Jardim da Infância para toda a vida
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Jardim da Infância para toda a vida

Para Mitchel Resnick, do MIT, a criatividade é resultado de um ciclo virtuoso de imaginação, criação, diversão, compartilhamento e reflexão, uma lógica que predomina no ensino infantil e precisa ser replicada em todo o ciclo escolar e na vida

Ana Maria Diniz

15 Fevereiro 2018 | 12h04

Há alguns meses escrevi aqui no blog sobre a importância da criatividade nos dias de hoje. Ser criativo não é um mais plus, é uma ferramenta de sobrevivência, como bem colocou Tony Wagner, pesquisador de Harvard, uma habilidade que deve ser aprendida e aprimorada na escola e por toda a vida. Na teoria, tudo certo. Ninguém mais duvida que ter ótimas ideias e saber implementá-las é fundamental, e que isso é algo que pode ser ensinado e aperfeiçoado. Mas como colocar essa ideia em prática nas salas de aula, em larga escala, é uma questão que continua em aberto.

Para Mitchel Resnick, o professor do MIT criador do Scratch, a linguagem de computador ultraintuitiva que já ensinou 200 milhões de crianças a programar, a resposta está bem debaixo do nosso nariz, mais precisamente no Jardim da Infância. “Em que outro lugar, senão no Jardim, podemos aprender reorganizando o mundo ao nosso redor de um jeito divertido, livre e colaborativo e livre, a partir daquilo que nos atrai? Temos que recriar essa essência e esse ambiente em todo o ciclo escolar e na vida”, escreve Resnick recém-lançado Lifelong Kindergarten: Cultivating Creativity through Projects, Passion, Peers and Play, ainda sem tradução para o português.

Minha filha Bianca era uma criança curiosa. Quando chegava nos lugares queria pegar os jogos e mudar as regras, para que funcionassem do seu jeito. Imaginava coisas novas e adorava reinventar brincadeiras. Para a psicóloga que a atendia, isso era um indício de insubordinação, de falta de limites. Onde a terapeuta via desobediência, eu enxergava criatividade. O tempo me deu razão. Bianca é adulta, uma artista talentosa e a minha filha mais criativa.

As proposições de Resnick surgiram das pesquisas e experiências realizadas ao longo dos últimos trinta anos em seu laboratório no MIT, onde ele e sua equipe testam maneiras de ensinar pessoas de idades variadas, em diferentes contextos e condições, a serem mais criativas. Esses estudos o levaram a uma conclusão: a criatividade ativa (ter boas ideias e saber implementá-las) é resultado de um ciclo virtuoso de imaginação, criação, diversão, compartilhamento e reflexão. Estes elementos são a força motriz do que Resnick batizou de Espiral de Aprendizagem Criativa. Onde estes elementos estão mais presentes e interagem de forma mais harmônica? No ensino infantil.

A boa notícia é que essa lógica do Jardim da Infância é possível e fácil de se emular, principalmente no ambiente escolar. Como? Dar aos os jovens a oportunidade de trabalhar em projetos, com base em suas paixões, em colaboração com os colegas e de um jeito que seja lúdico, prazeroso, divertido e parcialmente livre é um passo importantíssimo nessa direção. O desafio principal, diz Resnick, não é ‘ensinar criatividade’, mas criar um ambiente no qual a criatividade aflore, cresça e crie raízes.

No livro, ele dá dicas para que pais e professores começem a agir nesse sentido. Reproduzo algumas, de forma resumida, a seguir:

APOIO PARA AS EXPLORAÇÕES – A melhor maneira de estimular a criatividade nos mais novos não é sair do caminho e deixá-los totalmente livres para agir. Apesar de naturalmente curiosos, eles precisam de alguém que os guie e os apoie em suas explorações para que desenvolvam seu potencial criativo.

AS MÃOS COMO ELEMENTO FUNDAMENTAL – A noção de que imaginação é um processo que nasce e ocorre só na cabeça é totalmente equivocada. As mãos têm papel fundamental no processo criativo. Para ajudar uma pessoa a ter novas ideias, devemos encorajá-la a mexer com materiais – papel, caneta, blocos de montar. O que começa com uma atividade sem rumo geralmente se desdobra em várias ideias.

MATERIAIS VARIADOS PARA ESTIMULAR O CÉREBRO – Kits de robóticas e impressoras 3D são incríveis para expandir o alcance do que as crianças criam. Mas os materiais tradicionais não devem ser subestimados. Materiais diferentes são bons para coisas diferentes. Blocos de montar são bons para fazer estruturas, canetas são boas para desenhar, etc. Quanto maior a diversidade de materiais, maiores as chances de a criatividade emergir.

ÊNFASE NO PROCESSO, NÃO SÓ NO PRODUTO FINAL – Pergunte às crianças sobre suas estratégias e suas fontes de inspiração. Incentive-as a ver coisas boas tanto em seus experimentos que não deram certo como nos bem-sucedidos.

Há várias outras maneiras de tornar a espiral criativa mais prolífica nos nossos jovens e também nos adultos, algumas delas descritas por Resnick nesse livro incrível. Seja de uma forma ou de outra, o importante é não deixar que essa engrenagem pare de girar.