Dia da educação: o desafio de 1 bilhão de alunos fora da escola
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Dia da educação: o desafio de 1 bilhão de alunos fora da escola

A pandemia de Covid-19 será maior disrupção na educação a nível mundial, em uma geração, e vai impactar negativamente a vida das pessoas e as perspectivas de toda uma sociedade se não buscarmos respostas efetivas para contorná-la

Ana Maria Diniz

28 de abril de 2020 | 11h58

Hoje é Dia Mundial da Educação e, na realidade, acho que nada temos a comemorar neste momento, pois 1 bilhão de crianças e jovens estão fora das escolas no mundo todo. Uma constatação triste é que todo este cenário extraordinário e totalmente impossível de se prever causado pela pandemia do novo coronavírus é que, fatalmente, iremos aprofundar o quadro de desigualdade educacional entre os alunos de classes sociais altas e aqueles que vivem em condições mais desfavoráveis.

Fernando Reimers, professor de Harvard, e Andreas Schleicher, criador do Pisa, definiram bem a situação no relatório Roteiro para guiar uma resposta educacional à pandemia de Covid-19, que acabaram de lançar: essa provavelmente será maior disrupção na educação a nível mundial, em uma geração, e vai impactar negativamente a subsistência das pessoas e as perspectivas de toda uma sociedade, principalmente os mais pobres, se não houver uma resposta intencional e efetiva para contorná-la.

Por mais que eu queira sempre ser positiva e pensar os pontos construtivos do que estamos vivendo, sei que são poucas as escolas e redes de ensino capazes de reagir ao desafio descomunal que a pandemia nos impôs de uma hora para a outra. Seria fora da realidade imaginar que é possível estudar com qualidade numa casa típica onde vive a maioria dos estudantes brasileiros. Seja por falta de um computador, por falta de conexão, por falta do apoio dos pais ou de um lugarzinho para estudar – “ai, que saudade do meu professor!” – esta criança ficará desassistida, perdida ou simplesmente desligada.

Em Nova Iorque, quando começou a pandemia e as aulas foram suspensas, o governo correu para identificar quantos e quais alunos não tinham equipamentos ou acesso à internet e forneceu a cada um deles a conexão e o aparelho necessários para que eles pudessem ter acesso ao ensino remoto. Quantos brasileiros estão nesta situação? De fato, não sabemos. Não temos sequer um levantamento oficial, exato e preciso, de quantas crianças não têm internet no Brasil. Sabemos que são muitas, mas por aproximação.

Dados do estudo de Reimers e Schleicher, compilados do Pisa 2018 e levantados por meio de um questionário online elaborado pelos autores e enviado a escolas, redes e entidades de educação de 98 países entre março e abril, ajudam a entender melhor a nossa realidade e evidenciam o peso das diferenças sociais nessa equação:

  • Nos países da OCDE, somente 9% dos estudantes não tem um lugar tranquilo para estudar em casa. No Brasil, o número gira em torno de 15% entre os mais favorecidos e de 40% entre os menos privilegiados.
  • Em países como Dinamarca, Islândia e Holanda, mais de 95% dos alunos têm um computador para estudar em casa. No Brasil, 90% dos mais privilegiados têm um aparelho. Entre os mais pobres, só 30%.
  • Em Singapura, 9 em cada 10 alunos têm acesso a uma plataforma eficaz de aprendizado online. No Brasil, a proporção é de 4 em cada dez estudantes, entre os mais favorecidos, e de 7 em cada 10, entre os mais vulneráveis.
  • Menos de 50% dos professores brasileiros que atuam em redes menos favorecidas têm habilidades técnicas e pedagógicas para ensinar com dispositivos digitais, ante 80% dos que trabalham nas mais favorecidas.

É muito desanimador pensar que a realidade da educação brasileira já era muito ruim antes da pandemia e, agora, essa situação vai ficar ainda mais grave. Estudos revelam que o tempo que um aluno permanece em sala de aula é um dos preditores mais confiáveis de oportunidades de aprendizagem. Mundialmente, pesquisadores têm demonstrado que a interrupção prolongada dos estudos promove uma perda significativa de conhecimento e das habilidades adquiridas. As pesquisas mostram também que perdas costumam ser maiores entre os estudantes de menor renda e aumentam com a série cursada.

Porém, sentar e chorar não é uma opção. Cruzar os braços e dizer: “pena, o Brasil é assim mesmo,” está fora de cogitação, pois seria desumano. A única opção é arregaçar as mangas e trabalhar com a realidade, encontrando brechas e possibilidades para transformar a crise em oportunidade.

Nesse sentido, algumas coisas positivas podem ser observadas. Quebramos a barreira da entrada da tecnologia na educação básica e na casa das pessoas para suprir o papel da escola. Isso foi uma grande conquista. Os professores, por sua vez, estão perdendo o medo da tecnologia e tendo que lidar com ela e descobrir, na marra, como se virar para planejar uma aula online. No médio prazo, a tecnologia pode ser uma grande aliada, na minha opinião, para ajudar os alunos a darem um salto na sua capacidade de aprender. Hoje, no estado de São Paulo, vários fornecedores de programas e tecnologias educacionais disponibilizaram suas plataformas para os 3,7 milhões de alunos estudarem em casa. São plataformas interessantes, eficientes e capazes de engajar os jovens.

A possibilidade de usar a tecnologia para elaborar aulas à distância e levar para todas as crianças brasileiras uma educação em streaming pode ser sensacional e significar um salto quântico na qualidade da educação brasileira. Mas isso é algo a se pensar mais à frente. Agora, o crucial é focar na conclusão dos primeiros bimestres e no bem-estar dos alunos. As atividades online disponibilizadas pelas escolas, mesmo que não atinjam os objetivos de aprendizagem, são fundamentais para manter o senso de normalidade e uma rotina mínima saudável para os alunos. Eles estão sobrecarregados psicologicamente, debilitados e, possivelmente, têm pais que perderam o emprego ou até mesmo a vida.

Pensando na retomada, será necessário um grande diagnóstico para entender os conteúdos que ficaram para trás e também avaliar como está a parte emocional dos alunos. O acolhimento deles será o nome do jogo. E cada diretor de escola, cada coordenador e cada professor terão que ser um guia para iluminar a vida escolar da grande maioria dos alunos.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: