É fato: o mundo está melhor do que era antes
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É fato: o mundo está melhor do que era antes

A maioria de nós tem uma visão distorcida e pessimista do fatos e vê o mundo pior do que ele realmente é; isso leva a soluções e a investimentos baseados em premissas erradas, o que é uma perda de tempo e de dinheiro

Ana Maria Diniz

07 Fevereiro 2019 | 14h10

Somente agora, em fevereiro, estou retomando meus textos aqui do blog, dando início a mais ano de comentários e inspirações sobre Educação, sua importância e capacidade de transformação. Temos, sem dúvida, um Brasil diferente, e eu poderia começar por sinalizar quais são essas diferenças e os desafios deste ano em relação ao nosso sistema educacional e ao ensino ofertado em nosso país. Mas como o cenário ainda está bem nebuloso em termos da atuação do novo governo, vou começar por outro lado.

Durante as férias, eu li três livros fantásticos. Foram duas biografias, a da Maria Silvia Bastos e a da Michelle Obama, e outro chamado Factfulness, do Hans Rosling, sobre como percebemos o mundo e a influência que isso tem em nossa atuação. As biografias são bem diferentes uma da outra – afinal, são histórias de vida -, mas têm alguns pontos em comum. São duas mulheres, de classe média, que conquistaram muitas coisas, não só para si mesmas, mas também na esfera pública, como cidadãs e protagonistas femininas muito fortes e simbólicas. Praticamente 100% de suas conquistas vêm de três fatores: garra, vontade de superar barreiras e de ir cada vez mais longe e, principalmente, dedicação e estudo. Nenhuma delas teria ido tão longe sem uma educação extraordinária.

Mas, neste primeiro blog, vou me concentrar no terceiro livro, pois acredito que precisamos de esperança. Não de esperança infundada, mas de esperança embasada em dados e fatos, como propõe o livro Factfulness: Ten Reasons We Are Wrong About The World – And Way Things Are Better Then You Think. Tente responder essas perguntas, sem consultar o Google:

– Nos últimos 20 anos, a proporção da população mundial que vive em situação de extrema pobreza caiu pela metade, estagnou ou quase dobrou?

– Quantas crianças com 1 ano de idade hoje no planeta foram vacinadas contra alguma doença – 20, 50 ou 80%?

– Desde 1900 as mortes por desastres naturais aumentaram, permaneceram inalteradas ou diminuíram?

– Quantas meninas concluem o primário em países pobres nos dias atuais – 20, 40 ou 60%?

É de se esperar que qualquer pessoa bem informada, atualizada e interessada em conhecer a situação do mundo em que vive saiba as respostas certas para essas quatro perguntas básicas sobre as condições de vida dos habitantes do planeta e seu futuro comum aqui na Terra. Elas fazem parte do Ignorance Survey, uma enquete com treze com questões criada por Rosling e aplicada por ele em suas palestras, TED Talks, conferências e que aparece em destaque logo no início de seu livro. Mas a grande maioria de nós, inclusive os mais cultos e bem-educados, não as tem. Eu mesma fiquei chocada com o meu resultado: acertei apenas seis do total! Consolou-me saber que milhares de pessoas, entre elas grandes pensadores, empresários, economistas e chefes de estado submetidos ao “teste da ignorância” apresentam níveis baixíssimos de acertos e um viés negativo dos fatos.

Isso acontece porque, de forma geral, independentemente dos anos que passamos na escola e do nível socioeconômico que possuímos, quase todos nós temos uma visão distorcida e pessimista dos fatos. Achamos que o mundo é pior do que ele é: mais pobre, insalubre, perigoso e violento. Este é o argumento central de Factfulness, o último livro de Rosling, o médico e estatístico sueco que tinha como missão de vida divulgar dados de forma interessante e lúdica para acabar com o que chamava de “ignorância global devastadora”. Ele faleceu no ano passado, mas eternizou a sua mensagem: o mundo não está tão ruim como supomos e vivemos tempos bem melhores do que qualquer um dos nossos antepassados viveu. Outros dois livros incríveis e recentes partem da mesma premissa: Enlightment Now, do Steven Pinker, e Abundance, do Peter Diamandis.

O mais interessante do livro de Rosling é que ele foi atrás das razões pelas quais percebemos o mundo tão pior do que ele está. Ele concluiu que o medo, o fatalismo, as generalizações e o forte instinto dramático do ser humano estão entre as causas mais prováveis. Os meios de comunicação e, agora, as redes sociais, nos conduzem ao pensamento binário e nos incitam a dividir as coisas em bom ou ruim, preto ou branco, nos impedindo de enxergar a realidade como ela é, cheia de nuances e complexidade. Nossa predisposição ao pessimismo é superestimulada pela mídia, que destaca as tragédias em geral, mas pouco fala sobre os avanços em diversas áreas, inclusive na Educação, com o pobre argumento de que “afinal, notícia boa não vende jornal”.

Sabemos que o mundo não é um conto de fadas. É importante ter a consciência de tudo o que precisa ser mudado e transformado, como a baixíssima qualidade da Educação e o cuidado com o planeta e os recursos naturais. Mas eu fico pensando o mal que uma visão negativa do mundo faz nas escolas, já moldando a cabeça dos estudantes para que eles sejam desde pequenos propensos ao negativismo. Como seria melhor se “vendêssemos” o positivo. Isso estimularia muito mais as futuras gerações a participar e a criar caminhos para fazer o seu contexto evoluir.

O argumento de Rosling é poderoso e emana um alerta: do ponto de vista prático, essa visão de mundo equivocada faz com que se proponham soluções baseadas em premissas erradas, o que é uma perda de tempo e de dinheiro. Concordo inteiramente com o autor quando ele diz que não devemos ser ingenuamente otimistas ou soturnamente pessimistas – devemos ser factualistas e possibilistas. Nas escolas, esse deveria ser o mote principal. Isso faria com que os jovens enxergassem as reais possibilidades e soluções para os principais problemas, com clareza e conhecimento de causa, deixando as emoções de lado e trabalhando analiticamente. Sem isso, não iremos a lugar algum.

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