O Uber chinês da Educação
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O Uber chinês da Educação

Como a Vipkid e outras plataformas para o ensino de inglês que conectam estudantes chineses com professores nativos do outro lado do mundo estão promovendo uma reviravolta em escala global no jeito de ensinar e de aprender

Ana Maria Diniz

13 de junho de 2019 | 12h42

Como vocês sabem, visitei a China há duas semanas e essa experiência me impactou muito. No blog anterior já escrevi sobre isso e, neste post, gostaria de ir mais a fundo falando sobre o altíssimo nível de digitalização da sociedade chinesa e a Educação. A China concentra 42% do e-commerce global, registra 11 vezes mais pagamentos via celular do que os Estados Unidos e abriga um terço dos unicórnios do mundo. A barreira entre o real e o virtual está cada vez mais tênue em tudo no país, no que diz respeito ao ensino também. Há uma década o país assiste e vivencia uma explosão sem precedentes do aprendizado online.

A educação à distância foi um dos setores que mais cresceram na economia chinesa nos últimos anos e continua em expansão. Como tudo na China, o EAD chinês impressiona pelo gigantismo: juntas, as plataformas voltadas para a educação de crianças, para o ensino de línguas estrangeiras e para a formação profissional possuem 310 milhões de usuários e vendas anuais em torno dos 40 bilhões de dólares. Mais importante do que o tamanho do negócio, porém, é a transformação em escala global que alguns desses serviços, como o VipKid, vem promovendo na maneira de se ensinar e de se aprender. Fico muito animada, pois vejo o potencial de transformação que isso pode ter para nossas escolas públicas, principalmente!

Criada em 2013, a Vipkid, uma plataforma para ensino de inglês para crianças chinesas entre 5 e 12 anos, é hoje uma das empresas de educação à distância mais valiosas do mundo. Desde o ano passado, ela figura entre as principais companhias de trabalho remoto do planeta e entre as mais inovadoras da atualidade, segundo a Forbes e a Fast Company. O que faz da Vipkid tão especial? O seu modelo de negócio. Para atender os seus mais de 600.000 alunos, ela emprega 70.000 professores, a maioria americanos e canadenses, que, juntos, dão 200.000 aulas por dia. E o mais incrível é que faz isso como se fosse o Uber da Educação, conectando, ao invés de passageiros e motoristas, pais e estudantes chineses com professores nativos.

Os professores que prestam serviços para a Vipkid possuem um perfil no qual descrevem sua experiência profissional, fazem upload de suas aulas na plataforma e exibem suas pontuações, baseadas nas avaliações de pais que já usufruíram de seus serviços. Eles podem trabalhar de qualquer lugar e a qualquer hora do dia. A maioria trabalha de 10 a 20 horas por semana, geralmente no contraturno do dia letivo, e ganha de 14 a 22 dólares por hora. Outros exemplos de plataformas que empregam professores-remoto são as também chinesas e voltadas para o ensino de idiomas DaDa e a MagicEars e ainda há várias outras.

Assim como no Uber, tais plataformas estão provocando fortes reações nas comunidades de ensino do mundo todo, tanto contra quanto a favor. Quem as defende alega que esta é uma maneira de o professor conseguir uma renda extra ou mesmo viver de um trabalho que pode ser feito de casa e no horário que melhor lhe convier. Os opositores argumentam que a segurança no trabalho é mínima e quem se dispõe a isso não tem direito a nenhum benefício previsto em lei. Além disso, os algoritmos estão sempre verificando atrasos e feedbacks negativos por parte dos usuários, o que pode fazer o professor perder pontos e não mais conseguir aulas suficientes para compor sua renda ou garantir o seu sustento. Mas o que importa é que os alunos estão de fato aprendendo e se aprimorando muito mais com esta modalidade.

Goste-se ao não das novas formas de trabalho que surgiram na esteira da gig economy, o fato é que essas empresas saíram na frente e estão criando alternativas para o exercício da profissão de professor para além da sala de aula que eram impensáveis até um tempo atrás. Porém, a inovação da Vipkid e similares não se resume a isso. Todas elas vêm incorporando tecnologias de ponta, como machine learning e inteligência artificial, a seus produtos para tornar o aprendizado mais eficiente e personalizado. Junto com a Microsoft, a Vipkid desenvolveu uma complexa rede neural para analisar as reações faciais e os movimentos dos olhos de seus alunos a fim de avaliar o envolvimento das crianças  com o que está sendo ensinado. Dessa forma, pode-se ajustar tanto o material como a didática para atender as necessidades de cada estudante.

Quem pensa que as plataformas chinesas de aprendizagem querem apenas promover o ensino de idiomas está enganado. Como disse recentemente numa entrevista Cindy Mi, fundadora e CEO da Vipkid, ela acredita que sua empresa pode liderar a construção de uma enorme sala de aula global, tornando a Educação de alta qualidade acessível a pessoas de diferentes cantos do mundo e aumentando a interação e a conexão entre povos e culturas antes separados pela distância.

O futuro é inevitável e promissor!

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