A vida com menos de 413 reais por mês
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A vida com menos de 413 reais por mês

Atenuar a desigualdade e a pobreza crescentes em nosso país é, também, uma questão de fazer pequenas mudanças em diferentes âmbitos; e isso exige um olhar atento para os detalhes e para as evidências

Ana Maria Diniz

25 de outubro de 2019 | 13h01

Por que um homem do Marrocos que não tem o suficiente para comer compraria uma televisão? Por que uma mulher pobre da África não vacina gratuitamente os filhos, mas gasta com remédios que não precisa? Por que um trabalhador da zona rural da Índia matricula apenas um de seus vários filhos na escola? Por que crianças de áreas carentes têm mais dificuldade em aprender, mesmo quando frequentam a escola? Enfim, como é a vida econômica dos pobres? O que, de fato, motiva as suas escolhas e suas renúncias?

Como demostraram brilhantemente os economistas do MIT Abhijit V. Banerjee e Esther Duflo, ganhadores do Prêmio Nobel de Economia deste ano juntamente com Michael Kremer, de Harvard, no livro Poor Economics: A Radical Rethinking of the Way to Fight Global Poverty, a maioria das pessoas que dispõem de uma renda minimamente digna para passar o mês tem uma visão estereotipada do pobre e não entende os problemas específicos de quem vive com muito pouco. Essa incompreensão, argumentam os autores, tem levado muitas iniciativas de combate à pobreza ao fracasso.

Por definição, segundo o Banco Mundial, é extremamente pobre quem vive com 1,90 dólares por dia (7,60 reais) ou menos. Já o limite da pobreza em países de renda média alta, como o Brasil, é de 5,50 dólares por dia (22 reais), em torno de 660 reais por mês. Nesse sentido, os números da última Pnad são chocantes. Como informou uma matéria do Estadão, a metade mais pobre da população do país, cerca de 100 milhões de pessoas, dispunha de 413 reais mensais ou menos em 2018, considerando todas as fontes de renda. Dentro deste grupo, os 10,4 milhões mais pobres viviam com 51 reais mensais.

Como vivem esses brasileiros mais pobres? O que realmente sabemos dessa realidade tão diferente da nossa? Que decisões eles precisam tomar diariamente? Do que eles abdicam? O que eles compram e deixam de comprar? O que eles pensam da escola que seus filhos frequentam? O que eles pensam da Educação? Não sabemos e, assim, continuamos a formular políticas públicas que já nascem com distorções fatais, pois não se conectam com a realidade e com a complexidade que é a vida dessas pessoas.

A erradicação da pobreza exige ações em diversas frentes, sendo a Educação uma das mais importantes – segundo a ONU, um ensino de qualidade é a alavanca central para acabar com a pobreza em todas as suas formas e lugares. Pelas contas da Unesco, 60 milhões de pessoas poderiam sair da pobreza se todos os adultos tivessem dois anos de ensino secundário. No caso de uma graduação, esse número subiria para 420 milhões. No entanto, cerca de 258 milhões de crianças e jovens entre 6 e 17 anos no mundo – um em cada seis – estão fora da escola, a maioria em países pobres e em desenvolvimento.

O problema, como constataram os economistas Banerjee e Duflo, é que a maioria das famílias pobres não prioriza a Educação. Geralmente, elas investem na formação de um só filho, pois acham um desperdício matricular todas as crianças na escola, já que elas poderiam, por exemplo, ajudar nas tarefas domésticas ou no orçamento, fazendo bicos. Isso acontece porque essas famílias acreditam que o valor da Educação está na obtenção do diploma. O retorno do investimento em Educação, porém, se dá de forma linear: cada semana, mês e ano a mais constituem um valor adicional. Ajudar os pais a entenderem essa lógica tem mais impacto para a aprendizagem do que construir novas escolas.

Eles descobriram isso partindo de uma premissa simples: quando o problema é complicado, é preciso fragmentá-lo, como na Matemática. Dessa forma, os laureados conseguiram implementar soluções viáveis e desatar alguns nós da Educação em países de baixa renda. No Quênia, Duflo começou com as seguintes perguntas: apenas mais recursos farão as crianças aprenderem mais? Quais ações de baixo custo aumentam de fato os resultados educacionais? O acesso a mais livros didáticos melhoraria o desempenho dos alunos? Ou refeições gratuitas teriam um impacto maior? Ao final do experimento, ficou provado que mudanças organizacionais e investimentos na capacidade de aprendizagem dos alunos eram muito mais eficazes do que só dinheiro.

Nós temos uma tendência a acreditar que somente com grandes mudanças vamos obter grandes resultados. Mas nem sempre temos que pensar grande para resolver grandes problemas. Melhorar a vida dos pobres e criar uma sociedade mais justa e menos desigual é, também, uma questão de fazer uma série de pequenas mudanças em diferentes âmbitos. Essas mudanças não exigem batalhas homéricas ou transformações dramáticas, mas sim um olhar atento e cuidadoso para os detalhes e para as evidências.

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