As resoluções nossas de cada dia
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As resoluções nossas de cada dia

Mais importantes do que as resoluções de ano novo, que se levadas a sério certamente promoveriam mudanças positivas em nossas vidas, são as pequenas decisões e escolhas diárias que nos permitem seguir olhando para frente e no caminho certo em direção aos nossos sonhos

Ana Maria Diniz

01 Fevereiro 2018 | 08h34

Já é fevereiro e só agora estou retomando meu blog A Educação Que Vale a Pena. Como no Brasil a tradição diz que o ano, para valer mesmo, só começa depois do Carnaval, sinto-me de certa forma “absolvida” pela demora. Quem entre nós nunca usou este aforismo como desculpa (bem esfarrapada, diga-se) para se deixar inebriar pelo torpor que imobiliza nosso país entre janeiro e o fim dos dias de Momo, adiar uns compromissos e relaxar um pouco mais? Sou mortal, sou como todo mundo.

Essa mistura de descontração e descompromisso, que temos a necessidade de vivenciar ao menos uma vez por ano, faz parte da nossa mentalidade e não é necessariamente má. Mas deve ser adotada com parcimônia, pois pode ter consequências desastrosas. Pensando bem, acho que não devemos propagar este costume nas escolas, pois o ano começa quando começa e termina quando termina. O brasileiro precisa manter a descontração, mas também aprender a ser mais preciso nas suas medições de tempos e movimentos.

Voltando ao ponto central de hoje, estive pensando sobre esse período de reflexão coletivo, de fim e recomeço de ano. Queria entender qual o real potencial dessa pausa no sentido de mudar o mundo de forma positiva. Afinal, é na virada do ano que tantas pessoas estão dispostas a adotar hábitos mais saudáveis, a fazer renúncias e passar a ter atitudes mais positivas, que mesmo sendo atitudes individuais, se levadas a sério, certamente promoveriam transformações gigantescas, tanto do ponto de vista pessoal como para a sociedade como um todo.

Por meio do célebre experimento do marshmallow, realizado durante os anos 60 e início dos 70 nos Estados Unidos, o então professor de Psicologia de Stanford, Walter Mischel, provou que crianças expostas a um pedaço de marshmallow e capazes de resistir a ele por quinze minutos, sabendo que depois desse período seriam recompensadas e ganhariam uma dose dupla da guloseima, tornaram-se adultos mais bem-sucedidos do que as que não conseguiram segurar a vontade e comeram o doce imediatamente. Uma nova pesquisa, conduzida pelo psicólogo Greg Miller, da Universidade Northwestern, mostra o outro lado dessa história: essas pessoas tão boas em força de vontade também são as que têm níveis mais altos de estresse e apagões ao longo da vida.

Ao lutarem com todas as suas forças para manter e cumprir suas metas e objetivos, elas causam a si próprias uma série de desequilíbrios emocionais e físicos: morrem mais cedo e ficam mais doentes do que aquelas com menos autocontrole e determinação. As outras, por sua vez, ganham menos dinheiro, mas têm melhor qualidade de vida.

Basear-se somente na força de vontade para levar à frente as resoluções de ano novo não é fácil e não funciona de maneira automática. Comprovadamente, apenas 10% das pessoas levam adiante o seu “novo eu” prometido na virada do ano. Nós, seres humanos, resistimos pouco a tentações, acertamos novas metas com facilidade e nos comprometemos com novos comportamentos, mas ao primeiro sinal de cansaço ou desequilíbrio emocional voltamos correndo para os braços dos nossos velhos hábitos.

Valorizar mais o futuro do que o presente, acreditando que ele pode nos trazer mais recompensas se fizermos sacrifícios agora para obter resultados lá adiante, é uma coisa que foi muito forte na minha educação e na minha geração. Talvez tenha sido uma fórmula importante para o mundo chegar até onde chegou. Mas as coisas mudaram. Minha visão de mundo também mudou.

Se eu tivesse que dar alguns poucos conselhos para os jovens, hoje, seriam:

– Defina seus objetivos com clareza, descubra o que você quer fazer, invista tempo nessa investigação.

– Mantenha o foco e não desista a cada tropeço. Tente novas alternativas e estratégias para atingir seu objetivo final.

– Depois de bastante tentar, se em algum momento você sentir que não era bem isso que você queria, ou que chegar lá implica em custos mais altos do que você está disposto a pagar, recue e repense. Se necessário, com maturidade, desista. Não há demérito algum nisso. E recomece.

– Ao longo do caminho, faça amigos, olhe para as pessoas do seu lado, entenda onde eles querem chegar também, compartilhe seus sentimentos, ajude e se deixe ajudar.

– Enfim, faça seu momento atual prazeroso, tenha curiosidade sobre o que está à sua volta. O que você está vivendo hoje é, e sempre será, muito mais importante do que você vai alcançar no futuro. Aliás, você só terá um futuro se escolher bem as pedrinhas para lajear o caminho que está trilhando agora.

Muito mais importante do que as nossas promessas e metas para o ano novo são as nossas pequenas resoluções de cada dia, sempre olhando para frente na direção do nosso sonho. Como escreveu Drummond, “é dentro de você que o ano novo cochila e espera desde sempre”.

Isso certamente deveria ser objeto de reflexão em todas as escolas.