Convicção e comprometimento: os principais atributos do bom professor
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Convicção e comprometimento: os principais atributos do bom professor

Nova pesquisa do educador neozelandês John Hattie revela as características e princípios dos professores excepcionais

Ana Maria Diniz

01 de agosto de 2019 | 13h07

Depois de algumas semanas de férias, estou retomando meus textos aqui do blog. Fiquei tentada, neste primeiro post, a comentar os últimos acontecimentos envolvendo o MEC, que depois de seis meses de paralisia começou a se mexer e apresentou, em meados de julho, um plano para a Educação Básica. Apesar de genérico, o documento, construído em parceria com os Estados e municípios, vai num caminho bastante razoável ao sinalizar que o governo não pretende virar tudo o que já é consenso sobre como elevar a qualidade do ensino em nosso país do avesso. Que assim seja! Mas resolvi recomeçar escrevendo sobre o tema que mais me motiva desde que comecei minha jornada em Educação: o professor e o seu papel basilar e vital no processo educacional.

Desde os anos 70, vários estudos mostram que o professor é o elemento que faz a real diferença na aprendizagem, não há fator mais crucial para o sucesso de um aluno na escola e fora dela. Porém, foi só há alguns anos que essa premissa ganhou o mundo graças ao esforço do neozelandês John Hattie, diretor do Instituto de Pesquisas em Educação da Universidade de Melbourne, na Austrália. Hattie liderou a maior pesquisa já feita na área em toda a história acadêmica, um trabalho seminal baseado na análise de 65 000 estudos feitos por centros de relevância mundial, e chegou a conclusões irrefutáveis de que um bom professor é mais decisivo do que tecnologia, apoio da família, total de alunos por classe e até mesmo do que os gastos de um país em Educação ou das condições socioeconômicas dos estudantes. Recentemente, Hattie voltou à cena para responder algumas questões que ficaram em aberto. A principal: o que faz um professor tão bom e especial a ponto de mudar nossas vidas e jamais nos esquecermos dele?

As respostas estão no livro Os 10 princípios da aprendizagem visível, escrito em parceria com o professor de Educação da Universidade de Augsburg, na Alemanha, Klaus Zierer, e recém-lançado no Brasil. Todos nós, em média, segundo Hattie e Zierer, passamos 15.000 horas na escola e temos aulas com 50 professores ao longo do ciclo de ensino. Mas quando tentamos nos recordar dos mestres que nos impactaram positivamente de alguma forma, apenas alguns nos vêem à mente. Geralmente, um ou dois, no máximo, e muito raramente, três. Ao investigarem o que levava um adulto a se lembrar desses docentes, os autores encontraram duas razões essenciais: esses profissionais ou tentaram fazer o aluno se interessar pela matéria que ensinavam (e conseguiram!) ou viram no estudante algo que nem o próprio aluno enxergava em si mesmo.

Essas ações, salientam os autores, se referem a como os educadores refletem sobre a profissão, as intervenções, os alunos e seu impacto na aprendizagem. “Mais importante não é o que os professores fazem, mas como porque o fazem”, escrevem no livro. Ou seja, o que diferencia o professor verdadeiramente bom de um mediano ou ruim é o gosto pela profissão e a convicção de que ele pode melhorar a aprendizagem e a vida de uma pessoa. Segundo os autores, essa crença e esse compromisso se manifestam por meio de 10 princípios e características comuns aos bons professores. Selecionei algumas, abaixo:

  • Eles se percebem como verdadeiros agentes de mudança e sentem-se responsáveis pelo sucesso de seus alunos na escola e na vida adulta.
  • Eles gostam de desafios e instigam nos alunos a mesma vontade de se desafiar e de se superar.
  • Eles desenvolvem relações positivas com os seus alunos, que contribuem para uma aprendizagem eficiente.
  • Eles focalizam mais em como os alunos aprendem e não em como os professores ensinam.
  • Eles são auto-críticos e entendem as avaliações sobre a sua atuação como um feedback do seu impacto para poder aprimorá-lo ainda mais.
  • Eles se envolvem em diálogos, e não em monólogos, com os alunos.
  • Eles se comunicam por meio de uma linguagem de aprendizagem comum e compartilhada, que é entendida por todos.

Para chegarem a estes resultados, John Hattie e Klaus Zierer se debruçaram sobre um oceano de dados: foram feitas 1.600 meta-análises a partir de 95.000 estudos envolvendo mais de 250 milhões de alunos do mundo todo. Ao final de mais essa empreitada, eles conseguiram provar, novamente, que para melhorar a Educação brasileira não precisamos reinventar a roda. Precisamos, sim, investir realmente nos professores, melhorar a formação inicial e continuada desses profissionais, oferecer a eles uma carreira atraente e valorizar de verdade essa profissão tão fundamental para o desenvolvimento das pessoas e do país.

O Brasil está começando a trabalhar em um documento em torno da “Profissão Professor” (Base Nacional da Profissão Docente), que definirá, em conjunto com toda a sociedade, o que é um bom professor em cada fase da carreira. A definição desses parâmetros será crucial para direcionar a formação inicial e os estágios de desenvolvimento ao longo de todo o percurso profissional. Sem dúvida, isso fará a diferença na nossa Educação!

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