Pisa 2015: crônica de uma morte anunciada?
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Pisa 2015: crônica de uma morte anunciada?

Enquanto não entendermos, como país, que o desenvolvimento econômico e social está intrinsecamente relacionado com a qualidade da nossa Educação, não vamos evoluir para ser uma nação justa, equânime e protagonista no cenário global

Ana Maria Diniz

08 Dezembro 2016 | 09h15

Saiu o PISA, Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes, de 2015, e o nosso desempenho foi uma lástima. Porém, não poderíamos esperar nada melhor do que resultados desastrosos que mais uma vez colhemos. Já dizia Albert Einstein: “Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”. Para produzir mudanças significativas, precisamos mudar nossa forma de fazer as coisas.

unnamed

E o que fizemos para mudar a nossa Educação?

Continuamos a negligenciar a formação de  professores e gestores escolares, a ter inúmeras salas de aula sem professores durante o ano, mantivemos diretores de escolas públicas imersos em burocracias do sistema, sem tempo para prestar atenção na evolução acadêmica das crianças, não colocamos o devido foco na alfabetização de nossos estudantes e fomos cúmplices de um sistema que mantém a escola chata e desinteressante. Para piorar, continuamos a gastar o dinheiro do contribuinte mal, muito mal, promovendo uma Educação na qual cada real é investido sem a menor preocupação com a eficiência.

Com raríssimas exceções, foi só  o que fizemos: mais do mesmo!

E, assim, como revelam os resultados deste novo PISA, continuamos péssimos. Igualmente péssimos em Linguagem e Ciências, matérias que nos renderam, respectivamente, a 59ª e 63ª posição entre os 70 países participantes do ranking deste ano, e ainda piores em Matemática, regredindo 11 pontos em relação à última edição, de 2012, onde amargamos o 66º lugar. Quase metade dos nossos estudantes (44,1%) ficou abaixo do nível 2, numa escala que vai de 1 a 6. Esses alunos possuem conhecimento abaixo do minimamente adequado nessas três disciplinas, o que não lhes permite, segundo a OCDE, o exercício pleno da cidadania.

O que podemos esperar de um país onde a maioria dos estudantes entre 15 e 16 anos não compreende o que lê, é incapaz de resolver problemas simples envolvendo números e não consegue identificar, nem explicar, fenômenos científicos básicos?

Uma Educação de qualidade não é só um direito, é um patrimônio estratégico de um país, indispensável para o seu crescimento. Como escreveu o economista Gustavo Ioschpe no livro “A Ignorância custa o mundo”, em sua segunda edição, recém-lançada, a má qualidade da nossa Educação sonega dos jovens a possibilidade de atingir sonhos e impõe ao Brasil a eterna condição de subdesenvolvido.

A Educação é um fator determinante na renda de uma pessoa. Ela explica cerca de 50% da sua variação salarial. Cada ano a mais de estudo representa um aumento de 10% no salário. Mais anos de estudo não são benéficos apenas a nível individual.O aumento de um ano na escolaridade da força de trabalho gera um crescimento econômico de 8% a 10% anualmente. A Educação também está diretamente relacionada à desigualdade: a manutenção de um sistema educacional de qualidade diminui de 35% a 50% as diferenças econômicas e sociais no médio e longo prazo.

O PISA não é um teste trivial. É uma avaliação importantíssima, que já começa a se preocupar em avaliar as habilidades e competências essenciais para a vida no século 21, a fim de garantir o que as crianças de 15 anos, de diferentes partes do mundo inteiro, precisam saber para ter uma vida produtiva e realizada. Mais do que apenas atestar conhecimento, o PISA mede a capacidade dos estudantes de usar o conhecimento adquirido para resolver situações e problemas da vida real, sem a qual é praticamente impossível ser bem sucedido nos dias de hoje.

Os resultados do PISA não só escancaram a mediocridade do nosso ensino. No mundo cada vez mais conectado em que vivemos, em que o pensamento crítico e o domínio das ciências exatas se tornam cada vez mais importantes, eles ressoam praticamente como uma sentença de morte, ou, talvez, como uma crônica de uma morte anunciada.

No romance de Gabriel Garcia Márquez que dá título a esse post, todos sabiam que Santiago Nasar iria morrer, menos ele. Todos poderiam, de alguma forma, ter impedido, ou ao menos tentado impedir, seu assassinato, mas não o fizeram, ou por descaso ou por não acreditarem que aconteceria, de fato.

Parece que o mesmo acontece com o nosso país: todos sabemos que sem uma Educação de qualidade, o Brasil está condenado ao subdesenvolvimento, à pobreza e à desigualdade. A diferença é que, ao contrário de Nasar, temos a chance de mudar o final da história. Basta estarmos dispostos a fazer as mudanças necessárias para garantir o futuro.

Não precisamos mais viajar para nos inspirarmos no que outros países fizeram para transformar seus sistemas de ensino. Sabemos o que precisa ser feito. Precisamos, antes de mais nada, eleger um governo que, de fato, acredite na Educação como força motriz do desenvolvimento do país, que tenha vontade política e coragem para fazer as coisas de outro jeito.

Mais conteúdo sobre:

PISAeducaçãodesenvolvimento