Fazer, sentir e pensar deveria ser o triunvirato virtuoso da Educação
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Fazer, sentir e pensar deveria ser o triunvirato virtuoso da Educação

O pensamento fragmentado e desconectado, que tem início no ensino formal das escolas, é o grande mal da nossa era segundo Satish Kumar, fundador do Schumacher College

Ana Maria Diniz

30 Março 2017 | 11h36

Há duas semanas eu tive o privilégio de conhecer uma figura incrível, que me impactou muito e, do alto dos seus 80 anos, passou a ser meu sonho de consumo ao envelhecer. Exatamente porque ele não tem nada de velho! Anda eretamente, fala enfaticamente sobre suas ideias inovadoras e transmite uma enorme serenidade para quem está ao seu redor. Trata-se de Satish Kumar, ex-monge, peregrino, ativista, escritor e educador indiano que fez uma palestra no Instituto Singularidades, mantido pelo Instituto Península, da minha família.

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Kumar fundou, na década de 90, o Schumacher College. A escola é totalmente diferente não só por seu environment – fica em Devon, sudoeste da Inglaterra, um lugar idílico e muito inspirador -, mas, principalmente, por sua pedagogia holística e integradora. Lá, não se pretende encher os alunos de informação, mas desabrochar as pessoas para que elas de fato aprendam a fazer, a sentir e a pensar. Nesse centro de estudos, o “aprender” é quem manda no jogo e o “ensinar” é só uma das estratégias para atiçar a busca pelo conhecimento. Pois, como explica Kumar, o “ensinar” é parcial enquanto o “aprender” é completo, holístico.

Toda a linha de seu pensamento segue a lógica da Grande Mãe Natureza, considerando a sustentabilidade e os recursos naturais, respeitando seus movimentos cíclicos, tempos e compassos que fazem parte de um extraordinário fluxo que se retroalimenta. Esse pensamento está na base de sua formação jainista, linhagem filosófica indiana na qual tudo o que é vivo tem a mesma importância.

Difícil não se ater às palavras de Kumar. Na simplicidade e coerência de suas ideias, e na sua compreensão holística da vida e do mundo, parece haver pelo menos parte das respostas que educadores, professores, pais e alunos tanto procuram nesses nossos tempos turbulentos e de grandes transformações – em que nada, muito menos a escola -, parecem fazer mais sentido.

Segundo ele, o primeiro passo para encontrarmos uma solução para os problemas que nos afligem nessa mudança de era – seja na Educação, na economia, na política, nos relacionamentos – é parar de pensar e agir de forma fragmentada. Se continuarmos a buscar respostas fatiadas para tentar salvar um mundo fracionado que já não funciona mais, não sairemos do lugar.

Dessa forma, todas as instituições de ensino deveriam pensar a Educação com “mãos, coração e mente”. Deveriam estimular seus alunos a fazer alguma coisa, a por a mão na massa, usando literalmente as mãos. Deveriam também ensinar essas crianças a sentirem seus corações, pois este é outro aspecto fundamental da formação do ser humano. “Antes de aprender sobre Galileu, Newton e Shakespeare eles devem saber fazer pão, cozinhar, cuidar e um jardim”, diz Kumar.

E as provocações não param por aí. Ele acredita que, ao sair da faculdade, os jovens não deveriam procurar um emprego, mas criar o seu próprio emprego. Neste ponto, ele não está apenas fomentando o empreendedorismo, mas estimulando os jovens a encararem o trabalho como algo maior, mesmo que ele seja simples, pois tudo deve ter um sentido maior, só assim os jovens se tornarão criadores de suas realidades.

Deixar de ensinar as pessoas sobre economia, produtos e consumo e passar a ensiná-los apenas a viver, como prega Kumar, pode parecer insuficiente. Mas, se refletirmos profundamente, há uma certa hierarquia nisso – é necessário entender os mecanismos de causa e efeito da vida e seu funcionamento.

Estamos cansados de saber que os sistemas educacionais não nos preparam para os percalços da vida. Não se fala em outra coisa nos dias de hoje. Chegamos ao início da vida adulta sabendo álgebra avançada, mas não aprendemos a lidar com erros, fracassos, nem com questões existenciais básicas. Aprender a encarar de frente a finitude, a superar a banalidade da vida cotidiana, o tédio e o envelhecer eram os principais objetivos das escolas na Grécia Antiga. Mas, por alguma razão, nos perdemos pelo caminho.

Como diz Kumar, “aprender é viver com ambiguidades e incertezas e viver é aprender com as incertezas e ambiguidades”.

Por fim, sua mensagem derradeira é uma enorme mudança no mindset atual. Para viver bem, devemos fazer as pazes com o mundo natural. Temos de aprender a viver de forma mais simples, consumindo menos, extraíndo da natureza somente o necessário e minimizando o nosso impacto no ambiente. Isso não é necessariamente incompatível com o progresso, a inovação e a moderndade, pois essas três palavras falam de futuro. E o futuro só existirá se preservarmos o nosso contexto.