Educação e o índice de Gini
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Educação e o índice de Gini

O antídoto para atenuar a desigualdade no Brasil e impedir o seu avanço é o forte investimento em Educação de qualidade

Ana Maria Diniz

22 de agosto de 2019 | 07h37

Quando a maioria quase absoluta dos brasileiros empobrece e somente os muitíssimos ricos registram um aumento significativo na renda, como vem acontecendo de forma sistemática no Brasil há mais de quatro anos, é que se sente ainda mais fortemente o efeito perverso da falta de uma Educação de qualidade para nossa sofrida população.

Há pelo menos 17 trimestres consecutivos a desigualdade não para de subir no Brasil. Trata-se do ciclo mais longo de crescimento já registrado no país, conforme revelou o estudo a Escalada da Desigualdade, do economista Marcelo Neri, do FGV Social, com base no índice Gini, indicador que mede a concentração e a desigualdade de renda em todo o mundo, e em dados da Pnad Contínua. Nem em 1989, quando a desigualdade no Brasil atingiu o ápice, alavancada pela hiperinflação que somou 1.794% naquele ano, o abismo econômico e social entre os brasileiros se manteve em expansão por tanto tempo.

E o pior é que essa situação afeta muito mais os mais pobres e vulneráveis do espectro social. Entre 2015 e 2017, a parcela da população que vive com menos de 233 reais por mês aumentou de 8,3% para 11,1%. São 6,2 milhões de pessoas a mais nessas condições, totalizando 23,3 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza. A distorção em nosso sistema fica evidente quando se olha o quadro geral: enquanto a metade mais desfavorecida da sociedade brasileira experimentou uma redução média de 17,1% na renda no mesmo período, o 1% mais rico da nossa população obteve ganhos de 10,11%.

Segundo Marcelo Neri, o principal fator para o aumento crescente da desigualdade é o desemprego, que atinge atualmente 12 milhões de pessoas no país. Isso porque, quando o desemprego avança, o mercado de trabalho tende a diferenciar ainda mais os trabalhadores de acordo com o grau de escolaridade e de instrução, favorecendo os mais capacitados e descartando os despreparados. Ou seja, a Educação é o X dessa equação.

O estudo da FGV corrobora essa tese: os brasileiros que mais sofreram com a escalada da desigualdade foram os menos instruídos, principalmente os jovens de 20 a 24 anos, que tiveram perdas de renda da ordem de 17,76%, e os analfabetos, cujos proventos encolheram em média 15,09%. Sabemos que o Norte e Nordeste são as regiões com os mais baixos índices educacionais dos país. E justamente nesses locais a redução na renda foi mais radical, duas vezes maior do que no resto do país: nas duas regiões, as perdas foram de 13,08% e de 7,55%, respectivamente. O único grupo, dentre os menos favorecidos, que tiveram um aumento de renda neste período recessivo, da ordem de 2,22%, foi o das mulheres, exatamente porque elas têm uma escolaridade mais alta.

Está claríssimo que colocar todas as fichas na retomada econômica com a esperança de recuperar os empregos e, assim, tirar muitos brasileiros da pobreza, não será suficiente para resgatar a dignidade do crescente exército de pessoas carentes que habita o nosso país. Por algum tempo, ainda vamos precisar de programas de transferência de renda para os mais necessitados, de preferência com alguma contrapartida ou compromisso de reciclagem para sua reinserção no mercado de trabalho. Será necessário também um plano muito bem arquitetado para capacitar e conectar os jovens com as oportunidades de emprego, e essas não são óbvias, precisam ser desvendadas e criadas.

Esse plano tem que ser para ontem! A taxa de desemprego entre as pessoas de 18 a 24 anos superou o dobro da média geral, de 12%, e chegou a 25,8% no segundo trimestre deste ano, segundo o IBGE. Apenas nessa faixa etária, são mais de 4 milhões de jovens desocupados e sem perspectivas de melhorar de vida no curto, médio e longo prazos. Além de desigual, o Brasil é o segundo pior país do mundo em mobilidade social, de acordo com um relatório da OCDE publicado há um ano, e são necessárias ao menos nove gerações para que o filho de um brasileiro pobre possa vir a ter uma renda média.

Mas, de fato, o único antídoto para atenuar a desigualdade social no Brasil e impedir o seu avanço é o forte investimento em Educação de qualidade. Aliás, essas duas palavras deveriam andar obrigatoriamente juntas. Não se pode mais falar em Educação sem falar em qualidade, uma coisa não se sustenta sem a outra.

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