Só o que importa é ser feliz?
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Só o que importa é ser feliz?

A busca da felicidade e a saúde emocional dos alunos são prioridades absolutas em Summerhill, uma escola inglesa quase centenária onde a liberdade reina e a criança pode decidir o que, quando, como e se quer aprender

Ana Maria Diniz

30 Agosto 2018 | 13h46

“Uma criança difícil é uma criança infeliz. Ela está em guerra consigo mesma e, em consequência, está em guerra com o mundo. Um adulto infeliz está no mesmo barco.”

A infelicidade era uma doença e a causa de praticamente todos os males da humanidade para o educador escocês Alexander Sutherland Neill (1883 – 1973) – e ela nascia do tratamento opressivo e violento ao qual as crianças eram submetidas em casa e nas salas de aula. Para curar essa enfermidade, pensava Neill, era necessário romper com a dinâmica autoritária que permeava as relações entre pais e filhos, professores e alunos.

Summerhill, na Inglaterra: a mais célebre e polêmica das escolas democráticas

Era início do século 20, um tempo em que os castigos físicos e os maus-tratos na infância eram recorrentes e considerados normais. Mudar essa lógica nas famílias, dentro de quatro paredes, estava fora de cogitação à época. Mudar a escola seria dificílimo, mas era um sonho possível. Foi dessa premissa que Neill criou, em 1921, a Summerhill School, a mais célebre e controversa dentre as escolas alternativas, uma instituição de ensino revolucionária que coloca a “busca da felicidade” como objetivo principal e deixa as crianças livres para decidirem o que, quando, como e se querem aprender.

Esta semana, Henry Readhead, neto de Alexander S. Neill, esteve em São Paulo para contar a história de Summerhill, que está prestes a completar 100 anos. Já é inusitado que uma instituição de ensino dure tanto tempo e continue fazendo sentido nos dias de hoje. Em sua palestra, que aconteceu no Instituto Singularidades, ele contou sobre o dia a dia da instituição inglesa. Quase nada mudou em Summerhill desde a sua inauguração. Ali, um aluno, se quiser, pode passar, três meses, três anos ou até mais sem assistir à nenhuma aula. O importante, diz Readhead, que ao lado da mãe, Zoe, dirige e dá continuidade ao projeto do avô, é garantir a saúde emocional dos alunos.

Frequência e notas não são preocupações nessa escola. O mais importante é que as crianças sejam emocionalmente equilibradas, resilientes, autônomas, felizes e autoconfiantes. Parece contraditório, mas o tipo de ensino ofertado em Summerhill é o mais convencional possível. As aulas são majoritariamente tradicionais, compreendem disciplinas como Ciências e Matemática e acontecem em salas de aula comuns. Mas podem acontecer também em qualquer um dos outros ambientes da instituição e de outras maneiras. Se um aluno quiser aprender Matemática construindo uma bicicleta, por exemplo, ele pode. A decisão é dele.

Liberdade e autonomia são as palavras-chave em Summerhill. Mas essa liberdade não é, nem nunca foi, total e irrestrita, como muito críticos alardeiam. Cerca de 400 regras regulam a instituição. Elas são criadas, na grande maioria, com a aprovação de todos – professores, alunos e funcionários – em assembleias que acontecem duas vezes por semana. O voto de uma criança, mesmo sendo elas em maior número, vale o mesmo que o voto de um adulto. Mas há exceções: desde a fundação, há tópicos que cabem apenas aos adultos decidirem (a demissão de um docente ou o acesso a lugares perigosos, por exemplo). E se algo foi aprovado em assembleia e, na prática, não der certo, um adulto responsável pode intervir e anular a decisão.

Tem gente que acha que o que tem sido feito lá é incrível, tem gente que não, abomina. Summerhill é e sempre será love it or leave it. Divergências à parte, o fato é que Summerhill é um marco, uma referência, uma escola que influenciou instituições do mundo todo por gerações e ainda influencia. Há centenas de escolas chamadas democráticas espalhadas pelo mundo, todas inspiradas em Summerhill, que trabalham com liberdade e pela felicidade, estimulando o autoconhecimento, a responsabilidade, a independência e a participação ativa do aluno na comunidade.

Realmente, Summerhill estava milhas distante dos padrões e do que se esperava de uma escola quando foi inaugurada. E, de certa forma, ainda está – os princípios e as metodologias adotados nessa escola, mesmo hoje, são diferentes demais e difíceis de aceitar. Na minha opinião, essa escola é uma provocação, mas também tem muito a nos oferecer, principalmente nesse momento da história em que as escolas tradicionais do mundo todo têm o desafio de se reinventar para fazer sentido na era digital e no mundo do conhecimento. O conceito de liberdade com responsabilidade, assumindo as próprias escolhas, faz todo o sentido nos tempos atuais.

Prestes a completar 100 anos, Summerhill tem um papel importantíssimo no repensar da escola no século 21 – uma escola mais humana, que ensine para a vida, e não só para o trabalho.