Jovens com causa
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Jovens com causa

Quando encontramos um propósito, um objetivo que faça a vida valer a pena, somos capazes de realizar coisas incríveis para nós mesmos e para o mundo; é isso que os jovens estão precisando descobrir

Ana Maria Diniz

21 de março de 2019 | 14h19

Sou uma pessoa naturalmente otimista, motivada, do tipo que não se deixa abalar facilmente, e a vida tem me ensinado a lidar bem com as adversidades. Mas, no dia seguinte ao massacre na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, quinta passada, acordei perturbada, desanimada, encafifada. Por que um rapaz de 17 anos comete uma brutalidade dessas? Que momento é esse que vivemos? O que podemos fazer para dar sentido à vida de jovens tão sem esperança a ponto de só se motivarem pela extrema violência?

Na ânsia de justificar tamanho descalabro, houve quem culpasse a escola, os pais, os os games, as redes sociais. Não estou aqui para julgar nem sentenciar ninguém, muito menos para arriscar mais um palpite simplista diante de uma situação tão complexa.  O que posso dizer, baseada em estudos sérios que li, é que os jovens estão mais deprimidos, ansiosos e propensos a tirar a própria vida do que em outras épocas. Os suicídios entre pessoas de 12 a 25 anos cresceram 40% no mundo entre 2000 e 2015, segundo a OMS. No Brasil, aumentaram 45%, entre 15 a 19 anos. A principal razão disso é a falta de propósito.

Jovens precisam de um propósito, de uma causa ou, como diria Cazuza, de uma ideologia para viver. Na verdade, todos nós precisamos, em todas idades. Propósito é o que nos que nos faz sair da cama, nos dá força para seguir em frente, justifica a nossa existência, mas às vezes é difícil encontrá-lo. E é na juventude, quando estamos em meio ao processo de construção da nossa identidade e enfrentamos dilemas relativos ao amadurecimento e ao futuro, que a necessidade de encontrar esse algo a mais, esse sentido que faça a vida valer a pena, se faz muito maior.

Quando encontramos uma causa, um objetivo muito claro, somos capazes de realizar coisas incríveis para nós mesmos e para o mundo. Quanto mais cedo se identifica essa razão de viver, mesmo que ela não seja definitiva, mas sirva para aquele momento, mais fácil é levar a vida adiante e ter prazer nessa jornada. É isso que os jovens estão precisando descobrir.

Dois dias depois da tragédia Suzano, centenas de milhares de estudantes do planeta saíram às ruas em 1 700 cidades de 106 países munidos de um propósito: protestar contra a inação dos governos no combate ao aquecimento global. Foi o maior já ato coordenado envolvendo adolescentes de que se tem registro. O movimento, batizado de Fridays for Future, foi inspirado na sueca Greta Thunberg, de 16 anos, que desde agosto, todas às sextas-feiras, não vai a escola para protestar contra as mudanças climáticas em frente ao Parlamento da Suécia. Na semana passada, a garota foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz.

Nem todo o propósito precisa ser grandioso a ponto de mudar o mundo. Pode ser um algo mais modesto, mas significativo – um rumo a seguir, uma motivação ou objetivo de mais longo prazo. Podemos inclusive ter vários longo da vida, não apenas um. Infelizmente, são poucos os jovens que conseguem encontrar um tão facilmente. As escolas e as famílias têm um papel crucial nesse sentido e deveriam dar suporte a cada jovem nesse processo de descoberta. É por isso que eu gosto muito no modelo de educação integral de Pernambuco. Nas escolas da rede pública, o Ensino Médio é focado no protagonismo do aluno e na elaboração de um projeto de vida que o ajude a descobrir seus caminhos.

O desafio que episódios como o de Suzano nos impõem é conversar com os jovens, ouvi-los, para despertar dentro de cada um a ideia de de que vale muito a pena ser adulto e envelhecer nesse mundo conturbado, onde cada um tem um papel fundamental.

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