Quem nunca sonhou em ser um Neymar?
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Quem nunca sonhou em ser um Neymar?

A carreira e a figura de Neymar geram atração fatal; já a carreira e a figura de professor, rejeição total

Ana Maria Diniz

05 Julho 2018 | 12h48

Pergunte a um garoto brasileiro de 15, 16 anos, o que ele quer ser e dificilmente ouvirá “professor”. Só 2,4% dos adolescentes nessa faixa etária pretendem seguir carreira docente, mostrou o relatório Políticas Eficazes para Professores, da OCDE, divulgado recentemente. Algo em torno de 200 mil interessados na profissão em todo o país, uma lástima. Mas quantos não gostariam de ser jogador de futebol? Quantos querem ser um Neymar? Muitos! Apesar de ser difícil de quantificar, sabemos intuitivamente que ser um craque da bola é uma aspiração que reina desde sempre no imaginário de uma legião de rapazes de todo o mundo. Dos brasileiros, então, nem se fala.

Por que eles querem ser Neymar? Ora, porque ele é o rico (o jovem mais rico do mundo, segundo a Forbes), talentosíssimo, um fenômeno das redes sociais (só no Instagram tem 98 milhões de seguidores), uma figura ousada, um trendsetter, enfim, uma celebridade planetária, um ídolo de primeira grandeza, o jogador brasileiro que mais influenciou os jovens com a sua maneira de jogar e de ser, com seus dribles, gols, garra e carisma, com seu jeito meio transgressor, meio gênio. Nesta Copa, ele é o centro de todas atenções, é o assunto. Falam bem ou falam mal, mas só falam dele.

Neymar e sua carreira são exatamente tudo o que um professor e carreira docente não são no Brasil! No nosso país o professor é o anti-ídolo, totalmente desvalorizado na sociedade, ganha mal e tem poucas chances de progredir na profissão. A famosa expressão sobre o ovo e a galinha se aplica a eles, já que não se sabe se o professor ganha mal porque não é valorizado ou se não é valorizado porque ganha mal. Além disso, somos o país da bola, o futebol nos explica, nos representa, é um retrato da nossa sociedade. E nesse Brasil das raríssimas oportunidades e das inúmeras injustiças, ser Neymar significa ascender por mérito próprio, chegar lá, apesar de tudo.

O time do Brasil também nos permite ver outras coisas que são reflexo do nosso país, das incongruências que nos habitam e do momento em que vivemos. Na atuação de alguns dos nossos jogadores ainda vemos, infelizmente, a perpetuação do jeitinho, da malandragem, da truculência, atitudes que estão na raiz da corrupção e da violência que nos assolam. Já na figura do nosso técnico, Tite, temos a representação de muita coisa que gostaríamos de ser como brasileiros e de ter no país, como comprometimento, motivação, metas claras e objetivas, meritocracia, ética e honestidade, valores sem dúvida desejáveis.

No ano passado, Tite declarou acreditar que o futebol é um instrumento de Educação e que almejava mostrar que é possível vencer por ser mais competente, mais ético e leal, com a autoestima elevada. Oscar Tabárez, o reverenciado treinador que renovou o futebol uruguaio e colocou a seleção de seu país novamente em evidência, segue da mesma cartilha. Ele só convoca jogadores com valores e ética e acha que sua obrigação, mais do que treinar o time, é formar seres humanos.

Tabárez é professor. Até assumir a seleção uruguaia, há 12 anos, ele conciliava o futebol e a docência – dava aulas de espanhol para o ensino fundamental numa escola pública de Montevidéu. Tite, a seu modo, também o é. Os dois deveriam, assim como Neymar, servir de exemplo e de inspiração para os nossos jovens.

Seria ótimo se tivéssemos uma grande mescla entre futebol e Educação no brasil, com todo o brilho de um, o futebol, trazendo palco para o outro, a Educação! Se tivéssemos mais talentos na Educação e mais Educação no futebol!

Espero que no futuro próximo possamos ter mais jovens querendo ser professores do que jogadores de futebol por entenderem que ser professor é uma profissão digna, cheia de propósito e que passará a ser valorizada no brasil, com bons salários e uma carreira mais clara e atraente. Porque esse jovem vai entender que ser Neymar é para poucos, pouquíssimos, e que como professor ele será o cara que mais poderá contribuir para construir o Brasil de nossos sonhos, para podermos ter orgulho de nosso país, assim como temos orgulho de nosso futebol.