Sobre dogmas, dados e fatos
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Sobre dogmas, dados e fatos

Se queremos assegurar que todos os brasileiros aprendam temos de ir sem medo aos fatos: não gastamos pouco em Educação e somente com mais dinheiro não resolveremos os nossos problemas; os dados estão aí para provar

Ana Maria Diniz

27 de setembro de 2019 | 12h50

De forma geral, independentemente dos anos de estudo e do tamanho da conta bancária que possuímos, a maioria de nós tem uma visão distorcida dos fatos, demonstrou o estatístico sueco Hans Rosling em Factfulness, um livro incrível e esclarecedor sobre o qual escrevi aqui no blog no início do ano. Segundo Rosling, como espécie, somos afeitos a generalizações e temos propensão ao pensamento binário, simplista, o que nos torna reféns de alguns dogmas e verdades absolutas. Sem enxergar a a realidade como ela é, seguimos criando soluções erradas os nossos problemas e acumulando fracassos.

Crendices do tipo estão por todo o lugar e constituem verdadeiros entraves para avançarmos em diferentes áreas e aspectos. Na Educação, uma das mais notórias é a do “muito é mais”, segundo a qual o país gasta pouco com o ensino público e depende de mais dinheiro para elevar a qualidade da aprendizagem. O raciocínio está furado. Não gastamos pouco em Educação, nem há relação direta entre mais dinheiro e melhor desempenho educacional – as duas grandezas não são proporcionais, ou seja, o aumento de uma não eleva automaticamente a outra.  Quem diz isso são dados, que se proliferam aos borbotões e estão mais disponíveis e fáceis de acessar. E eles não mentem.

Contrapor dogmas e dados nos faz ver as situações e os problemas com mais nitidez e clareza e pode nos levar ao que realmente interessa – aos fatos. Um levantamento feito pela Revista Exame e divulgado na semana passada prova isso. A fim de aferir o impacto dos gastos na qualidade do ensino, a reportagem comparou os investimentos por aluno da rede pública de 26 capitais com os resultados do Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb)). O objetivo era confirmar se as cidades que gastam mais por estudante têm um desempenho melhor, ideia que já virou senso comum.

Mas, pelo menos nas cidades analisadas, isso não passa de mito! Os resultados do levantamento foram o oposto do esperado . Em Porto Alegre, a capital com maior gasto por aluno em 2017 – R$ 19,9 mil reais – ficou abaixo da meta do Ideb em todo o ciclo básico. Já Manaus, a lanterninha da lista no mesmo quesito e período – com investimento de R$ 5 mil reais por estudante – superou as metas do Ideb tanto no  Ensino Fundamental como no Ensino Médio. Esses casos foram os mais extremos, mas tal discrepância apareceu em várias capitais em pelo menos uma etapa de ensino.

Temos uma lição a aprender: nós gastamos uma quantia significativa na Educação brasileira, mas gastamos mal! Mais dinheiro sem mudar o sistema será um grande desperdício e não vai garantir mais qualidade no ensino público. Se queremos progredir e realmente assegurar que todos os brasileiros aprendam precisamos falar algumas verdades e ir sem medo aos fatos. Eis alguns deles:

  • Os investimentos em Educação no Brasil aumentaram significativamente nas últimas décadas. Até os anos 60, os recursos anuais para o setor equivaliam a menos 1% do nosso Produto Interno Bruto. Hoje, gastamos 6% do nosso PIB, mais do que a média os países da OCDE nesses mesmos termos percentuais.
  • Gastamos bastante, mas de forma ineficiente e desigual. Mais de 40% dos municípios brasileiros gastam até R$ 5,5 mil reais por aluno/ano metade do valor considerado satisfatório. A disparidade é gritante entre as cidades: em algumas localidades, por exemplo, investe-se um valor sete vezes maior do que em outras.
  • Temos, sim, um um déficit histórico em relação aos investimentos que deve ser compensado, pois o aumento de verbas na Educação no Brasil só começou para valer no fim dos anos 70. Porém, como explica João Batista Oliveira na sua coluna na Veja, se até os anos 90 esse aumento estava atrelado à expansão das matrículas, a partir dos anos 2000, com a redução da pressão por vagas, os gastos “parecem responder à própria inércia do sistema –  eles aumentaram em função dos ‘nós’ que atrelaram gastos obrigatórios às receitas, criando um círculo vicioso”.

É errado pensar que dinheiro é a solução dos problemas da nossa Educação. Mais errado ainda é achar que não faz diferença alguma. Para os municípios e escolas mais pobres e vulneráveis, dinheiro faz, sim, muita diferença. A oportunidade para fazer diferente e melhor está bem na nossa frente com a renovação do Fundeb, o principal mecanismo de financiamento da Educação Básica, que vai expirar no ano que vem. Mas só vamos conseguir evoluir de onde estamos se lidarmos com os fatos, não com meias-verdades.

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