Educação para a felicidade
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Educação para a felicidade

Se queremos filhos felizes temos de dar às crianças mais tempo para brincar, mais liberdade, autonomia e ensiná-las a lidar com as emoções desde a mais tenra idade

Ana Maria Diniz

22 de fevereiro de 2019 | 10h03

A felicidade dos filhos é o maior o desejo de todo o pai e de toda a mãe. A escolha da escola, os limites e as liberdades que estabelecemos, os estímulos que criamos por meio dos cursos extracurriculares que eles irão frequentar, o tempo estipulado para o estudo e para o lazer – todas as nossas ações e decisões sobre como educá-los, mesmo que, por vezes, equivocadas, buscam concretizar essa aspiração. Mas como ter certeza de que estamos na direção certa, que estamos fazendo as melhores escolhas, dando os melhores exemplos e criando nossos filhos para que eles sejam, acima de tudo, pessoas felizes, se sequer sabemos o que exatamente o é ser feliz?

Felicidade nunca foi algo fácil de definir e de explicar – da Antiguidade até aqui, houve inúmeras tentativas de elucidá-la, nenhuma delas categórica a ponto de encerrar a questão. Para Aristóteles, ela era o bem maior e fim último do homem, Kant disse que era algo que deveríamos merecer e não desejar, Thomas Jefferson declarou a sua busca um direito inalienável e Nietzsche tentou nos convencer de que sua fórmula era “um sim, um não, uma linha reta, uma meta”, só para citar algumas entre tantas e importantes colaborações.

Mesmo sem termos uma conclusão sobre o que é felicidade e como atingi-la, eu tenho uma sensação muito forte de que, até pouco tempo, quando o mundo era mais simples, parecia ser mais fácil educar os filhos para serem felizes. Prepará-los para ter uma profissão, um emprego estável e um casamento duradouro já era uma contribuição e tanto nesse sentido, já que esses ingredientes não podiam faltar na fórmula de felicidade tradicional. Mas o mundo de hoje, muito mais complexo, incerto e improvável, não comporta mais essas pequenas certezas.

Outro dia, a minha filha, que já é mãe de três crianças lindas, estava lendo um livro sobre a educação na Dinamarca. E a experiência dinamarquesa, se não nos dá as respostas que tanto procuramos, certamente nos aponta algumas possibilidades e nos incita reflexões importantes.

Oficialmente, os dinamarqueses são o povo mais feliz do mundo. A Dinamarca aparece em primeiro lugar em várias edições do ranking da ONU que compara 156 nações de acordo com a felicidade de sua população e em outro índice do tipo, da OCDE. A boa qualidade de vida no país influi no resultado. Mas não é tudo. A forma como os dinamarqueses educam as crianças também é parte da equação. No livro Crianças felizes – O que as pessoas mais felizes do mundo sabem sobre criar filhos confiantes e capazes, já lançado no Brasil, a terapeuta dinamarquesa Iben Sandhall  fala sobre as atitudes de pais e mães em seu país que repercutem em prol da felicidade.

Usando um acróstico – F.I.L.H.O.S. -, a autora introduz os princípios da educação infantil em seu país. Cada letra define um dos pilares que orientam o jeito dinamarquês de educar: o “F”, de “farra”, se refere à relevância do livre brincar;  o “I”, de integridade, remete à necessidade de tratar as crianças com honestidade e franqueza e de praticar o elogio consciente, valorizando o esforço e não só o resultado;  o “L”, de linguagem, fala sobre o poder das palavras e do diálogo; o “H”, de humanidade, mostra a preocupação em ensinar as crianças desde cedo a terem empatia; o “O”, de opressão zero, mostra que não vale a pena reprimir e sempre chamá-los a refletir sobre o que estão fazendo de errado; e o “S” enfatiza a importância da socialização, das relações humanas e dos momentos verdadeiros de interação entre pais e filhos, sem celulares, distrações e reclamações.

O mais surpreendente da educação dinamarquesa, na minha visão, está em outros dois aspectos. Primeiro,  a forma como eles trabalham as emoções. Desde pequenas as crianças são expostas a histórias tristes, tanto as de ficção como as reais. Elas lêem contos de fada em que a princesa termina sem o príncipe ou morre no final, por exemplo, e ninguém deixa de contar a elas sobre a doença ou a perda de um ente querido para poupá-las. Segundo, a maneira como a autonomia é estimulada desde a mais tenra idade. As crianças podem circular, subir escadas ou no escorregador sozinhas, sem que os pais dêem a elas sequer a pontinha dos dedos, a menos que elas estejam correndo perigo. Pois eles acreditam que a criança precisa aprender a cair e até se machucar um pouquinho para ir tomando consciência dos seus próprios limites.

Muito disso tudo diverge do jeito mais americanizado de criar filhos, em que a criança está sempre sob a supervisão de um adulto, abarrotada de afazeres e não pode participar de conversa “de gente grande”.

Tudo isso é muito legal porque nos remete à ideia de que felicidade nada mais é do que consequência da maneira levamos a vida, que temos de nos preparar para viver o que a vida tem de bom e de ruim. Temos de ter equilíbrio e força para lidar com adversidades e saber aproveitar os momentos e as alegrias que ela nos oferece. Se queremos filhos felizes, este é certamente um caminho em que eu acredito.

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