Como a educação tem reagido ao isolamento
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Como a educação tem reagido ao isolamento

É vital que as crianças não parem de aprender em casa, mas isso não é possível para uma gigantesca quantidade de alunos no Brasil que mora em locais com infraestrutura e condições precárias para o ensino distância

Ana Maria Diniz

07 de abril de 2020 | 12h57

E, de repente, num estalar de dedos, tudo virou do avesso. O isolamento social, medida severa, mas super necessária para conter a transmissão desenfreada do novo coronavírus, levou para dentro das casas o trabalho, o aprendizado, a ginástica, a consulta médica, a terapia, entre tantas outras coisas, e está promovendo uma reviravolta na vida de todos nós. Esse fechamento universal que estamos vivendo tem impacto sem precedentes na possibilidade das crianças e jovens frequentarem as escolas. Segundo a Unesco, 1,5 bilhão de alunos de 165 países, 87% de toda a população estudantil do mundo, está longe das salas de aula, alguns tentando aprender à distância e outros, a grande maioria, afastados por completo dos estudos.

No Brasil, todos os Estados já decidiram suspender as aulas – alguns deles, como São Paulo, entraram em férias escolares antecipadas a partir de ontem. A medida foi seguida pelas escolas particulares e faculdades, que cancelaram as atividades, pelo menos as presenciais, já que muitas seguem ensinando por meio de plataformas online e vídeo-aulas. As consequências dessa paralização abrupta, sem igual em qualquer outro momento da história, são incalculáveis, mas certamente serão enormes.

Escolas fechadas por longos períodos — ou, pior ainda, por tempo indeterminado, como agora  — têm efeitos negativos na aprendizagem. Segundo a Unicef, um fechamento prolongado gera um grande risco de as crianças e os adolescentes ficarem atrasados em seu aprendizado. Risco maior ainda seria o terrível cenário dos mais vulneráveis nunca mais voltarem às aulas. Por isso, é vital que eles não parem de aprender em casa, mas isso não é possível para uma gigantesca quantidade de alunos no mundo inteiro, especialmente no Brasil, onde a esmagadora maioria das crianças estuda em escolas públicas e mora em locais com infraestrutura e condições precárias para o ensino distância.

Na China, onde eclodiu a pandemia, todas as escolas foram fechadas e rapidamente colocou-se em prática um esquema de educação remota numa escala jamais vista. Nos últimos 40 dias, cerca de 240 milhões de crianças e jovens chineses, do ensino fundamental ao superior, estão aprendendo dentro de suas casas por meio de sessões de tutoria online e aulas de matemática, inglês, arte e educação física são transmitidas por canais estatais de TV. Nos Estados Unidos, 76 milhões de alunos já estão estudando de casa, mesmo que de forma não tão organizada e eficiente quanto os chineses. Porém, o Brasil não é a China, uma ditadura e o país que mais entende e aplica a EAD atualmente, nem tampouco os Estados Unidos. Em nosso país, infelizmente, o ensino à distância é um privilégio de poucos dos 48 milhões de alunos.

Os números não deixam dúvidas sobre quem terá acompanhar aulas online: mais de um terço dos domicílios está desconectado e onde muitos dos que dizem ter internet na verdade utilizam redes móveis e usam planos limitados, portanto, precários. Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2018, lançada em meados de 2019, 85% dos usuários de Internet das classes D e E acessam a rede exclusivamente pelo celular, 2% pelo computador e 13% se conectam tanto pelo aparelho móvel quanto pelo computador. Sem dúvida, toda essa situação vai aprofundar ainda mais as diferenças de aprendizado entre crianças ricas e pobres. A maioria das escolas particulares está desenvolvendo atividades diárias bem interessantes com seus alunos e eles ainda têm apoio de seus pais em casa para ajudá-los. Enquanto isso, muitas das crianças de comunidades pobres não estão sequer conseguindo acessar a internet.

Mas nem tudo são mazelas. A secretaria de Educação de São Paulo, por exemplo, está trabalhando em várias frentes para atacar o problema de falta de aulas presenciais para a sua rede com 3,8 milhões de alunos. Uma delas é a criação do Centro de Mídias do Estado de São Paulo para gerar conteúdo desenvolvido por seus próprios professores. Também fez um acordo com a TV Cultura, que disponibilizará conteúdo educacional todos os dias para as crianças em sinal aberto e, portanto, muito mais acessível. Além disso, está desenvolvendo um aplicativo para distribuir atividades para os alunos em cada série. No Rio, uma parceria com o Google for Education vai permitir que os alunos da rede estadual tenham acesso aos conteúdos online. Os estudantes sem acesso à internet receberão o material didático impresso.

Outro efeito positivo dessa crise é que muitos professores estão perdendo o medo de ensinar a distância, estão começando a entender que isso não afetará seus empregos. Do outro lado, muitas crianças estão gostando de fazer atividades em casa, acham que estão aprendendo pra valer e, na volta ås aulas, não vão mais ficar sem esse recurso. Tudo mudou, existirá um mundo antes e um depois do coronavírus. Na educação não será diferente. Vamos ter que trabalhar na recuperação da defasagem de quem ficou para trás e também conceber qual é a real educação que queremos no futuro meio presencial meio a distância.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: