Jovens ignoram tendência e buscam carreiras tradicionais
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Jovens ignoram tendência e buscam carreiras tradicionais

Os jovens do século 21 estão depositando suas aspirações profissionais em uma pequena lista de ofícios populares e tradicionais do século 20; isso não só é muito inesperado, como é preocupante

Ana Maria Diniz

14 de fevereiro de 2020 | 12h28

Estamos assistindo, em praticamente todos os países, a uma enorme transformação no comportamento dos jovens. Eles estão profundamente insatisfeitos com o status quo, com os governos e com a relação entre a sociedade civil e as instituições em geral. Eles querem mudança, eles querem principalmente oportunidades de crescer, de gerar renda e de viver dignamente.

Muitos fatores corroboram para que a percepção de um mundo imprevisível e volátil esteja altamente presente na sociedade de diferentes maneira, seja com a desintermediação dos serviços ou com a entrada fulminante da tecnologia no nosso dia a dia, facilitando o consumo, o transporte a locomoção, a alimentação, e, mais do que tudo, alterando de forma definitiva as nossas relações.

Na educação, isso não é diferente. Já há mais de 10 anos temos a consciência de que o ensino atual, do jeito que foi até hoje, não dará conta do futuro. Não dará conta de formar o jovem cidadão para que ele tenha dignidade e siga uma profissão na qual possa se realizar e construir uma vida promissora.

Exatamente por esses motivos fiquei estarrecida com o resultado da pesquisa Dream Jobs: Teenagers’ Career Aspirations and The Future of Work, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgada durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos. Surpreendentemente, segundo o estudo, feito a partir de entrevistas e dados do Pisa 2018 com 600 mil jovens de 15 anos, 47% dos meninos e 53% das meninas de 41 países disseram que querem trabalhar em apenas 10 carreiras, todas elas tradicionais e que podem deixar de existir nos próximos 15 anos. No Brasil, esse percentual é ainda maior: 66% e 75%, respectivamente.

Os empregos dos sonhos apontados pelos garotos no relatório são os de engenheiro, administrador, médico, profissional de TI, atleta, professor, policial, mecânico, advogado e arquiteto. No caso delas, de médica, professora, administradora, advogada, enfermeira, psicóloga, designer, veterinária, policial e arquiteta. Os resultados são praticamente iguais ao do último levantamento do tipo feito pela OCDE há quase duas décadas, em 2000. A única mudança foi o leve aumento, de 8% no caso dos meninos e de 4% entre as meninas, no interesse por essas mesmas profissões convencionais.

Ou seja, os jovens do século 21 estão depositando suas aspirações em uma pequena lista de ofícios populares e tradicionais do século 20. Isso é não só é muito inesperado, como é preocupante. Com todas as transformações pelas quais o mundo passou nos últimos 20 anos com o avanço da tecnologia, deveriam existir novas respostas para a pergunta “o que você quer ser quando crescer?”. Mas não há e precisamos nos perguntar o por quê.

Não acho que os jovens estejam alheios ao que esta acontecendo no mundo. Alguns mais pessimistas podem supor que os adolescentes estão presos à bolha de suas redes sociais, se deixando consumir, horas e mais horas do dia, sem ter consciência do que se passa na realidade à sua volta. Ou até olhando o mundo com a lente enviesada da escola, uma instituição atrasada e descompassada do mundo real. Mas eu não acredito nisso!

Realmente, como aponta a análise da OCDE, muitos adolescentes ignoram as novas possibilidades de trabalho que estão surgindo como consequência da digitalização. Porém, o conservadorismo também predomina entre os jovens mais antenados e isso pode refletir uma insegurança diante da imprevisibilidade dos nossos tempos.

Minha hipótese, totalmente empírica e claramente não embasada em uma investigação mais profunda, é diferente. Acredito que esses jovens estejam buscando segurança, estejam buscando o conhecido, porque o desconhecido é muito assustador. Se jogar ou fazer apostas em um mundo tão incerto é algo inconcebível para eles. Então, em nome de uma suposta proteção, preferem se prender ao passado, se agarrando a carreiras que, erroneamente, acreditam que são mais difíceis de desaparecer da noite para o dia e nas quais poderiam ter ganhos financeiros um pouco mais garantidos.

Para lidar com este fato inusitado de jovens almejando profissões “condenadas”, só há uma saída: ir mais a fundo, conhecer mais a cabeça desses jovens, explorar. Ao mesmo tempo, é preciso rapidamente tangibilizar e mostrar a eles, de forma concreta, as opções que despontam no horizonte.

Não estamos diante de um apocalipse robótico que exterminará todos os empregos em um estalar de dedos, como vaticinam os alarmistas. Segundo outro estudo também divulgado este ano em DavosJobs of Tomorrow: Mapping Opportunity in the New Economy, realizado pelo New Metrics CoLab, do Fórum Econômico Mundial, em parceria com as empresas Burning Glass Technologies, Coursera e LinkedIn, cerca de 1,7 milhão de postos de trabalho serão criados, apenas em 2020, para 96 “profissões do futuro” distribuídas em sete áreas distintas. Até 2022, serão 6,1 milhões nas carreiras ligadas à economia do cuidado (37%), vendas, marketing e conteúdo (17%), inteligência artificial e dados (16%), computação em nuvem (12%) e pessoas e cultura (8%), desenvolvimento de produtos (3%) e economia verde (2%).

Precisamos dar aos jovens a oportunidade de entrar em contato com essas prospecções e com o mundo real do trabalho por meio de estágios e de outras iniciativas resultantes de uma maior interação entre empresas e escolas. Além disso, vale o consenso, que ainda está muito longe de se tornar realidade, a respeito da importância de ir além do conhecimento formal e de dar o devido espaço e importância às habilidades socioemocionais, instigando nos jovens a curiosidade, a empatia, a resiliência, a determinação e a criatividade. Pois, sem dúvida alguma, essas serão as suas competências de sobrevivência no futuro.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: