Big Data: uma lente para os problemas invisíveis da Educação
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Big Data: uma lente para os problemas invisíveis da Educação

A análise de dados em grande escala tem transformado quase todos os setores para melhor, mas seu uso na Educação ainda é insipiente, mostra relatório da Brookings Institution

Ana Maria Diniz

17 Maio 2018 | 11h32

Nove entre dez leitores deste blog já devem ter passado por uma experiência do tipo: basta uma compra ou uma pesquisa na internet para, em instantes, uma chuva torrencial de anúncios, mensagens e posts relacionados ao produto ou tema em questão desabar sobre nós, inundando nosso Facebook, Instagram e os sites que costumamos visitar.

AltSchool, na Califórnia

Acho fantástico, e ao mesmo tempo assustador, que os algoritmos atuais consigam armazenar, organizar, relacionar e analisar os rastros que deixamos nas nossas atividades virtuais corriqueiras para, dessa forma, se atingir um determinado fim – seja nos vender aquela roupa que tanto desejamos ou influenciar os resultados da eleição presidencial nos Estados Unidos.

Isso é possível graças ao Big Data, um conjunto de tecnologias digitais capaz de transformar um volume colossal de dados em informações para, assim, orientar determinadas ações. O Big Data já é realidade no mundo inteiro e vem sendo usado cada vez mais e com sucesso em áreas tão díspares quanto meteorologia e marketing, oncologia e RH, tráfego aéreo e controle da dengue. Na Educação, porém, a adoção e utilização desse tipo de análise de dados, infelizmente, ainda é insipiente.

É o que mostra o relatório Toward Data Driven Education Systems, lançado pela Brookings Institution no início do ano, que analisou o uso de Big Data em sistemas educacionais em 133 países, entre eles o Brasil. Dentre os pesquisados, 61 não dispõem de um banco de dados ou possuem informações precárias e 43 têm coletado informações pouco abrangentes. Mesmo as nações mais avançadas falham em usar o Big Data para gerar impactos positivos no ensino.

Não deveria ser assim. As possibilidades do Big Data na Educação são inúmeras e significativas. Com a correta captação, armazenamento e análise das informações, é possível, por exemplo:

– Identificar os pontos fortes e fracos de um método de ensino;
– Entender as  abordagens docentes mais eficazes levando-se em consideração as diferenças regionais, sociais e econômicas das redes de ensino;
– Mapear as principais falhas na formação dos professores en suas dificuldades em sala de aula, a nível local e nacional;
– Reduzir a evasão escolar, identificando os alunos mais propensos a desistir dos estudos e possibilitando intervenções para evitar o abandono escolar;
– Descobrir exatamente quais conceitos e habilidades cada aluno está ou não aprendendo e de que maneira cada aluno aprende melhor;
– Entender quais ações corretivas são mais eficientes para ajudar os alunos a aprender;
– Aprimorar o sistema de avaliação e passar a usar efetivamente os dados gerados pelas atividades e provas para reforçar conceitos que não estão sendo bem aprendidos.

Dentre os países que apresentaram ganhos consistentes na Educação com o uso do Big Data estão as Filipinas, segundo o relatório da Brookings. Graças a um sistema robusto de gerenciamento informações, capaz de captar dados granulares sobre oferta de vagas, aprovações e reprovações, capacitação de professores, entre outros, em pouco menos de uma década o governo filipino aumentou a oferta de vagas, diminuiu a diferença nas matrículas de alunos oriundos de famílias ricas e pobres de 50% para 5% e atenuou problemas sérios como a escassez de professores.

Outro bom exemplo do Big Data na Educação vem dos Estados Unidos: a análise de dados nacionais e locais mostrou que muitas cidades periféricas contratavam professores menos preparados para reduzir custos, o que impactava direta e negativamente o desempenho dos estudantes, além de promover um aumento no abandono escolar. A detecção do problema levou o estado da Filadélfia a desenvolver programas para diminuir a evasão, com resultados promissores.

A AltSchool, na Califórnia, é um exemplo de escola que tem o Big Data na sua essência. A instituição representa o que há de mais avançado e agressivo no uso desse arsenal tecnológico no ensino básico. Ali, as aulas são totalmente personalizadas e geridas por computadores. Tudo é pensado para o aluno individualmente. A partir dos dados armazenados, são desenvolvidos algoritmos que orientam os professores sobre o que ensinar para cada uma das crianças de maneira específica.

No Brasil, o Big Data, ainda que engatinhando, começa a despontar em alguns colégios. No Dante Alighieri, em São Paulo, os professores podem avaliar o quanto do conceito ensinado foi entendido pelos alunos ao final de cada aula por meio de um questionário online. Com a análise dos resultados, voltam para a sala de aula focando nas principais dificuldades de cada turma. No Santa Marcelina, em Belo Horizonte, o Big Data tem ajudado os professores a identificarem as principais dificuldades dos alunos do 7º ano em de Matemática e Redação.

Existem algumas condições básicas para que todas as escolas possam usar a ánalise de dados em grande escala. A primeira delas é que as secretarias de Educação dos Estados e Municípios estejam preparados para coletar dados de sua rede em um único sistema gerencial e usá-los para melhor gerir suas escolas. A segunda é dar condições físicas, isto é, internet rápida em todas as escolas do Brasil. Existem vários estudos nesse sentido, um deles inclusive que eu tenho conhecimento foi feito em 2016 pela Fundação Lemann. Não estamos muito longe dessa realidade, mas é preciso vontade política para executar o plano. A terceira e mais desafiadora é preparar os professores e gestores escolares para lidar com dados, saber analisá-los e usar as informações para fazer as criancas aprenderem o conteúdo certo na idade correta.

Não vamos nos iludir: o Big Data não é nem será uma solução mágica para todos os problemas da Educação. No entanto, ele pode, sim, facilitar a vida e trazer luz para uma serie de situações que já estão presentes nas escolas e que estão invisíveis hoje. Mas a Educação continuará precisando de professores bem capacitados e bem intencionados para inspirar e dar suporte às trilhas de aprendizado de cada criança e jovem deste país.

 

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