Como a tecnologia pode ajudar a mitigar a falta de bons professores
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Como a tecnologia pode ajudar a mitigar a falta de bons professores

A crise na aprendizagem é mundial e se deve em grande parte à baixa qualificação docente; iniciativas em países como o Quênia mostram como é possível contornar o problema enquanto uma nova leva de professores mais capacitados não chega às salas de aula

Ana Maria Diniz

06 Dezembro 2018 | 13h17

Às vezes nos sentimos mais aliviados ao ver que um problema nosso não é só nosso, que outras pessoas também o têm. Este é o caso da situação gravíssima da alfabetização em nosso país, com 50% dos alunos sem saber ler e escrever aos 8 anos de idade. Não estamos sozinhos em relação aos resultados desastrosos do nosso ensino público e ao desempenho dos nossos estudantes nos anos iniciais do Fundamental. A crise de aprendizagem é mundial e atingiu níveis alarmantes: seis em cada dez estudantes do planeta – um contingente de 617 milhões de crianças e jovens – não dominam conceitos básicos de Leitura e Matemática.

Grande parte disso se deve à baixa qualificação docente. Segundo a Unesco, há uma escassez mundial de professores qualificados e isso tem um impacto muito negativo no aprendizado das crianças, principalmente em países mais vulneráveis. Em Bihar, no norte da Índia, por exemplo, só 11% dos professores sabem dividir números de três dígitos por outro de um dígito. Um relatório do órgão, divulgado em outubro, concluiu que só aumento expressivo na oferta de professores bem preparados -em torno de 70 milhões profissionais– reverteria o quadro de decadência que toma conta da maior parte dos sistemas educacionais mundo afora.

Tenho a convicção de que formar professores mais qualificados em nosso país é uma demanda muito estratégica para tirar a Educação, de forma efetiva, do atoleiro em que se encontra. Mas sei também que é algo impossível de se fazer em larga escala no curto prazo, pois os resultados só virão no médio prazo. Sabendo disso, eu tenho buscado soluções alternativas para o problema e soube de uma delas em uma matéria publicada na edição impressa da revista The Economist com o título Teacher’s Little Helpers e disponível em uma versão on line. A reportagem mostra como a tecnologia pode mitigar a falta de bons professores em países pobres enquanto se busca e se implementa uma solução para a questão docente.

Uma das iniciativas citadas na matéria é o programa Tusome, implementado pelo governo do Quênia com financiamento da USAID que visa alfabetizar bem cerca de 5.4 milhões de crianças de 23.000 escolas públicas e mais de 5.000 escolas particulares do país. Ao custo de 4 dólares por aluno e duração prevista de 5 anos, o Tusome é um caso raro de projeto piloto que ganhou escala nacional e manteve os bons resultados. O projeto, iniciado em 2015, envolveu a elaboração de um currículo totalmente novo baseado no método fônico e de planos de aula para e estruturar a atuação de 60.000 professores, além da distribuição de tablets para os docentes e técnicos vinculados ao programa.

A ideia por trás do Tusome é muito simples: na sala de aula, o assistente registra no tablet as informações sobre o desempenho do professor em classe, que são processadas num software e enviadas para o gestor e para responsável pela área de avaliação e capacitação da rede local. Com base nesses dados, o professor recebe avaliações periódicas e tem acesso a conteúdos de formação continuada de acordo com sua necessidade, melhorando assim o seu desempenho e o de seus alunos. Em menos de um ano de programa, o número de alunos quenianos do 2º ano que conseguiram ler 30 palavras por minuto aumentou mais de 30%.

A tecnologia também pode ajudar os professores que atuam em condições não ideais de trabalho. É o caso do Onebillion, um software focado nos anos iniciais que vem sendo testado no Malaui, onde uma classe tem em média 100 alunos, mas pode reunir até 300 estudantes por sala de aula. Geralmente barulhentos e distraídos quando assistiam aulas tradicionais, os alunos mudaram o comportamento nos 30 minutos diários a utilização de tablets com aplicativos para apoiar a alfabetização. Em seis semanas com os tablets, os estudantes avançaram entre 12 e 18 meses no aprendizado de Matemática.

A tecnologia não substitui o professor, muito menos o bom professor. Mas, se bem utilizada, pode ajudar milhões de crianças e jovens na conquista do conhecimento básico que tanto precisam enquanto uma nova leva de bons professores, mais capacitados e profissionais, não chega maciçamente às salas de aula do Brasil e do mundo todo.