A sociedade da métrica
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A sociedade da métrica

Em vez de demonizar as métricas, temos de preparar e capacitar professores e gestores escolares para lidarem com o mar de dados e informações que temos à disposição hoje em benefício dos alunos e da Educação

Ana Maria Diniz

28 de fevereiro de 2019 | 11h50

Número de likes, número de seguidores, número de passos, número de batimentos cardíacos, número de vezes que usamos o cartão de crédito ou acessamos a internet. Quanto mais a tecnologia avança na atividade humana, mais nós nos tornamos digitais, permitindo que algoritmos rastreiem todo e qualquer movimento nosso. Os mais fanáticos passam a ter uma fixação por dados, estatísticas e medições e, portanto, nos transformamos em “data-freaks”. Praticamente tudo hoje é influenciado, orientado e determinado pelas métricas – a maneira de administrar negócios, o resultado das eleições, o que vamos ler nos jornais e os relacionamentos.

Os números sempre fizeram parte da vida e da sociedade de maneira geral. O peso e a altura, as notas das provas na escola, os boletos inevitáveis de todo mês, o PIB do países, o valor das ações, entre tantas outras coisas que são quantificadas e medidas há um bom tempo. Graças a isso conseguimos avançar em muitas coisas. Métricas são importantíssimas! Como dizia Peter Drucker, “se você não pode medir não pode evoluir”. Porém, confiar cegamente em dados pode levar a outras consequências com resultados desastrosos – e isso está cada vez mais comum.

Um dos motivos que contribuem para essa cegueira é o deslumbramento com a infinidade de números e informações aos quais temos acesso hoje – eles são tantos e tão reluzentes que parecem conter a resposta em si, e não o caminho para chegar a ela. Essa é a  armadilha: dispensar uma boa análise de dados. Outro problema é que, muitas vezes, existem poucas pessoas realmente preparadas para analisar, interpretar e usar esses dados de forma efetiva. E quando isso acontece, as chances de as métricas mais atrapalharem do que ajudarem se tornam enormes, diz o sociólogo alemão Stephen Mau em The Metric Society, resenhado pela The Economist esta semana.

O historiador americano Jerry Muller defende o mesmo ponto em Tiranny of Metrics, lançado no ano passado e no qual descreve situações em que a má utilização dos dados pode prejudicar alunos, escolas e sistemas de ensino. Uma delas diz respeito à remuneração do professor por desempenho, prática comum nos Estados Unidos e que inspirou programas de bonificação em alguns estados brasileiros, como São Paulo, Goiás e Ceará. Segundo Muller, quando o aumento no salário do professor passa a ser determinado pelos resultados de seus alunos, as chances de ele se dedicar a “ensinar para a prova” crescem expressivamente. Os alunos acabam focando só em estudar para o teste e em passar de ano, não no aprender. Dessa maneira, o estímulo mental é amortecido nos alunos, bem como a criatividade  e a empolgação. A ânsia por aprender, intrínseca ao ser humano, é sufocada pela fixação métrica.

Porém, existe um tipo de prova na qual eu acredito muito e que considero crucial para ajudar na evolução dos alunos: as avaliações de progresso. Elas são em geral provas menores e mais frequentes e servem para que o educador saiba exatamente o que os alunos estão conseguindo absorver do processo e do conteúdo ensinado em sala de aula. Elas ajudam a identificar onde os alunos têm mais dificuldade e a desenvolver estratégias para fechar esse “gap” antes que a defasagem na aprendizagem tome proporções enormes e crie situações irrecuperáveis. As escolas públicas de São Paulo usam uma ferramenta chamada “foco aprendizagem” para atacar esse problema.

Essa reflexão em torno das métricas na Educação tem fundamento, mas acho importantíssimo ressaltar que elas são essenciais para a evolução dos sistemas educacionais. Graças ao Saeb, que compreende diferentes testes de larga escala, podemos aferir o desempenho das redes municipais e estaduais e até de cada escola pública desde o início da década de 90. Sem essas informações – e sem estipular quais resultados e metas de aprendizagem definem uma Educação de qualidade – seria impossível buscar soluções para aprimorar o nosso ensino. Análises de dados bem feitas podem, ainda, ajudar detectar os pontos fracos e fortes de um método de ensino, verificar quais as didáticas mais eficientes, mapear as principais falhas na formação dos professores, identificar alunos propensos a desistir dos estudos, só para citar alguns exemplos.

Vivemos a era do Big Data e, pela primeira vez,  temos um oceano de informações, estatísticas, indicadores à nossa disposição que podem ser cruzados para a ajudar a identificar os problemas, a definir estratégias e a orientar ações. Como tudo, isso tem um lado positivo e um negativo. O importante, neste momento, não é ignorar ou demonizar as métricas, mas sim preparar professores e gestores escolares, bem como os responsáveis pelas políticas públicas em Educação, para lidarem da melhor maneira possível com essa nova realidade.

Dessa forma, com certeza vamos aproveitar o melhor que as métricas têm a nos oferecer.