Colaborar é o nome do jogo
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Colaborar é o nome do jogo

Se o próximo presidente se preocupar mais em construir caminhos reais para os 48 milhões de alunos que estão em idade escolar no Brasil, ao invés de ficar reinventando a roda, ou querendo botar fogo em tudo para começar de novo, temos muito a ganhar

Ana Maria Diniz

25 Outubro 2018 | 07h23

Há mais coisas em comum entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) do que supõe a nossa vã filosofia. Falso ou verdadeiro? Pelo menos no que diz respeito à Educação, verdadeiro! Vejam só: os dois antagonistas, que aparentemente divergem em tudo, pretendem mexer na Base Nacional Comum Curricular. Também querem priorizar o Ensino Médio – o que implicaria em enterrar todas alterações previstas na recém-aprovada reforma para essa etapa de ensino, no caso de Haddad, ou ignorá-las por completo, no caso de Bolsonaro. Os postulantes miram o mesmo alvo, mas suas razões são diametralmente opostas. Bolsonaro quer expurgar o “ranço de Paulo Freire”. Haddad quer pôr abaixo o que foi feito pelo governo “golpista” e “ilegítimo”.

Os candidatos estão sendo extremistas e, obviamente, não estão pensando no que é melhor para o Brasil. O que eles propõem, tanto de um lado como de outro, é um retrocesso. O Novo Ensino Médio, assim como a BNCC para o Fundamental 1 e 2, aprovados em 2017, são dois avanços indiscutíveis. As duas conquistas são essenciais para elevar o nível da nossa Educação. O currículo comum, por exemplo, foi o ponto de partida de todas as reformas educacionais recentes e bem-sucedidas no mundo, como as que se deram em Singapura, Finlândia e Coreia do Sul. A forma como nossas diretrizes curriculares foram concebidas também foi muito democrática, pois elas foram feitas a muitas mãos e cabeças brasileiras e constituem um verdadeiro compromisso do país com um ensino de qualidade para todos. Alterá-la a essa altura colocaria tudo a perder.

Sobre a reforma do Ensino Médio, sabemos que ela foi feita de forma emergencial: estava patinando havia muitos anos no Ministério da Educação e não poderia mais ser postergada, pois em nosso país a cada um minuto um aluno desta etapa abandona a escola e os que ficam têm resultados pífios. Mas essa reforma não para de apanhar, por todos os lados, simplesmente pelo fato de ter sido feita via medida provisória. Mais uma vez, quem critica não faz pelo mérito, mas pela forma. Qualquer pessoa de bom senso sabe que o Novo Ensino Médio vai no sentido certo, tudo o que está ali já vem sendo discutido há muito tempo e se baseia nas melhores práticas de países que tem uma Educação de excelência nesta etapa.

Em vez de revogar, desprezar ou protelar a implementação de medidas tão importantes, os candidatos deveriam se esforçar para achar caminhos para a boa execução das medidas. no caso do Ensino Médio está saindo do forno do CNE (Conselho Nacional de Educação) a BNCC para esta etapa, depois de boas discussões. O governo atual pretende homologá-la ainda este ano. O papel do novo governante deveria ser o de ajudar os Estados a executar bem as reformas, dando diretrizes e condições para tal.

Um belo exemplo é o que está acontecendo por meio das comissões interdisciplinares em regime de colaboração entre os 27 Estados do país e seus municípios, junto com Consed e Undime, para a criação dos currículos de Educação Fundamental 1 e 2. Neste caso, os Estados e seus municípios deixaram de lado divergências e se uniram para a construção de currículos próprios para os dois ciclos de fundamental a partir da BNCC aprovada em dezembro. Segundo ela, 60% das diretrizes devem ser seguidas e 40% ficam a cargo dos Estados e municípios para que se contemplem as especificidades regionais.

Enquanto a maioria dos Estados ainda está trilhando os caminhos para construir em cooperação com os seus municípios um documento próprio, o Mato Grosso do Sul (MS) saiu na frente. Antes mesmo da homologação da BNCC no final de 2017, o Estado já desenhava um regime de colaboração nesse sentido. Dessa forma, em março de 2018, teve início no Estado o processo de implementação do eixo da Base que trata das habilidades socioemocionais.

Se o próximo presidente se preocupar mais em construir caminhos reais para os 48 milhões de alunos que estão em idade escolar no Brasil, ao invés de ficar reinventando a roda, ou querendo botar fogo em tudo para começar de novo, temos muito a ganhar. Num país tão grande e com tantas disparidades como o nosso, com tantos desafios e problemas complexos, precisamos de soluções para transformar de verdade as salas de aula e não de discursos e propostas extremadas e sem fundamento. Precisamos construir as pontes para criar o Brasil que queremos: mais justo, mais ético e menos desigual.

Têm muita coisa boa acontecendo para melhorar a qualidade da Educação no nosso país. Mas ninguém fala, muito menos constrói em cima delas!