Estados Unidos, 67.

Aumentar a demanda por um ensino de qualidade é crucial para diminuir essa defasagem e almejar um futuro muito mais ambicioso para todos os brasileiros. A consciência é o primeiro passo nessa direção.

Tendências: