A ponta do iceberg
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A ponta do iceberg

Os problemas da nossa Educação não se restringem às salas de aula ou à péssima gestão; eles são, na verdade, consequência de outras disfunções estruturais e sociais e refletem a ineficiência do Estado de maneira geral

Ana Maria Diniz

01 de novembro de 2019 | 12h57

Claramente, como nação, nós não estamos cuidando do nosso capital humano. Esta semana, participei de uma discussão muito interessante, promovida pelo Banco Itaú/BBA e pelo Movimento Todos pela Educação, sobre Educação e Competitividade. Neste fórum, uma apresentação riquíssima do Banco Mundial mostrou que o Brasil não está levando a sério e nem se preocupando de verdade com a formação de seu capital humano. Isso é uma temeridade, pois não se trata apenas de uma questão social, mas de uma questão de desenvolvimento do país – dois problemas que se retro-alimentam, contribuindo para perpetuar o ciclo de pobreza, desigualdade e atraso econômico.

Diante dessa constatação, é mais do que urgente responder a essas perguntas: quais desafios precisam ser enfrentados para se obter um bom desempenho educacional no Brasil? O grau de liberdade econômica influencia nesse processo? Qual o real impacto social e econômico dá má qualidade da nossa Educação? Todos nós, envolvidos de alguma forma com cenário educacional, vivemos às voltas com essas e outras indagações e, apesar de não faltar mais diagnóstico, não temos avançado na elaboração de respostas mais precisas e contundentes, que extrapolem o que já é sabido e o senso comum.

Uma das exceções nesse sentido é o estudo recém-lançado Educação e desenvolvimento: a formação do capital humano no Brasil, feito pelo Instituto Millenium em parceria com a consultoria Eight Data Intelligence. O levantamento, um dos raros do gênero a usar técnicas de Big Data e Inteligência Artificial, dissecou o sistema educacional brasileiro sob vários aspectos a partir de 247 indicadores e 70 variáveis. E revelou, com precisão aritmética, que os problemas da nossa Educação excedem as salas de aula, a péssima gestão e a alegada falta de dinheiro – eles são consequência de outras disfunções e refletem a ineficiência do Estado em promover o desenvolvimento com um todo.

O estudo lança luz sobre alguns dos entraves criados pelo próprio Estado para que a Educação seja plenamente acessada, da falta de acesso a serviços essenciais às restrições para se fazer negócios. A frequência escolar e a distorção idade-série, por exemplo, dois pontos basilares no processo educacional, estão fortemente relacionadas ao acesso ao saneamento básico e à energia elétrica. Nos locais onde o acesso a esses serviços é maior, a trajetória escolar compatível com a faixa etária é superior. E esse fator impacta diretamente o progresso: o percentual de alunos dois anos atrasados ou mais na escola explica até 81,7% da variação no índice desenvolvimento de um município.

Com base nessas informações, a pesquisa identificou uma zona de perpetuação de déficit social que compreende 2.782 municípios, praticamente metade dos 5.578 municípios do país, e que se espalha por todo o Norte e o Nordeste. Essas cidades têm os piores índices de acesso a serviços essenciais, níveis elevados de fecundidade e de mortalidade infantil e as taxas mais reduzidas de PIB per capita do Brasil, bem como as frequências escolares mais baixas e o maior percentual de analfabetismo entre pessoas até 29 anos. Infelizmente, o futuro de um jovem brasileiro está condicionado ao seu local de nascimento, pois em nosso país o espaço geográfico determina 70% do desenvolvimento educacional.

Isso fica claro também quando se analisa a oferta de ensino superior. Além do baixo índice de pessoas com 25 anos ou mais que concluíram a faculdade (12,78%, um terço da média dos países da OCDE), o que impacta diretamente na renda média da população, as vagas no país são mal distribuídas. Entre os 1608 municípios com a renda mais baixa, 93% situam-se em regiões descobertas pelo ensino superior. Os outros 7% são atendidos só por instituições privadas. São locais como São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, que fica a 900 quilômetros de distância, pelo Rio Negro, da universidade mais próxima.

O estudo não para por aí e analisa várias outras questões, que certamente serão assunto nos próximos blogs. Em todas elas, fica mais do que evidente que estamos tratando desigualmente os desiguais e trabalhando para aprofundar as diferenças, em vez de dissipá-las. Como o estudo concluiu, apesar de 85% dos municípios no Brasil serem atendidos por serviços de água, esgoto e coleta de lixo, 75 milhões de brasileiros ainda vivem em condições sanitárias medievais, uma situação que impõe uma espécie de seleção natural, na qual o mais vulnerável é apartado de qualquer chance de progresso.

Não podemos mais fechar os olhos para os vários outros problemas seríssimos do nosso país ou encará-los de forma isolada. Nem achar que a Educação, sozinha, vai tirar o Brasil do atoleiro. A Educação é só um elo – importantíssimo – dessa corrente.

 

 

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