Entrando no trilho
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Entrando no trilho

Além de dialogar com as demandas da BNCC, as novas diretrizes curriculares para a formação inicial de professores, recém-aprovadas, buscam diminuir a distância entre o que é ensinado nas faculdades e o mundo real

Ana Maria Diniz

22 de novembro de 2019 | 12h36

À sombra dos acontecimentos recentes que muito mobilizaram o país, exatamente no mesmo dia em que o Supremo Tribunal Federal determinou a impossibilidade de prisão em segunda instância, outra coisa tão relevante quanto aconteceu despercebidamente: a aprovação, pelo Conselho Nacional de Educação, das novas diretrizes curriculares para a formação inicial de professores, definindo assim como deve ser a Base Nacional Comum de Formação Docente para Professores da Educação Básica.

Isso pode parecer, à primeira vista, uma deliberação técnica e sem importância, mas trata-se de uma decisão crucial, que afetará as 181,9 mil escolas e 48,5milhões de alunos do Brasil no futuro próximo. E o que pode ser mais importante do que preparar as novas gerações para que se realizem e contribuam para o desenvolvimento do país? Nesse sentido, o documento, que segue para a homologação do MEC, é fundamental e pode representar uma guinada rumo a uma Educação de melhor qualidade que gere oportunidade para todos. Afinal, um professor só pode formar bem se tiver condições técnicas para isso!

Ter os objetivos de aprendizagem para as crianças e jovens bem definidos, por meio da aprovação da Base Nacional Comum Curricular, a BNCC, foi uma grande conquista. Mas de nada adiantaria uma base apontando para o futuro se os professores continuassem a ter uma formação do passado. As novas diretrizes têm como ponto central esse alinhamento. O documento determina que os cursos de Pedagogia tenham ao menos 3.200 horas, sendo metade dessa carga horária voltada para conteúdos da BNCC.

Além de dialogar com as demandas da base, o parecer trata de um ponto nevrálgico: a discrepância entre o que os cursos de formação dos professores oferecem e o mundo real. Na maioria absoluta das faculdades do país, as aulas são excessivamente teóricas, muitas vezes pautadas por questões ideológicas e desconectadas das salas de aula. Um punhado de teorias não torna ninguém professor. As evidências mostram que a formação docente tem de preparar para a prática profissional, algo óbvio, mas nada praticado! Essa é uma ferida que as novas diretrizes pretendem tratar ao estabelecer que um ano inteiro do curso, o equivalente a 800 horas, seja focado nas práticas pedagógicas.

O texto mira em uma formação mais interdisciplinar e descreve as competências e habilidades que o futuro professor deve desenvolver em sua formação inicial, que se dividem em três eixos: conhecimento, prática e engajamento. No eixo do conhecimento, os professores devem dominar os conteúdos e conhecer a gestão e as estruturas dos sistemas educacionais. Em relação à prática, devem saber planejar, criar ambientes de aprendizagem e dominar didáticas e metodologias. No engajamento, devem ter habilidades para elaborar projetos pedagógicos. O documento ainda trata de outras questões associadas, tais como a reformulação do Enade, exame que avalia o desempenho dos formados em cursos de graduação, e da articulação entre a Educação Superior e a Educação Básica.

Uma base curricular e uma reformulação na formação dos professores foram o ponto de partida de todas as reformas educacionais bem sucedidas no mundo, como as que se deram em Singapura, na Finlândia e na Coreia do Sul. Se tivermos sucesso na implementação das novas diretrizes e da Base Docente, teremos um ecossistema educacional totalmente diferente em alguns anos. A partir daí, só vai faltar uma coisa para completar o círculo virtuoso: atrair pessoas com grande capacidade para esta carreira!

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