Fuga de talentos
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Fuga de talentos

O Brasil precisa começar a pensar seriamente em políticas públicas para identificar e dar suporte aos alunos de alto desempenho

Ana Maria Diniz

06 de setembro de 2019 | 09h07

Aos 9 anos, o estudante Luís Fernando Valle, de Guarulhos, participou de sua primeira Olimpíada de Matemática e levou a medalha de ouro, a primeira de muitas que conquistaria ao longo da vida escolar. Aos 17, prestes a se formar e com 36 prêmios em competições nacionais e internacionais em áreas como Física, Robótica e Química, ele se viu diante de um dilema: qual faculdade cursar? Aprovado no ITA, na USP e na Unicamp, o jovem, que também tinha sido admitido em Yale, não teve dúvidas. Certo de que seria a melhor escolha para o seu futuro acadêmico e profissional, ele embarcou para os Estados Unidos. Hoje, já formado em Astrofísica, ele vive em Nova York.

Medalhistas em competições de conhecimento são alunos de alto desempenho, com potencial para se tornarem futuros pesquisadores e, assim, contribuir para o progresso científico e tecnológico do país. Mas, infelizmente, tal como Luís, a maioria dos talentos brasileiros que se revelam nos torneios científicos decide estudar fora do Brasil, onde têm a chance de ir a fundo nas pesquisas e de conseguir um bom emprego depois da graduação. As premiações são a porta de entrada para as melhores universidades do mundo como Harvard, MIT e Stanford, que levam em conta em suas seleções todo o histórico dos candidatos, inclusive as medalhas olímpicas.

Finalmente, as duas melhores universidades do país, USP e Unicamp, resolveram acordar para esta oportunidade que estavam perdendo e, com o intuito de atrair os melhores estudantes e evitar a fuga de jovens talentos, resolveram adotar o mesmo artifício. Em dezembro, a Unicamp anunciou a disponibilização de 90 vagas em seus cursos de graduação para este fim. Em março, 66 estudantes selecionados por seu bom desempenho em olimpíadas científicas se matricularam em cursos como Engenharia, Matemática e Informática. A partir de 2020, a USP, vai adotar o mesmo modelo de ingresso – serão 113 vagas para medalhistas em 55 cursos de graduação.

As iniciativas são louváveis. Os talentos são o bem mais precioso de um país. Pessoas talentosas agregam conhecimento, estimulam a inovação e impactam positivamente a produtividade, condições essenciais para o desenvolvimento de qualquer nação. E o Brasil não está dando o devido estímulo e atenção ao seu maior tesouro. O país caiu seis posições e ficou em 58º lugar no IMD World Talent Ranking 2018, que avaliou a capacidade de 63 países de desenvolver, reter e atrair talentos. Segundo o estudo, a queda se deve principalmente à fraqueza da Educação e à falta de incentivo à Ciência e o país, assim como outros nas últimas posições, já enfrenta uma fuga de cérebros.

Da expressão brain drain, a fuga de cérebros ou de capital humano consiste na emigração das pessoas mais talentosas de um país para outros mais desenvolvidos em busca de um futuro melhor. Por aqui, o fenômeno já pode ser verificado em números. O total de saídas definitivas de brasileiros aumentou de 165% em seis anos. Em 2011, 8.170 pessoas deixaram o Brasil para residir no exterior, segundo a Receita Federal; em 2017, outras 21.701 fizeram o mesmo e, em 2018, mais 22.538. Quem sai do país legalmente são profissionais com maior qualificação, que podem contribuir para elevar a eficiência da economia. A debandada é mais evidente no meio científico: segundo a Capes e o CNPQ, só em 2015 o país perdeu 50.000 cientistas para universidades estrangeiras.

Em média, de 5 a 8% da população mundial possui altas habilidades ou é superdotada, segundo a Organização Mundial de Saúde, o que leva a uma estimativa de quase 10 milhões de brasileiros nessas condições. No entanto, eles não chegam a 17 mil nas escolas brasileiras, segundo os dados do Censo Escolar. Mal conseguimos identificar nossos talentos e, quando isso acontece, não lhes damos os incentivos necessários! O Brasil precisa começar a pensar em políticas públicas para identificar e dar suporte aos alunos de alto desempenho. As  iniciativas  da USP e da Unicamp podem não ser suficientes para segurar talentos como Luís Fernando aqui, pois é difícil concorrer com universidades estrangeiras do calibre de Yale, infinitamente melhores do que as brasileiras, mas são um primeiro passo importantíssimo de um longo caminho a se percorrer.

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