Computadores sim, mas jardins também!
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Computadores sim, mas jardins também!

No livro A Última Criança da Natureza, recém-lançado no Brasil, o americano Richard Louv mostra como o distanciamento do mundo natural impacta de forma negativa o desenvolvimento físico, emocional e intelectual de jovens e crianças

Ana Maria Diniz

23 Junho 2016 | 08h51

Sou muito a favor da tecnologia e do desenvolvimento em geral, mas não podemos deixar que isso nos afaste da nossa essência. Precisamos, urgentemente, nos reconectar com nós mesmos, com os outros e com o planeta.
É o que mostra o Americano Richard Louv em A Última Criança da Natureza. Lançado na semana passada em São Paulo no seminário Criança e Natureza, iniciativa do Instituto Alana e do Instituto Toca, o livro, um best-seller mundial, é leitura obrigatória para educadores, professores, psicólogos e famílias. Nele, Louv se arma de estudos e argumentos para traçar um cenário perturbador da nossa realidade e mostrar que o distanciamento do mundo natural está nos deixando – adultos e crianças – doentes.
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Ansiedade, medo, insegurança, desatenção, miopia, falta de vitamina D e uma série de outros distúrbios físicos e emocionais compõem o que o autor chama de transtorno de déficit de natureza.
As crianças e os jovens são os que mais sofrem desse mal moderno. Vivem entre quatro paredes, em ambientes cheios de tomadas para abastecer parafernálias eletrônicas que os transportam para mundos paralelos, um dos poucos momentos de liberdade nas rotinas extremamente organizadas e atribuladas de suas infâncias cheias de limites e pressões.
Deixar de subir em árvores, correr pelo jardim ou mesmo enterrar uma joaninha encontrada morta no quintal – brincadeiras espontâneas, comuns para crianças há trinta, quarenta anos – tem enormes consequências para a auto regulação infantil, explica Louv.  Não só porque interferem de forma negativa no desempenho escolar, como já foi comprovado. Mas porque reduz a riqueza das experiências humanas.
A natureza, discorre Louv, sempre foi um lugar de liberdade, fantasia e privacidade para as crianças, onde elas podiam – longe dos olhos aflitos dos superpais  e supermães de hoje, preocupados com a segurança e a saúde de seus filhos -, descobrir, comtemplar ou apenas refletir, muitas vezes sozinhas, sobre suas experiências e aprendizados. Se queremos um futuro melhor, precisamos resgatar esse espaço o mais rápido possível.
As informações abaixo são, no mínimo, desconcertantes:
·      Crianças inglesas de oito anos são capazes de identificar mais personagens de animações japonesas, como Pokémon, do que espécies de plantas e animais nativas da comunidade onde vivem. Nomes como Pikachu, Metapod e Wigglytuff são mais familiares a elas do que lontra, besouro e carvalho.
·      Nos Estados Unidos, a proporção de crianças entre 9 e 12 anos que incluíam em suas rotinas atividades ao ar livre, como caminhadas, passeios, pescarias, idas à praia e jardinagem, caiu pela metade nas últimas duas décadas.
·      O brincar não estruturado e as horas livres das crianças americanas em uma semana típica diminuíram 9 horas em 25 anos. Israel e Holanda têm realidades bastante semelhantes.
·      São Paulo tem 2,6 metros de áreas verdes por pessoa.O recomendado são 12 metros.
 A boa notícia é que esse resgate é possível. E a cura para todos os males provocados pelo afastamento do mundo natural é rápida e indolor.  Novos estudos sugerem, inclusive, que a exposição à natureza pode diminuir os sintomas do TDAH e melhorar as habilidades e a resistência das crianças ao estresse e à depressão.
Depois de uma extensa pesquisa com crianças de 7 a 12 anos moradoras de regiões pobres e de classe média de Chicago, cientistas da Universidade de Illinois comprovaram que espaços verdes ao ar livre estimulam a criatividade, melhoram o acesso a uma interação positiva com os adultos e aliviam os sintomas de déficit de atenção na infância. Quanto maior a área, maior o alívio. Em comparação, atividades internas, como assistir televisão, ou externas, em áreas pavimentadas e não verdes, aumentavam os sintomas nas crianças.
A partir do estudo, os pesquisadores elaboraram uma lista com orientações incrivelmente simples, porém efetivas, para ajudar pais, professores e terapeutas no tratamento de crianças com sintomas de TDAH e outros distúrbios mentais. São elas:
·      Encorajar os jovens e crianças a estudar ou brincar em quartos com vista para a natureza.
·      Estimular e apoiar brincadeiras ao ar livre, em espaços verdes, e defender o recreio em pátios verdes – isso pode ser especialmente útil para renovar a concentração.
·      Pedir para que plantem ou cuidem de árvores e plantas em suas residências.
·      Ensiná-los a valorizar e cuidar de árvores da comunidade.
Em nenhum momento do Louv desdenha da tecnologia, da qual, admite, também é dependente. Ele apenas defende o bom senso e o equilíbrio na forma como gastamos nosso tempo. Um livro que vale a penas ser lido. Que tenhamos computadores, mas também jardins!