O que os pais esperam da educação?
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O que os pais esperam da educação?

Com a pandemia, pais e mães puderam vivenciar o cotidiano escolar dos filhos de maneira inédita e começaram a repensar o real propósito da escola

Ana Maria Diniz

14 de maio de 2021 | 14h21

Veio a pandemia e o muro que separava as famílias das escolas, aparentemente irremovível, desabou. Com o ensino remoto, pais e mães do mundo inteiro, que por tanto tempo se mantiveram distantes da vida escolar dos filhos, foram praticamente empurrados para dentro das salas de aula. Assim, eles puderam, muitos pela primeira vez, de maneira inédita, vivenciar o dia a dia da educação das crianças e dos jovens em seus diversos aspectos.

Esse mergulho sem precedentes no cotidiano escolar das crianças e dos jovens está levando os pais a repensarem qual deve ser o propósito da escola e qual é o seu papel na educação de seus filhos. É o que mostra uma pesquisa recém-divulgada pelo Brookings Institute. Entre maio de 2020 e janeiro de 2021, os pesquisadores conversaram com 25.000 pais e mães de 14 localidades em 10 países sobre as crenças, motivações e fontes de informação das famílias em relação ao ensino. Eles chegaram a três conclusões principais:

  • Os pais querem um novo tipo de educação. A maioria dos pais deseja uma educação diferente para os filhos, um ensino que olhe para o desenvolvimento socioemocional junto com o acadêmico e que use abordagens inovadoras e mais interativas de ensino ao invés de uma instrução com pouca interação.
  • Os professores são influenciadores importantes das crenças dos pais. Os resultados mostram que os educadores ocupam um lugar de destaque como influenciadores das perspectivas das famílias sobre o ensino e que os pais estão ansiosos por um alinhamento de visão e abordagens.
  • Os tomadores de decisão devem conhecer os pais. Embora muitas das considerações dos pais sobre a educação sejam as mesmas em todas as localidades analisadas, os pesquisadores notaram particularidades regionais nessas percepções que precisam ser levadas em conta para se construir uma relação de confiança entre famílias e escolas de cada lugar.

Uma surpresa da pesquisa foi a que mostrou que a ideia de que a maioria das famílias ainda vê a educação como meio para os filhos entrarem na faculdade e conseguirem bons empregos está ultrapassada. Em lugares tão díspares como Estados Unidos e Gana, Austrália e Botswana, pais com diferentes níveis de renda, inclusive os das classes mais pobres, disseram que o papel maior da educação é ajudar no desenvolvimento socioemocional, no autoconhecimento e na descoberta de um propósito para a vida. Em apenas três locais –dois nos EUA e um na África do Sul – a preparação acadêmica foi apontada como o objetivo principal.

Este, para mim, é o maior e o mais surpreendente e achado desse estudo. Acredito que a demanda dos pais e dos alunos para que a educação cumpra um papel muito maior e menos utilitário na vida das crianças e jovens é algo que tem muito poder de transformação da própria educação e sistemas educacionais. Pois, a partir do momento que você muda o objetivo, todo o ambiente tem que se modificar!

Os resultados sobre as preferências pedagógicas dos pais também chamaram a atenção. Na maioria dos lugares, os pais disseram preferir abordagens interativas e o aprendizado por meio de atividades práticas ao invés de metodologias tradicionais. Em relação aos critérios de uma boa educação, em 12 das 14 localidades os pais afirmaram que a felicidade e o desenvolvimento social dos filhos como principais ndicativos de um ensino de qualidade. Apenas em Botswana e na Índia as famílias focaram quase que exclusivamente nos resultados dos exames como critério para julgar se a escola que o filho está frequentando é adequada ou não.

Se por um lado a pesquisa mostra que os pais evoluíram muito em seu entendimento sobre o papel da escola e da educação, por outro revela que muitos daqueles que estão na linha de frente do ensino se mantêm resistentes às mudanças. Em mais da metade das localidades, as famílias relataram que acreditavam que alguns professores pensavam de forma diferente sobre qual era o papel da escola. Nesses lugares, os pais disseram ter notado que, muitas vezes, uma parte dos professores e gestores estava mais focada no objetivo acadêmico das crianças do que eles próprios.

Embora existam muitas escolas e organizações em todo o mundo que há muito praticam e defendem abordagens de ensino e aprendizagem que empregam metodologias mais inovadoras, efetivas e práticas, elas têm permanecido até agora a exceção e não a regra. Toda essa imersão dos pais na vida escolar dos filhos desencadeada pela pandemia pode ser o elemento chave e a peça que faltava para ajudar a acelerar as mudanças tão necessárias para tornar a educação compatível com o mundo em que vivemos e trazer um propósito maior para a formação das próximas gerações.

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