Angústias e indefinições sobre volta às aulas impulsionam fenômeno das microescolas
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Angústias e indefinições sobre volta às aulas impulsionam fenômeno das microescolas

Sem perspectivas de uma retomada segura das aulas presenciais e temerosas em relação ao aprendizado e socialização dos filhos, famílias contratam professores e tentam recriar a experiência escolar dentro de casa

Ana Maria Diniz

21 de agosto de 2020 | 13h51

Deu! Ninguém aguenta mais as crianças em casa por tanto tempo, sem estudar e muitas vezes sem condições de fazer qualquer atividade física, independente de classe social ou de estilo de vida. No Brasil, o recordista entre 15 países no total de dias em que os alunos estão fora da escola – com exceção do Amazonas e do Maranhão, que já retomaram as atividades, estamos há 198 dias sem aulas presenciais, três vezes mais do que ficaram Alemanha (68) e Inglaterra (70) -, não há mais paciência ou criatividade que dê conta da energia dos filhos no isolamento, muitos sem poder ver amigos, primos ou vizinhos. Além de tudo, há a preocupação com o que os jovens estão deixando de aprender. Ao mesmo tempo, os pais em geral estão com medo, fazendo ressonar por todos os cantos o mantra: “melhor um ano perdido do que um filho perdido”.

Em todos os lugares, o debate é o mesmo. Será que é seguro mandar meu filho quando as aulas voltarem? Quando isso deve acontecer?” Em meio a tantas perguntas sem respostas e indefinições, uma outra realidade, que não estava no radar dos especialistas e pode revolucionar ainda mais a educação, começou a se desenhar. Diante da convicção de que o perigo da volta às aulas é elevado, de que o ensino remoto não está funcionando e de que crianças e jovens precisam socializar, algumas famílias, aquelas que podem, decidiram agir por conta própria. Elas estão contratando professores para que os filhos tenham todas as aulas em casa ou pelo menos alguém de “carne e osso” para apoiá-los nos estudos durante a pandemia. Essas microescolas ou escolas em cápsula, como vêm sendo chamadas, estão proliferando em várias partes do mundo, com algumas diferenças.

No caso brasileiro, geralmente as crianças continuam matriculadas nas escolas convencionais, com atividades online, e têm aulas extras com os “professores reais” para complementar e a educação e ajudá-los na motivação e nas lições. Na educação infantil, é diferente: muitos pais do Rio e de São Paulo cancelaram as matrículas em escolinhas e contrataram professores para ensinar a grupos pequenos de crianças na casa de um deles, em total substituição à escola. Nos Estados Unidos, onde o fenômeno acontece com mais intensidade, entidades de educação calculam que milhares de famílias decidiram seguir por esse mesmo caminho e tiraram os filhos da escola, tomando para si a responsabilidade de educá-los.

Tais como as “bolhas pandêmicas”, nas quais pessoas de diferentes famílias se encontram para manter um pouco de socialização enquanto se afastam de todas as outras, as microescolas agrupam de três a dez alunos, no máximo, enquanto  um ou dois professores particulares dão aulas presencialmente. Dessa forma, acreditam os pais, os filhos têm a chance de interagir com colegas da mesma idade e de estudar com um profissional qualificado, que não só passará aos estudantes o conteúdo previsto no currículo, mas os ajudará no desenvolvimento de habilidades como criatividade, resolução de problemas e senso crítico a partir de seus próprios talentos e interesses. Esse tipo de contato tão customizado é praticamente impossível de se desenvolver em escolas convencionais, onde as classes em geral têm 20, 30 e até mais alunos, além de várias outras burocracias e impedimentos.

As microescolas não surgiram por causa da Covid-19, nem são exatamente uma novidade. As primeiras escolas do tipo despontaram há cerca de uma década e foram criadas com o intuito de fornecer um ensino mais personalizado, humanizado, com tutoria e focado nas competências socioemocionais, mas eram apenas um nicho formado por pais que buscavam uma educação realmente inovadora e mais individualizada, sem ter que apelar para o homeschooling. O fato foi que a pandemia acelerou imensamente essa tendência.

Para muitos pais, essa parece ser a solução ideal para se resolver vários problemas, mas vários outros problemas menos evidentes estão surgindo por conta dessa solução. Por um lado, a opção pela microescola dá uma pausa aos pais, que têm se desdobrado para fazer home office e ajudar os filhos no ensino remoto, já que muitos alunos, principalmente os que estão no ensino infantil e no fundamental, não dão conta de estudar sem o apoio de um adulto. O revés disso, que fica escondido, é consequência da pouca diversidade desses grupos, pois eles normalmente são formados por famílias que pensam muito parecido e têm uma visão de mundo muito similar. Isso aumenta a chance de formação de guetos com um mesmo pensamento e de potencial explosivo para a sociedade.

A pergunta agora é: as microescolas são uma onda passageira ou vieram para ficar? Será que vão crescer, aumentando a segregação da sociedade? Como isso vai afetar a educação? Entre os especialistas, há os que enxergam o fenômeno como positivo e com potencial para mudar o panorama educacional. Afinal, a insatisfação com a escola atual só tem aumentado nos últimos anos e esse ensino mais individualizado e focado nas competências do século 21 vai de encontro ao que muita gente procura. No entanto, há outra preocupação em relação caso o modelo se propague e perdure: o aumento da desigualdade educacional. As microescolas não são baratas e ficam restritas às famílias mais ricas. Para se ter uma ideia, as organizadas pela Portfolio School e pela Red Bridge School, nos Estados Unidos, custam cerca de 2.500 dólares por mês por aluno em um grupo de cinco crianças.

Mas pode haver uma saída para esse impasse. Nos últimos dias, com as discussões em torno das microescolas financiadas por famílias de alta renda aumentando exponencialmente, um outro movimento mais inclusivo começou a brotar: nos Estados Unidos, diretores de escolas impedidas de reabrir, organizações sociais e famílias se juntaram para re-imaginar essa experiência adaptada aos que mais precisam, pensando em uma escala maior. Em Indianápolis, onde as aulas começarão remotamente no final deste mês, as autoridades estão criando centros de aprendizagem onde um grupo pequeno de alunos sem-teto podem completar os trabalhos escolares remotos com apoio de um professor. Em Memphis, a prefeitura está tentando encontrar locais onde grupos de até 10 alunos possam estudar online enquanto os seus pais trabalham, beneficiando com isso cerca de 10 mil famílias.

Todos nós temos que observar muito de perto esse movimento!

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