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As lições da greve

A paralisação dos caminhoneiros que levou o país ao caos expõe alguns dos maiores gargalos e fraquezas do Brasil e dos brasileiros; todos nós, políticos e cidadãos, deveríamos tomar isso como lição

Ana Maria Diniz

31 Maio 2018 | 11h20

No começo desta semana sentei para escrever meu blog de Educação, como sempre faço, e fiquei paralisada. Paralisada como os caminhoneiros, paralisada como o resto da população diante do caos que estamos vivendo. Tenho 56 anos e não me lembro de o país passar por tamanha insegurança em tantas frentes. Mesmo nos anos 70, quando vivíamos em plena ditadura, tínhamos a liberdade de expressão cerceada, mas era possível sentir algum sentido de ordem, apesar de muitas arbitrariedades e injustiças.

Minha vontade de escrever sobre Educação, contando sobre um programa ou projeto qualquer interessante, zerou. Nada parecia fazer sentido diante de tamanho caos. Fui buscar todas as informações possíveis sobre a greve a fim de fazer alguma correlação entre a paralisação e a lamentável qualidade da Educação no nosso país – escolaridade dos caminhoneiros, total de escolas públicas e privadas paradas, crianças sem aula, enfim, um monte de dados em diversas frentes. Continuei sem a resposta. Mas meu instinto continuava dizendo que na raiz do problema essas duas coisas estavam interligadas. Apesar de não encontrar evidências e provas concretas dessa correlação, resolvi me expor, assumir algumas hipóteses e escrever baseada nos meus sentimentos como cidadã neste momento. Por isso, de antemão, já peço desculpas porque hoje não serei nada “científica”.

A greve dos caminhoneiros representa tudo o que há de problemas no Brasil. O imposto altíssimo cobrado nos combustíveis existem para sustentar a gigantesca máquina pública que temos no país. O valor exorbitante do nosso petróleo é fruto do altíssimo custo de extração, refino e operação da Petrobrás, que embute também o alto custo Brasil, além da necessidade de se atrelar seu valor ao mercado internacional por se tratar de um comodite global. Por sua vez, a política governamental não apresenta condições de previsibilidade aos caminhoneiros e as empresas de transportes não têm a segurança de calcular seus fretes com segurança por causa de uma politica diária de flutuação do preço do óleo diesel que afeta seu bolso diretamente, já que o frete é parte importante da composição de seus custos.

Por outro lado, o brasileiro gosta bastante de ter um paizão que resolva todos os seus problemas, agindo como vítima da situação. Olha muito para fora e pouco para si mesmo. Bradamos contra o sistema vigente, contra a corrupção e contra os corruptos, mas nos esquecemos sempre que os governantes e o Congresso estão lá porque nós os elegemos. Os elegemos sem pensar, achando que não teria tanto problema quem sentasse na cadeira, que qualquer um seria mais ou menos a mesma coisa.

Os caminhoneiros certamente tiveram uma Educação precária e, quando foram as urnas, não fizeram a mínima relação de que esses mesmos políticos poderiam, com suas decisões, afetar suas vidas. Nunca tiveram nas escolas, assim como todos nós, uma Educação política, explicando seu papel e sua responsabilidade como cidadão na democracia. Esse tema deveria ser parte importante do currículo desde o Fundamental 2, mas ninguém agora está pensando nisso. Afinal, a ideia é resolver a crise e, como sempre, deixar isso “mais para frente”.

Em vez de buscar soluções reais para os problemas homéricos do Brasil, vejo que algumas escolas e alguns educadores se aproveitam desse momento caótico para acirrar ainda mais as diferenças e colocar mais lenha na fogueira. Soube, por exemplo, que o renomado Colégio Santa Cruz, em São Paulo, suspendeu suas aulas esta semana e apenas chamou os alunos para discutir a crise causada pela greve dos caminhoneiros. Esta seria uma iniciativa louvável se tivesse a intenção de promover uma discussão isenta, sem influência ideológica, mostrando os diversos aspectos dessa questão tão complexa. Mas não foi o que aconteceu e isso ficou claríssimo quando convidaram um palestrante com um forte viés ideológico de esquerda para conversar com os alunos.

Acredito que discussões de problemas atuais podem ser riquíssimas para formação de jovens, mas para ser intelectualmente honestas as escolas têm que ser equilibradas quanto aos argumentos de um lado e de outro. Portanto, se esse colégio chamou alguém de esquerda para palestrar, também deveria chamar uma outra pessoa para fazer contraponto.

Enfim, um plano para arrumar o Brasil será possível se cada um fizer a sua parte. Cada um de nós, como cidadãos, tem um papel e uma responsabilidade nisso. Enquanto quisermos somente achar culpados, sem assumir a nossa parte, não vamos mudar.

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