Elementar, meu caro Watson
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Elementar, meu caro Watson

Expoente da computação cognitiva, o supercomputador Watson faz deduções apoiadas em fatos, dados e experiências que nos ajudam a encontrar soluções para problemas complexos - reinventar o ensino é um deles

Ana Maria Diniz

08 Setembro 2016 | 08h50

Pode ser que você mesmo não seja luminoso, Watson, mas é certamente um condutor de luz. Algumas pessoas, sem possuir a genialidade em si, têm um notável poder de estimulá-la”, admitiu Sherlock Holmes, o icônico detetive criado por Sir Arthur Conan Doyle, ao seu assistente, o também lendário Dr. Watson,, em O cão dos Baskervilles.

É fato: sem Watson, não haveria Holmes. As deduções e conjecturas do auxiliar instigavam o mentor constantemente, aguçando ainda mais seu exímio raciocínio lógico.

O papel desempenhado pelo assistente de Holmes é parecido com o que pretende outro Watson, o supercomputador desenvolvido pela IBM que fala, pensa, tem insights, cria hipóteses e dialoga com pessoas de carne e osso numa relação simbiótica, cujo objetivo maior é ajudar a nós, humanos, em decisões e soluções de problemas ultra complexos.

Este Watson moderno é o expoente da chamada computação cognitiva, a nova era das máquinas que aprendem de um jeito similar ao nosso – por conta própria, a partir de fatos, interações e experiências, transformando informações desconexas em pensamentos elaborados.

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No imaginário de muita gente, a inteligência artificial “quase-humana” dos sistemas cognitivos é coisa de um futuro distante. Errado. Ela já faz parte da realidade – está sendo usado na indústria, no setor financeiro, na saúde. Na oncologia, por exemplo, Watson vasculha e cruza milhares de pesquisas científicas, históricos de casos e dados de um paciente específico para recomendar aos médicos tratamentos com maior potencial de cura.

Agora, é a vez da Educação. Já existem projetos incríveis, mas pontuais, que utilizam as plataformas inteligentes para aprimorar o ensino, como o Watson Master Teacher, do Roosevelt Hunter College, de Nova York, em que os sistemas cognitivos assumem a função de conselheiros, auxiliando os professores em pesquisas, na identificação das limitações e dos talentos individuais dos seus alunos e sugerindo abordagens e métodos de ensino mais adequados para cada caso.

Mas a popularização da computação cognitiva na aprendizagem e as grandes mudanças decorrentes desse processo ainda estão por vir. Se as previsões se confirmarem, em até cinco anos teremos salas de aula inteligentes, em que os resultados dos testes, a assiduidade e o comportamento dos alunos são assimilados e elaborados pelos sistemas cognitivos. Esse material pode servir de base para diversas ações, entre as quais a criação de um currículo adaptado para cada aluno.

Os avanços tecnológicos nos colocam diante de inúmeras possibilidades – sem dúvida, o céu é o limite! Mas de nada adianta o progresso tecnológico se não estivermos preparados para usufrui-lo. Como escreveu James E. Ryan, reitor da Faculdade de Educação de Harvard em um artigo recente no The New York Times, é preciso repensar a organização das aulas, o uso do tempo, o papel do professor e o que se espera do aluno nesse novo contexto, ou teremos mais prejuízos que benefícios.

No Brasil, a questão não é só pedagógica, é estrutural. Hoje, das 190 mil escolas de educação básica da rede pública, apenas 58% possuem acesso à internet. E na grande maioria delas a conexão é muito pobre e a velocidade é pífia  – serve apenas para realizar alguns serviços administrativos, não para fins educacionais. Num mundo em que os as  tecnologias progridem de forma exponencial, conectar todas as escolas, oferecendo uma infraestrutura de qualidade é um investimento mais do que necessário – é elementar, como diria Holmes. Pode  significar a diferença entre um avanço rápido na melhoria do nosso ensino ou a eterna lanterna nos índices internacionais que medem a qualidade da Educação.

Em tempo: a expressão que dá título ao blog não aparece em nenhum dos livros e contos de Conan Doyle. Foi criada posteriormente, nas adaptações dos romances para o teatro.