Menos intransigência e mais bom senso
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Menos intransigência e mais bom senso

No mundo de hoje, em que a tecnologia é parte importante da aprendizagem, do trabalho e das relações sociais, querer minar qualquer possibilidade de que o aluno aprenda uma parte do conteúdo de forma remota é um contrassenso

Ana Maria Diniz

20 Setembro 2018 | 12h19

Como escreveu Geraldo Samor, as placas de “aluga-se” e “vende-se” constituem a única ideia que prospera e une o Brasil fragmentado. Todo o resto é motivo para discussões inflamadas, que só servem para marcar posições e nada contribuem para solucionar os nossos problemas, que são muitos e enormes. Não importa o assunto: é 8 ou 80, totalmente certo ou errado, não há meio termo. Ao fim do bate-boca, ninguém ganha, e a sociedade toda perde.

Isso acontece na política, na economia, na saúde. A Educação não fica de fora. São várias as “polêmicas” que mais atrapalham do que ajudam na busca por soluções para tornar o nosso ensino melhor e menos desigual. Uma das mais espinhosas diz respeito à possibilidade de que parte da carga horária do Ensino Médio seja ofertada à distância. O tema, importantíssimo e super atual, está em análise no Congresso e voltou a ganhar destaque nas últimas semanas com a divulgação de novos índices e estudos sobre esta etapa do ciclo escolar, de longe o nosso maior gargalo.

Os dados mais chocantes vêm do Education at a Glance, da OCDE, publicado semana passada. Segundo o relatório, o Brasil é um dos países com o maior número de pessoas sem diploma do Ensino Médio: 52% dos brasileiros entre 25 e 64 anos não possuem esse nível de formação. Se há algumas décadas concluir o Ensino Médio era um passaporte para a ascensão social, hoje é condição mínima para uma vida digna, alerta o estudo. Não menos desanimadores são os resultados do Ideb, divulgados um pouco antes: nenhum dos estados atingiu as metas para o Ensino Médio; em cinco deles, o ensino piorou.

O EAD, ou ensino à distância, é o tipo de ensino que mais cresce no Brasil e conta atualmente com mais de 1,5 milhão de alunos – em 2004, 60 mil alunos eram adeptos da modalidade. Até pouco tempo atrás eram permitidos pelo MEC somente cursos de nível superior (graduação e pós-graduação), cursos livres, educação corporativa e supletivos. A reforma do Ensino Médio, aprovada ano passado, trouxe pela primeira vez a chance de se instituir a EAD no ciclo básico. Apesar de praticada com sucesso em vários países, essa ideia constitui um verdadeiro tabu em nosso país.

Para muitos especialistas e educadores, a proposta, que vem sendo discutida desde o começo do ano pelo Conselho Nacional de Educação, é um acinte. Se aprovada, pode promover uma precarização ainda maior do ensino nesta etapa. Eles defendem que é na vivência do ambiente escolar e nas relações humanas, principalmente na relação professor-aluno, que o aprendizado significativo acontece. Também argumentam que carecemos de infraestrutura tecnológica nas escolas e que nossos professores não estão preparados para dar aulas nesse formato.

Concordo totalmente sobre a importância das relações na Educação, sou a maior defensora de que a Educação de fato acontece na relação professor-aluno, principalmente nessa fase tão complicada da vida do jovem. Mas, da mesma forma, não podemos nos fechar para a evolução dos nossos tempos. E estou cansada de saber das condições precárias de nossas escolas e dos problemas de formação dos nossos docentes. Mas, num país onde mais da metade dos adultos não terminou sequer o nível básico, como revela o estudo da OCDE, com uma Educação extremamente desigual e marcada por diferenças regionais gritantes, dizer que a ideia é ruim e ponto é que é um descalabro.

Uma das principais tendências em Educação é o ensino híbrido, que contempla várias metodologias, entre as quais a combinação do ensino presencial e remoto. Eu tenho conhecido experiência fantásticas de aprendizado por tecnologia, como o Matific, jogos para ensinar matemática para alunos do 1º ao 6º ano do Ensino Fundamental. Os estudantes da Parceiros da Educação usam a ferramenta e adoram, porque aprendem e ficam estimulados a progredir, a aprender mais. É um círculo virtuoso enriquecedor. Por que não permitir experiências como essa no Ensino Médio também?

Antes de condenar a proposta e classificá-la como acintosa, é preciso deixar bem claro: a permissão à EAD para o Ensino Médio não significa que tudo será feito pelo computador, nem que o aluno não irá mais pôr os pés na sala de aula. É para uma parte menor do conteúdo. Nem que todas as instituições precisarão adotar o formato. Se aprovada, a medida permitirá que cada escola ou rede de ensino possa, com apoio da tecnologia, oferecer o melhor dentro da sua realidade e das suas necessidades. O importante é o rigor na avaliação da eficácia dos cursos que usarão esses recursos. Descalabro seria baixar a barra da qualidade, precarizando ainda mais o que é oferecido aos alunos nessa etapa.

No mundo de hoje, em que o on e o off line estão cada vez mais misturados e a tecnologia é parte importante da aprendizagem, do trabalho e, inclusive, das relações sociais, querer minar qualquer possibilidade de que o aluno aprenda uma parte menor do conteúdo pelo computador, de maneira integrada, é um contrassenso. Defender essa visão ultrapassada é querer viver no passado que já não existe mais.

A EAD com certeza não é a bala de prata que vai resgatar a nossa Educação do lamaçal, até porque não existe solução mágica. Mas também não é o bicho-papão que vai colocar tudo a perder. Se utilizada de forma coerente. como complemento ao ensino presencial, ela só tem a contribuir.

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