Perguntas são muito mais poderosas que respostas
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Perguntas são muito mais poderosas que respostas

Ensinar um aluno a fazer boas perguntas é ensiná-lo a pensar de forma inusitada, crítica e a explorar o mundo de um jeito original - e isso leva, inevitavelmente, à inovação

Ana Maria Diniz

19 Abril 2018 | 14h04

Quem trabalha com Educação não pode desanimar nunca. Porém, há tantas as coisas para transformar no nosso sistema de ensino que, muitas vezes, tenho a sensação de estar diante de um problema complexo demais, impossível de se resolver. Mas, e se tivéssemos uma única bala na agulha, se pudéssemos fazer uma pequena mudança nesse intrincado quebra-cabeça e, mexendo uma peça de lugar, encontrássemos a solução que tanto buscamos? Que peça seria essa?

Ensinar os alunos a perguntar! É o que afirmam os pesquisadores Dan Rothstein e Luz Santana, de Harvard, no livro Make Just One Change: Teach Students to Make Their Own Questions. Segundo os autores, essa é a principal habilidade a ser desenvolvida nos estudantes a fim de se garantir um aprendizado significativo no mundo em que vivemos. Numa época de sobrecarga de informações, os jovens precisam saber fazer questionamentos que os ajudem a seguir em frente em suas investigações.

Esse é o ponto chave: não se contentar com a primeira camada de respostas e ir além – partir para a segunda, a terceira e, por que não, a quarta pergunta. Insistir nessa sequência pode levar a descobertas incríveis, que valem a pena serem perseguidas. O ingrediente básico para fazer com que isso aconteça é a curiosidade, a genuína vontade de buscar e encontrar a verdade.

A curiosidade é uma característica inata, mas vai esmaecendo ao longo do crescimento.  A escola chata e quadrada tem enorme responsabilidade nisso. Os pais, que muitas vezes preferem o conforto das respostas simples e rasas, também. Infelizmente, vivemos numa sociedade que ainda supervaloriza as respostas e vê a dúvida como sinal de fraqueza.

O excesso de informações circulando ajuda a poluir o meio de campo e nos mantém na superfície do conhecimento. Desde 1980, a taxa de consumo de informações aumenta 5% ao ano. Mas isso é uma filigrana em comparação ao crescimento no volume de informações disponíveis. Segundo a Curva de Duplicação de Conhecimento, de Buckminster Fuller, em 1900 o conhecimento duplicava a cada 100 anos. Em 2013, ele dobrava a cada ano. Hoje, isso acontece a cada dia e, em 2020, se dará a cada 12 horas.

Nesse contexto, somos levados a crer,  mesmo que inconscientemente, que é melhor estar informado de tudo um pouco do que ir a fundo em alguns assuntos. Ou que com uma simples pesquisa no Google ou dando uma palavrinha rápida com a assistente virtual Siri teremos a resposta certa para todas as nossas indagações. Não é bem assim. Computadores são bons em responder perguntas, mas não são capazes de ir além e fazer questões que contribuem para a real compreensão do que existe à nossa volta.

Em tese, tantas informações tão facilmente acessíveis deveriam contribuir para desenvolvimento de habilidades imprescindíveis nos dias de hoje, como pensamento crítico e resolução de problemas. Mas o que se nota nas salas de aula é justamente o contrário: esses recursos intermináveis, a um clique de distância, mais confundem do que beneficiam os alunos.

Se queremos estimular uma mudança de comportamento no sentido de ensinar as crianças a serem questionadoras e, assim, terem suas próprias opiniões, é preciso entender, primeiramente, que fazer perguntas não é só um meio de coletar informações. É mais: é ter a chance de conhecer a si próprio, de identificar lacunas de conhecimento, de duvidar e de pensar de forma crítica. É uma maneira de aprender a aprender, entendendo o processo singular que cada um de nós tem para reter e trabalhar do melhor jeito possível as informações que nos são apresentadas.

Na Psicologia, existe o conceito de desenvolvimento vertical, processo que leva o indivíduo a seguir uma trajetória de autoconhecimento por meio de uma profunda investigação sobre si próprio. Acho que seria incrível se conseguíssemos replicá-lo na Educação, por meio de uma aprendizagem vertical, na qual essa investigação se daria a partir de temas escolhidos pelos alunos a partir de seus interesses. Assim, seria possível criar uma nova cultura e ajudar crianças e jovens a sair dessa “samsara” de superficialidade, tornando-os mais espertos e capazes de dirigir seus próprios destinos.