Educação e desigualdade
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Educação e desigualdade

A educação é a principal variável de acesso às oportunidades de uma sociedade, mas para ser efetiva nesse sentido ela precisa ter qualidade e ser igual para todos

Ana Maria Diniz

13 de dezembro de 2019 | 13h59

Mal digerimos a performance vergonhosa do Brasil no Pisa, que ficou de novo entre piores do mundo em leitura, ciências e matemática, e temos que engolir outra bomba: estamos caindo no IDH, o ranking de desenvolvimento humano das Nações Unidas que mede o bem-estar da população a partir dos indicadores de saúde, renda e escolaridade. Saímos do 78º lugar em 2017 para o 79º em 2018. Em 5 anos, regredimos três colocações. O quadro não é bom, mas se revela bem pior quando a desigualdade entra na conta. Nesse caso, a queda é livre: descemos 23 posições, o que nos torna segundo país mais desigual do mundo, atrás apenas do Catar.

E adivinhem qual dos três fatores avaliados no IDH está por trás desse recuo? Segundo a Pnud, é a escolaridade, que estagnou em dois indicadores: o período esperado para que as pessoas fiquem na escola, que está 15,4 anos desde 2016, e a média de anos de estudo, estacionada em 7,8 anos desde 2017. Ou seja, a educação é o problema, quando deveria ser a solução! O combate à desigualdade exige ações em diversas frentes, sendo a educação a mais importante, pois ela é o principal meio para que as pessoas nascidas em contextos desfavorecidos subam a escada social. Para ser efetiva nesse sentido, a educação deve ter qualidade e equidade, o que não é o nosso caso.

Além de péssima, a educação em nosso país é extremamente desigual. As condições sociais e econômicas explicam 16% da variação no desempenho dos estudantes brasileiros, segundo o Pisa. E essa situação está se agravando. Em 2018, os alunos brasileiros mais ricos superaram os mais pobres em leitura em 97 pontos. Em 2009, essa diferença foi de 84 pontos. A desigualdade educacional não é um problema só do Brasil: ela existe e tem aumentado no mundo todo. E isso tem levado muitas cabeças a pensar a questão, como o economista indiano Raj Chetty, de Harvard, que tem se destacado ao usar “big data” para estudar a relação entre educação, mobilidade e desigualdade.

Uma das pesquisas mais fascinantes de Chetty foi divulgada o ano passado. Com base em dados anônimos do governo sobre as condições de vida de 20 milhões de americanos do 0 aos 35 anos, Chetty e sua equipe mostraram que crianças nascidas de famílias com as mesmas características, como etnia e renda, mas em diferentes bairros de uma mesma cidade, tinham trajetórias bem diferentes ao terminar a escola. Dependendo de onde viviam, iam ou não para a prisão, tinham ou não uma profissão e conseguiam ou não um bom emprego. Uma das variáveis que mais pesavam nesse resultado era a diferença na qualidade da educação ofertada nessas localidades

O trabalho serviu de base para a criação do Atlas da Oportunidade, um mapa interativo onde é possível identificar as localidades de alta oportunidade, ou seja, com maiores taxas de mobilidade para crianças de família de baixa renda, em todo os Estados Unidos. A ideia por trás do Atlas é incentivar políticas que contribuam para reverter o impacto negativo da geografia e da renda na educação e na mobilidade social das crianças que mais precisam, ajudando as famílias vulneráveis a se mudarem para lugares onde seus filhos têm mais chances de prosperar.

Não é possível mais que o lugar de nascimento de uma pessoa determine o seu futuro. Temos que mudar essa realidade.

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