O ‘boom’ das escolas virtuais e das escolas híbridas
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O ‘boom’ das escolas virtuais e das escolas híbridas

A aprendizagem online chegou para valer na Educação Básica e número de instituições totalmente virtuais ou que alternam dias na escola com dias de estudo à distância vem crescendo em vários países

Ana Maria Diniz

29 de agosto de 2019 | 11h08

Quando uma tendência começa a ganhar escala a nível global é porque se tornou relevante. Um exemplo disso é a aprendizagem online na Educação Básica. Nos últimos anos essa modalidade de ensino evoluiu de experimento para movimento em diversos países, tais como Estados Unidos, Inglaterra, China, Canadá, Israel e França, entre vários outros, onde atualmente centenas de milhares de alunos dos ciclos fundamental e médio frequentam as chamadas escolas virtuais, apenas online, ou escolas híbridas, que mesclam aulas presenciais e remotas.

Na Dida Academy, em Nova York, alunos alternam dias na escola com dias em que estudam online, à distância

É nos Estados Unidos que o fenômeno acontece com mais intensidade e na sua versão mais radical. O país é um dos poucos que permitem a aprendizagem totalmente online e à distância nas fases iniciais do Ensino Fundamental, que abrange a faixa etária de 6 a 10 anos, o que é bastante controverso, pois é consenso que quanto menor a criança, mais tempo ela deve passar dentro da escola, inclusive para estabelecer relações e conviver com outras crianças.  Também é, de longe, o que tem o maior número de escolas virtuais em tempo integral: são 501 instituições públicas, charters ou privadas em 31 dos 50 estados, com 298 000 alunos matriculados – um aumento de 450% em relação à 2006, segundo o National Education Policy Center.

Os americanos também são recordistas no total de escolas híbridas, nas quais os estudantes alternam dias na escola e dias em que estudam à distância por meio de plataformas digitais. Ao todo, são 300 instituições entre públicas, charters e privadas com 133 000 alunos. O crescimento no número de matrículas nesse tipo de instituição foi ainda maior: 2.600% no mesmo período. No resto do mundo, predomina o modelo híbrido e o ensino online full-time ocorre geralmente no final do ciclo básico, a partir do Ensino Médio.

Mas é importante entender quem são os alunos que estão optando pelas escolas online e porque eles e seus pais decidiram romper com a aprendizagem tradicional. Os motivos são muitos e diversos. Algumas pesquisas feitas nos Estados Unidos apontam que parte deles, em torno de 15% a 20%, são crianças e jovens que estavam sendo educados em casa pelos pais, os homeschoolers. O restante se divide em dois grupos principais. O primeiro é formado por pais não acreditam mais nas escolas, pois consideram que elas não estão formando seus filhos para a vida, acham que o sistema faliu. O outro é constituído por estudantes que querem aprender no próprio ritmo, não conseguem acompanhar as aulas, não se adaptam ao ambiente escolar ou simplesmente entendem que a escola do jeito que está não faz mais sentido algum.

Dida Academy, no Brooklyn, em Nova York, abriu as portas há dois anos na esteira dessa demanda e hoje é um exemplo de escola híbrida independente que funciona de fato. Adepta do aprendizado por projetos, a escola atende jovens de 11 a 18 anos que buscam uma Educação com mais propósito e significado. Ali, os estudantes podem optar por ir à escola duas, três ou quatro vezes por semana. A maioria dos alunos da Dida é formada por alunos que frequentavam escolas públicas, mas estavam insatisfeitos, entediados e infelizes, ou seja, prestes a evadir.

Outro nicho que pode se beneficiar desse tipo de ensino é o dos superdotados, pois a modalidade permite maior personalização e flexibilização em relação à série e idade. Nesse sentido, uma iniciativa  que se destaca é a Stanford Online High School. Única escola virtual a figurar entre as dez melhores instituições de Ensino Médio em rankings mundiais, a Stanford OHS oferece um currículo online realmente individualizado e desafiador. Os estudantes são agrupados por habilidades, não por faixa etária, e as aulas online acontecem de forma sincronizada – alunos americanos e de outros 36 países podem se encontrar virtualmente com os professores e interagir em tempo real.

Obviamente, nem tudo são flores na Educação Básica à distância e há casos comprovados em que a qualidade do ensino oferecido nas escolas virtuais ou híbridas deixa muito a desejar. O importante agora é continuarmos a acompanhar essa tendência, que no Brasil ainda nem começou, porque, goste-se ou não, ela já é uma realidade e, sem dúvida, veio para ficar.

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