Um colosso chamado China
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Um colosso chamado China

Conhecer a China e o jeito chinês de pensar é crucial para qualquer um que faz negócios ou que se interessa pelos temas globais que afetam a humanidade; eu, finalmente, tive essa oportunidade

Ana Maria Diniz

07 de junho de 2019 | 12h39

“Quando a China acordar, a Terra tremerá”. A observação, feita por Napoleão há mais de 200 anos, se confirmou. O mundo trepida a cada novo passo do “gigante adormecido” que, há quatro décadas, despertou da letargia disposto a ocupar um papel de destaque na liderança global. A China tem avançado a passos largos nesse sentido, impactando a maneira de produzir, de negociar, de consumir, de inovar e também de educar. Hoje em dia, conhecer a China e o jeito chinês de pensar é crucial para qualquer um que faz negócios ou que se interessa pelos temas globais que afetam a humanidade.

Afinal, os chineses estão invadindo o mundo! Apesar de só 10% da população chinesa, 140 milhões de pessoas, terem passaportes (pasmem, é verdade!), os chineses nunca foram tão presentes e tão influentes nos quatro cantos do planeta como agora. Eu, finalmente, tive a chance de conhecer a China. E não imaginava o quanto ficaria impressionada, impactada, dia após dia, por tanta coisa diferente que vivenciamos na visita exploratória que fizemos eu, minha família e executivos da Península, nossa empresa de investimento, com o propósito de aprender mais, como diz meu pai.

Desde a abertura econômica, em 1979, a China vem criando leis e incentivos para tornar o país um ambiente mais propício aos negócios a fim de crescer, enriquecer e, enfim, se tornar uma superpotência. Nesses 40 anos, o país viu seu PIB aumentar 110 vezes e se tornou a segunda maior economia do mundo. A China cresceu tão depressa e em um ritmo tão frenético por tanto tempo que foi, sem dúvida, a nação que mais tirou pessoas da linha da pobreza. Em 1978, 95% dos chineses viviam nessas condições. Hoje, só 3%.

Um fator que assegurou essa conquista astronômica foi a Educação. Se não tivesse olhado seriamente a questão educacional e feito dela um projeto de nação, a China não teria sido capaz de dar esse salto colossal. O país priorizou o aprendizado das crianças enfatizando o conteúdo, principalmente nas matérias de STEM (sigla para Science, Technology, Engineering and Mathematics), e reconstruiu o seu sistema de ensino destruído durante a Revolução Cultural privilegiando políticas com verdadeiro potencial de elevar a qualidade do ensino.

O pilar dessa reconstrução foi a valorização do professor. Ele ainda ganha muito pouco, mas é uma das figuras mais respeitadas da sociedade (nós, brasileiros, precisamos descobrir como se faz essa proeza). Eles colocaram um grande foco em sua formação continuada e instituíram a remuneração por resultados. O governo chinês é super estratégico e sabe como ninguém desenhar planos de longo prazo para conquistar o que deseja. Sabe também como escalar iniciativas locais bem-sucedidas e transformá-las em políticas abrangentes. Xangai, ao figurar no topo do PISA, teve seu modelo replicado. Hoje, 95% da população está alfabetizada e 98% das crianças do país frequentam a escola, gratuita na etapa obrigatória, que vai dos 6 aos 15 anos.

O apreço pelo estudo é quase um frenesi, uma obsessão. A crença que vigora na sociedade chinesa é a de que cada um precisa se esforçar ao máximo para se sobressair, pois a vida é competitiva e quem se dá melhor é quem mais adquire conhecimento. Os alunos ficam no mínimo 7 horas na escola e estudam mais 13,8 horas por dia em casa (a média mundial é 4,9). É uma rotina puxadíssima, sobre-humana, mas entre os chineses, que foram criados de forma super rígida, disciplinada, não causa indignação. É famosa, inclusive, a figura da Tiger Mom, a mãe chinesa que exige do filho a excelência no estudo a qualquer custo.

Tenho dúvidas sobre essa Educação, apesar de reconhecer o beneficio de se criar uma cultura de valorização dos estudos. Definitivamente, esta é uma grande virtude da sociedade chinesa. Mas as crianças ficam esgotadas e não reclamam porque só conhecem esta realidade. Por outro lado, é tirado delas a capacidade de fazer escolhas por si próprias, pois tudo já esta totalmente planejado. Isso afeta a autonomia e a aprendizagem. Resultado: um jovem tecnicamente capaz, mas inábil e despreparado para lidar com um contexto de complexidade onde a vida real acontece. A criatividade não existe e nem tão pouco a espontaneidade. Eu não acredito numa Educação assim, ainda mais nos dias de hoje, em que a flexibilidade é uma necessidade.

Além disso, outro fenômeno acontece: com a política de uma criança por casal que vigorou até 2015, muitos jovens passaram a ser cuidados por seus pais e por seus 4 avós, portanto, por 6 pessoas. Esses jovens, quando chegam aos 25 anos, ja têm pelo menos quatro propriedades, os apartamentos dos adultos, e são muito ricos. Isso causa muita distorção de valores numa sociedade que prega o trabalho como forma de ascensão. Assim, os jovens ricos, grande parte deles, ficam literalmente perdidos e desestimulados. Um termômetro deste fenômeno é o consumo de bens de luxo. A média de idade das pessoas que compram esse tipo de produto na Europa é de 45 anos, na China é 25 anos!

Tal como na Educação, tudo na China é milimetricamente planejado pelo governo e o controle da informação é fundamental nesse processo. “Ele” está em todo o lugar! E observa o que todo mundo faz com 140 milhões de câmaras de reconhecimento facial, instaladas em pontos estratégicos nas grandes cidades. Os chineses acham normal, faz parte de vida deles. Em troca, ganham previsibilidade, segurança e incentivos para se comportarem bem. Em parceria com empresas de tecnologia, o governo criou um sistema de pontos para cada cidadão. Quanto mais eles seguem as regras – não fazem conversões proibidas, atravessam na faixa, pagam em dia prestações, etc. –  mais pontos ganham e, com isso, obtêm benefícios, como acesso a crédito mais barato. Caso pisem na bola, perdem pontos e recebem “punições” – não conseguem autorização para viajar entre províncias, por exemplo. O balanço de pontos de cada um pode ser visto  “real time” seu balanço de pontos e a pessoa pode mudar suas atitudes, se quiser.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o nível de digitalização, que é altíssimo. A barreira do on-line para o off-line está cada vez mais tênue em tudo. Isso fica visível no varejo. Lojas calculam seu estoque exato, baseado nos dados e hábitos dos consumidores, para não ter sobra nem falta de mercadoria. O cliente pede em casa ou no trabalho qualquer coisa e o pedido é entregue em no máximo uma hora, às vezes em meia. Ou fazer sua compra na loja física escaneando o código de barras dos produtos e simplesmente sair andando com tudo pago. Também pode parar na frente de um totem na saída da loja e passar o seu cartão. A coisa mais fácil do mundo, principalmente num país onde o índice de infrações à lei é quase inexistente.

Enfim muitas coisas para pensar, para refletir, algumas para imitar – outras, jamais. Uma única certeza: a de que muita coisa que se vê hoje na China estará logo mais batendo à nossa porta. É bom ficarmos espertos!

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