Homeschooling não é solução, é distração
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Homeschooling não é solução, é distração

Neste momento, com tantas coisas mais importantes para se fazer na Educação e tantas crises para se administrar, inclusive a do MEC, não faz sentido tratar o ensino domiciliar como prioridade

Ana Maria Diniz

04 de abril de 2019 | 08h10

Nunca passou pela minha cabeça, como mãe, tirar meus quatro filhos da escola para ensiná-los eu mesma, em casa. Há vinte ou trinta anos, quando eles eram crianças, o homeschooling era uma possibilidade bem mais remota e excêntrica do que é hoje e quase ninguém cogitava uma atitude dessas, até porque não se questionava tanto a escola. Mas acho que, mesmo se fosse agora, eu não tomaria essa decisão. Provavelmente eu não me sentiria com habilidade e competência, talvez nem tivesse paciência, para assumir essa responsabilidade a menos que não houvesse outra alternativa. Para mim, a escola não é só importante pelo conhecimento, mas também pela convivência com outras crianças. Matriculei meus filhos na escola bem cedo, aos 2 anos, porque sempre acreditei que o ambiente escolar é bem mais saudável para os pequenos do que deixá-los em casa sob a supervisão de um adulto.

Educar um filho é a tarefa mais importante na vida dos pais. No entanto, assumir a responsabilidade de ensiná-lo pessoalmente conteúdos e métodos de aprendizado nem sempre é a melhor ideia. Quando a figura do pai se mistura com a do educador e os ambientes escolar e familiar se fundem, o contraponto entre duas realidades distintas, fundamental para a construção da nossa personalidade, não acontece. Mesmo assim, hoje, olhando à minha volta, vejo amigos meus, inclusive alguns muito esclarecidos, querendo se aventurar nessa prática. E arrisco a dizer que a decepção com as escolas e seu modelo falido é o que mais os motiva a considerar a ideia.

Pensando sobre o assunto, respeito a decisão das famílias que aderiram ao ensino domiciliar e acho que a modalidade deveria ser legalizada no país. Mas, nesta semana em que o tema volta a ser discutido com força total no Congresso, quero deixar bem clara minha posição: isso, certamente, não vai resolver o problema da Educação brasileira e tratar do assunto, neste momento, com tantas coisas mais importantes para se fazer, como garantir que todo o brasileiro seja bem alfabetizado aos 7 anos, e tantas crises para se administrar, inclusive a do MEC, todo esse debate e alarido em torno do homeschooling é, no mínimo, uma grande distração. De qualquer forma, o homeschooling não precisa ser demonizado. Ele já acontece em 63 países, como Estados Unidos, França, Portugal e México. Não faz sentido continuarmos a tratar os cerca de 15 mil brasileiros que optaram por educar os filhos dentro de casa como se fossem criminosos ou mantê-los no limbo da ilegalidade. Apenas acho que a prática não deve ser incentivada, pois ela serve a uma minoria.

Em vez de fecharmos os olhos para a realidade, temos que entender melhor porque a prática de homeschooling, criada nos anos 70 na esteira da liberação dos costumes e adotada majoritariamente por famílias religiosas até os anos 2000, vem crescendo de forma vertiginosa no mundo inteiro – agora, mais recentemente, também entre famílias comuns, sem crenças ou motivações religiosas. Temos que nos perguntar: que fenômeno é este? A falência do modelo atual de escola é a única explicação para isso? Qual é o papel do fácil acesso à informação neste cenário? Graças à tecnologia, hoje quem adere ao método dispõe de muito mais meios e recursos. Apesar disso, são raríssimas as famílias que têm condições reais de ensinar e de dar o suporte adequado para seus filhos estudarem em casa e aprenderem de fato. Também são poucos os jovens que têm a disciplina e a determinação para estudar por conta própria e ser bem sucedido.

Por isso, na minha opinião, caso a prática seja liberada em nosso país, as crianças e jovens educados em casa devem participar de avaliações como Saeb, Prova Brasil e Enem para comprovar se eles estão realmente aprendendo fora da escola. Estamos em meio a uma mudança de era e, nesse cenário, novas possibilidades tendem a surgir e a se consolidar. O homeschooling é uma delas. Mas jamais será a solução em massa para resolver o problema da Educação brasileira, de agregar qualidade à garantia de aprendizado para todos.

 

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