Sonhos possíveis
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Sonhos possíveis

Em sua quarta edição, o Transformar evoluiu de um belíssimo portfolio de iniciativas inspiradoras para a constatação de que já existem escolas e redes de escolas praticando a Educação do futuro – e com ótimos resultados

Ana Maria Diniz

06 Abril 2017 | 11h43

Seria reducionista demais, injusto, até, começar este blog dizendo que o Transformar é maior evento sobre inovações em Educação do país. Nada de errado com a descrição, corretíssima. Mas a conferência, que teve sua quarta edição realizada anteontem, em São Paulo, tem um significado muito maior. Para mim, o Transformar é a constatação, ano após ano, de que uma Educação de qualidade, conectada com as demandas e com a vida real dos jovens do nosso século, não é um sonho distante e improvável, mas uma possibilidade concreta.

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Esta quarta edição do Transformar foi uma evolução e incutiu uma enorme esperança em cada um dos seus mais de mil participantes. O evento deixou de ser um belíssimo portfolio de iniciativas inspiradoras desconectadas, com cara de start up, para se tornar a prova de que já existem escolas e redes de escolas praticando com sucesso a Educação que vai preparar as crianças para um futuro em rápida e contínua transformação.

Ao longo de oito horas, revezaram-se nos quatro palcos simultâneos montados na Expo Barra Funda dezenove palestrantes brasileiros e estrangeiros. Eles compartilharam práticas e experiências relacionadas a temas como “competências para o século 21”, “aprendizado por projeto”, gamificação” e “sustentabilidade”. Tais assuntos não são novidade, já foram abordados antes. Mas agora é diferente. Há pouco tempo vistas com ressalvas e desconfiança, essas iniciativas alcançaram resultados extraordinários nos últimos anos e hoje servem de exemplo para escolas do mundo todo que buscam alternativas viáveis ao sistema de ensino tradicional.

Isso mostra que o sistema de ensino, o mesmo praticado há 200 anos nas escolas, deixou de ser um doente em estágio terminal. Deu sinal de melhoras e, o mais importante, voltou a ter esperança, pois os remédios para sua cura foram descobertos. Agora, precisamos abrir canais o mais rápido possível para que o medicamento penetre nas veias do paciente e salve a Educação.

É difícil escolher, entre tantas histórias incríveis, quais merecem destaque neste espaço. Mas vou me ater a três que me tocaram mais. A primeira é a da rede de escolas charter Summit Public Schools, da Califórnia, contada por Nicholas Kim, há quatro anos diretor da unidade Tahoma, em San Jose. O princípio da Summit é, antes de mais nada, acreditar em todas as crianças, entendendo e respeitando o ritmo e a necessidade de cada uma, detectando talentos e dificuldades e, assim personalizando de fato o ensino.

Há seis anos, a escola criou uma plataforma que acompanha, por meio de dados e sinalizações deixadas em tempo real pelos professores, todos os passos de seus quase 3 mil alunos. Esse recurso permite que as crianças decidam sobre a melhor maneira de dividir o seu tempo, aponta o que é necessário para que elas completem uma tarefa, em quais aspectos precisam avançar e como fazer isso.

O uso dessa tecnologia, aliada ao entendimento de que cada aluno é único e especial, deu mais do que certo. Hoje, 100% dos alunos da Summit, que cursam o equivalente ao ensino médio no Brasil, terminam o curso. Desse total, 98% entram na faculdade.

A segunda história é a do Colégio Estadual Chico Anysio, no Rio. Seu diretor, Willmann Costa, nos provou que uma Educação ativa, na qual o aluno está no centro do aprendizado, não depende de tecnologia. Uma aula interessante e envolvente, em que os alunos aprendem o conteúdo a partir dos seus interesses, depende mais de planejamento e vontade dos professores em fazer as coisas de um jeito diferente do que de computadores e tablets.

Afinal, como sempre digo, inovar não é só encher as salas de aulas de gadgets e outros aparatos. É mudar a cultura de ensino e a forma de se organizar. É pensar diferente!

Outro case excelente é o da Green School, em Bali, na Indonésia, que tem como linha mestre de sua pedagogia o desenvolvimento da consciência dos alunos. Somente aprendendo sobre si próprios e como eles se inserem no mundo é que eles serão capazes de aprender os conteúdos de uma forma sigificativa. Outro eixo é a natureza que envolve a todos e nos ensina por meio de seu funcionamento cíclico e balanceado, servindo como direcionador de seu projeto pedagógico. Apesar de ser uma escola com uma arquitetura incrível, inserida harmonicamente na natureza, a Green usa muita tecnologia para garantir que seus alunos não fiquem isolados em um mundo de fantasia e estejam conectados com tudo o que está acontecendo no planeta.

Ao final do evento, ficaram gravadas em mim três mensagens principais:

Em relação à escola: o novo aprender é mão na massa, fazendo. É muito mais interessante e as crianças assimilam muito mais conhecimento dessa forma. As escolas precsam urgentemente criar condições para isso.

Em relação ao professor: todo professor precisa mudar o olhar em relação aos alunos, precisa passar a acreditar que todo o aluno é capaz de aprender qualquer coisa, mesmo que no seu tempo, mas que ele é capaz!

Em relação ao aluno: o aluno tem que ser protagonista de sua história. Isso começa com sua participação na definição do que ele espera da escola e com o quê está disposto a se comprometer. Ele tem que assumir responsabilidade sobre sua vida e começar a traçar objetivos claros a serem alcançados, seja em uma aula, em uma semana, em um mês ou no ano. Só assim ele conseguirá progredir e também perceber o seu avanço. Essa percepção serve de alimento para ele traçar objetivos e pensar em voos cada vez mais altos.

Saio desse Transformar com muita esperança, acreditando que, agora, a mudança que tanto sonhamos e trabalhamos para conquistar na Educação pode ganhar velocidade. E com a certeza de que nossas escolas chatas e obsoletas estarão com os dias contados se formos capazes de desobstruir as vias entupidas pela burocracia e pelo corporativismo.

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