O tsunami trans
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O tsunami trans

O aumento exponencial de pré-adolescentes e adolescentes que se descobrem transexuais intriga os cientistas e o fenômeno começa a ser investigado com o rigor da pesquisa

Ana Maria Diniz

22 Novembro 2018 | 08h33

Há mais ou menos um mês, no calor das eleições, li um artigo no Estadão, do biólogo Fernando Reinach, que me inspirou a escrever sobre a polêmica questão da identidade de gênero. À época, desisti de me aventurar em um tema tão controverso. Primeiro porque é um assunto que não domino e, confesso, tenho até certa dificuldade de entender. Considerando que a polarização que estamos vivendo tinha atingido o ápice naquele momento, discorrer sobre um fenômeno tão complexo seria um tanto arriscado.

Mas hoje, passados alguns dias, acho que é importante correr esse risco e me pronunciar, já que esta é uma demanda muito presente na nossa sociedade. Reinach, um dos mais respeitados cientistas do país, escrevia em seu texto sobre o aumento exponencial de casos de crianças, pré-adolescentes e adolescentes que não se identificam com o gênero de nascimento, por sentirem que estão no corpo errado e, na maioria das vezes, almejam ser fisicamente do sexo oposto ao seu biológico.

Este é um fenômeno que não pode ser ignorado. Afinal, não estamos falando de uma onda, mas de um verdadeiro tsunami trans. No mundo inteiro, o número de pessoas com disforia de gênero, o termo técnico para designar a condição, aumentou mais de 100 vezes em 15 anos. Na Inglaterra, o número de pacientes transexuais cresceu de cerca de 20 em 2009 para 1.800 em 2016. Nos Estados Unidos, existem hoje 1,4 milhões de transexuais, o dobro de dez anos atrás. Só em 2017, 150 000 americanos entre 13 e 17 anos foram identificados como trans.

Ninguém sabe ao certo o que desencadeou esse surto. Uma das explicações, talvez muito superficial, é a de que os trans estão apenas saindo do armário, algo impensável até pouco tempo atrás. Para mim, ela não é convincente. A outra é que hoje, por algum motivo, as pessoas são mais propensas a desenvolver disforia de gênero, mais do que em qualquer outro momento da História. Mas o porquê disso permanece um mistério para os estudiosos do assunto.

Uma hipótese levantada por alguns cientistas e refutada a chutes e pontapés pelos defensores da causa trans, sob o argumento de que é discriminatória, é de que haveria uma enorme influência do meio social que favoreceria o fenômeno. Nessa hipótese, os amigos, a internet, as redes sociais e a mídia em geral, somados à instabilidade emocional e à necessidade de se auto afirmar, teriam um papel bem grande nessa história. Segundo médicos e psicólogos que estudam o tema, a maioria dos novos casos trans se enquadra na chamada disforia tardia. Essa condição se diferencia dos casos registrados há uma década atrás ou mais, porque surgem somente na puberdade, enquanto nos casos clássicos de disforia os diagnósticos acontecem na infância.

Uma pesquisa publicada recentemente despertou a fúria dos ativistas ao afirmar que pode haver, sim, forte influência do meio na proliferação de novos casos de transexualidade. Mas o tema é muito complexo para se dizer, sem que muitos mais pesquisas e estudos sérios sejam feitos, que a explosão transgênero é única e exclusivamente produto de uma juventude altamente sugestionável num um contexto bem menos preconceituoso e aberto ao diferente.

No entanto, é preciso levar essa ideia em consideração sempre que o assunto vier à tona, principalmente nas escolas, onde o fenômeno trans já se evidencia – somente as matrículas de alunos com nome social de mulheres trans, homens trans e travestis aumentaram 40% em São Paulo e 76,5% no Rio de Janeiro em relação a 2017, segundo dados das respectivas secretarias estaduais.

Debater o tema mais abertamente é algo que se faz cada vez necessário no ambiente escolar. A questão é como. Precisamos todos, e isso inclui educadores, professores e pais, promover o respeito às diferenças e à diversidade dentro e fora das salas de aula. Da mesma forma, temos de ter o cuidado de não induzir crianças e jovens a seguirem um caminho que não é o seu – isso pode ter consequências físicas e psicológicas nefastas e causar danos irreparáveis.

Esse é apenas o começo de uma discussão que pretendo aprofundar sobre identidade de gênero e assuntos correlatos, como a Escola sem Partido. Voltarei a falar disso em breve aqui no blog!