Geração superação
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Geração superação

Os jovens que viveram a pandemia não serão a 'geração catástrofe' se acreditarmos genuinamente que eles são capazes de dar a volta por cima e agirmos já para que eles comecem a aprender de verdade o que realmente importa, em bases sólidas, a partir de agora

Ana Maria Diniz

30 de abril de 2021 | 13h10

Expectativas importam. Mais do que isso, induzem as situações. Como provou o psicólogo Robert Rosenthal, de Harvard, em seu estudo seminal, Pygmalion in the Classroom, de 1968, quando um professor separa os alunos entre os inteligentes e os limitados, os com talento para matemática e os sem, os que vão dar certo na vida e os que não, ele passa àqueles vistos como menos capazes a mensagem de que não adianta se empenhar e a predição vira realidade. Hoje, graças à ciência, temos uma visão mais avançada sobre o tema. Mas, se extrapolarmos o conceito para os tempos atuais, veremos que estamos fazendo o mesmo, em uma escala bem maior, ao carimbar aos jovens de hoje como  “juventude perdida”, comprometendo assim o futuro dessa geração.

Por isso, se eu tivesse que escolher apenas uma coisa importante para dizer nesta semana em que comemoramos o Dia da Educação, certamente seria:  “chega de rótulos”! Esta não é a geração covid ou a geração catástrofe. Tampouco é a nova geração perdida. Pelo menos ainda não. Sim, os milhões de estudantes brasileiros afetados pelo fechamento das escolas deixaram de aprender, estão defasados, abalados e traumatizados, os mais vulneráveis principalmente. Muitos caíram na pobreza ou ficaram ainda mais miseráveis. Alguns estão passando fome. Nada disso, porém, os torna incapacitados, atrasados para sempre ou incapazes de serem adultos produtivos e felizes.

Para não cair na armadilha da rotulação, temos que mudar o jeito de enxergar as coisas e escrever outra narrativa, contar uma história diferente – mais positiva e mais propositiva. Ela começa por reconhecer todo o retrocesso que tivemos com o afastamento dos alunos das escolas e os desafios que emergiram dessa situação. Temos que olhar isso de frente e ter a coragem de medir o que essas crianças sabem hoje, depois de tantos dias sem aulas ou estudando precariamente, para focar no que elas precisam aprender de fato, como conhecimentos essenciais, do ponto de vista cognitivo e socioemocional.

Com certeza os nossos estudantes sairão bastante machucados essa crise, mas também poderão sair dela mais resilientes, mais maduros, com mais autonomia. Essa garotada que viveu a pandemia tem todas as condições para dar a volta por cima, especialmente se tiverem o apoio adequado para correr atrás dos prejuízos. Os obstáculos a serem enfrentados são enormes, por isso a orientação bem dada e um professor bem preparado, com um material bem estruturado nas mãos, constituem a verdadeira luz no fim deste túnel escuro em que a nossa educação se meteu e do qual precisa urgentemente sair.

Por outro lado, a pandemia abriu uma janela de oportunidade muito potente para mudarmos de verdade o rumo do ensino no nosso país, agora com total prioridade naquilo que faz a diferença – coisas que pesquisadores e profissionais sérios vem falando há tempos, mas sem eco no sistema escolar. Está evidente: são as atividades básicas essenciais de português, matemática,  ciências e ainda habilidades de coding, uso amplo da tecnologia, além dos chamados soft skills, que vão criar um novo alicerce para que as crianças e jovens comecem a aprender de verdade, em bases sólidas. Se não fizermos isso já, as perdas serão irreparáveis.

As soluções estão aí, são conhecidas, algumas já foram testadas e detalhadas. Outras precisam ser criadas, mas todas passam por colocar o aluno de fato no centro, identificando os pontos fortes de cada um em todos os domínios – mente, coração e mãos – e requerem uma guinada na maneira de capacitar os professores, de ensinar, de testar, de usar a tecnologia. Implementar essas mudanças de forma efetiva implica em repensar tudo e passar a acreditar, de forma genuína, que o real propósito da educação é outro, bem mais profundo. Não dá para dizer que queremos formar pessoas de forma integral e mais humana da boca para fora e achar que isso acontece, assim, tão fácil. É preciso intenção real, conhecimento e dedicação.

Há um século, depois de uma guerra e de uma pandemia devastadoras, o mundo viveu uma década de enormes avanços científicos, sociais e econômicos que se encerrou com o crash da bolsa. Como há 100 anos, muito em breve, com a crise sanitária sob controle, entraremos em uma época de progresso vertiginoso em várias áreas. Temos que aproveitar o momento e começar já a transformar os nossos estudantes em aprendizes poderosos, agora e para o resto das suas vidas. Com o nosso empenho, esta não será a geração catástrofe, será a geração superação, formada por crianças e jovens resilientes, determinados e bem preparados não só para ir bem nas provas, mas para transformar suas vidas e fazer do nosso país um lugar bem melhor.

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