Competição ou colaboração?
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Competição ou colaboração?

Competir e colaborar são duas ideias que, apesar de parecerem antagônicas, na verdade podem ser complementares

Ana Maria Diniz

25 Agosto 2016 | 15h55

A Olimpíada não é só o maior evento competitivo do planeta – é também a prova de que duas ideias aparentemente antagônicas, a competição e a colaboração, podem conviver harmonicamente, como pudemos conferir nos Jogos Rio 2016, que acabam de terminar.

A competição desenfreada da sociedade em que vivemos é percebida como a principal a causa de rupturas, discórdia e desintegração social. Principalmente nos dias atuais, em que a rigidez hierárquica vem sendo substituída pela flexibilidade e  interdependência em vários aspectos da vida.

Como diz Thomas Friedman, o mundo hoje é cada vez mais plano – vemos isso também nas relações de trabalho, familiares e sociais. Na organização atual da sociedade, em rede, tornou-se  impossível atingir um objetivo, ou até mesmo vencer, se não trabalharmos de forma colaborativa.

Tive a ideia de escrever sobre este tema depois de ouvir a filósofa e psicanalista Viviane Mosé, na rádio CBN esta semana. Ela fez uma reflexão sobre a ideia de competição e de superação e citou Nietzche, que definia a vida como uma superação constante.

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Crédito: Reuters

Extrapolando essa discussão para o ambiente escolar, o que é melhor: exterminar a competitividade e estimular só a cooperação?

Eu acredito que, para a formação do caráter um indivíduo, é fundamental que ele queira se superar, e até ganhar de seu colega, quando está buscando o melhor de si. Dessa forma, o outro acaba sendo uma referência para que a superação pessoal aconteça. Por outro lado, percepção do outro e de suas necessidades também deve ser desenvolvida desde cedo na criança para que ela incorpore e exercite os princípios do pertencimento, da empatia e do respeito ao próximo, e aprenda, assim, a colaborar.

Não acredito que Usain Bolt conseguisse correr 100 metros em menos de 10 segundos ou que Michael Phelps tenha se tornado o maior medalhista olímpico da História sem os competidores na raia ao lado disputando milímetro a milímetro o primeiro lugar. Ao mesmo tempo, nenhum dos dois teria conseguido essas conquistas sem a equipe de colaboradores que lhes apoia – técnicos, massagistas, preparadores físicos, fisioterapeutas e psicólogos.

O espírito de colaboração na Olimpíada vai além da equipe de suporte de cada atleta, nos esportes individuais, ou de seus times, nos esportes coletivos. Esse espírito pode ser sentido na emoção, no companheirismo e na solidariedade entre todos os participantes. Na vida e na escola deveríamos buscar esse mesmo espírito, pois a competição saudável ajuda na formação dos valores e do caráter das crianças. Já a competição predatória, o “querer vencer a qualquer custo” – como nos casos de doping -, produz o efeito inverso.

Como demonstrou o naturalista inglês Charles Darwin, em sua teoria de seleção natural, a competição entre membros da mesma espécie e entre populações de espécies diferentes é um dos motores da evolução. Sobrevivem os mais aptos, os que melhor se adaptam ao meio. Mas para evoluir não basta competir. É preciso cooperar. O processo evolutivo só se revela de fato  bem-sucedido em ecossistemas e sociedades em que os indivíduos colaboram uns com os outros.

Sem cooperação, a evolução morreria em si mesma, defende o biólogo Edward Wilson, da Universidade de Harvard, um dos cientistas mais respeitados da atualidade, em Sociobiologia, de 1975, sua obra seminal. A natureza, com seus mecanismos de compensação, mimetizações e simbioses, é um campo amplo e fértil, onde podemos estudar e buscar melhores modelos de convivência social.

É exatamente isso que eu gostaria de ver nas escolas: crianças buscando o máximo de seu potencial e, ao mesmo tempo, aprendendo a colaborar, a pedir ajuda. Buscando, juntas, soluções para seus problemas.

 

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