A forma como fonte de motivação educacional
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A forma como fonte de motivação educacional

A escola é a estrutura social que menos mudou nos últimos 100 anos. Se ela não mudar radicalmente, por dentro e por fora, será impossível promover uma Educação compatível com as necessidades do século 21

Ana Maria Diniz

15 Setembro 2016 | 08h18

Em 1997, durante um evento de tecnologia, perguntaram a Steve Jobs, que tinha acabado de reassumir o comando da Apple, o que ele faria para salvar a companhia da falência iminente. “Design”, respondeu Jobs.  O que aconteceu depois disso é de domínio público. Com seus produtos irretocáveis, que seguiam à risca a máxima do design funcionalista de Bauhaus, “a forma segue a função”, Jobs não só reergueu a Apple, hoje a empresa mais valiosa do mundo – ele aproximou a tecnologia das pessoas e moldou o estilo de vida moderno.

Pois a escola, assim como a Apple em 1997, também está à beira da falência!

Muito tem se pensado na transformação da escola a partir de seus conteúdos pedagógicos e de suas metodologias, na inclusão da tecnologia a serviço do aprendizado do aluno. Mas e se invertêssemos a ordem e pensássemos em mudar a forma das escolas, o seu design, para “forçá-las” a mudar por dentro?

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Este é o pensamento oriental. Eu, por exemplo, pratico yoga há doze anos. Desde então, repito duas vezes por semana a mesma sequência de posturas a fim de me aprimorar, pois assim estou promovendo minha transformação interior. A disciplina e a busca pelo aperfeiçoamento físico contínuo refletem na minha condição mental, fazendo com que eu ganhe flexibilidade, equilíbrio e força, por dentro e por fora.  Se meu corpo percebe que eu posso ir além, meu cérebro também entende que é possível ir além em outras áreas da vida.

Da mesma forma que corpo e mente são indissociáveis, o ambiente físico também faz toda a diferença na maneira como agimos. E, do jeito do que está, o espaço escolar só estimula o tédio, afasta as crianças da vontade inata de aprender!

Eu converso muito com professores e uma queixa recorrente é a dificuldade de inovar na sala de aula por conta do espaço. Por mais que eles aprendam as técnicas mais modernas de ensino híbrido, aprendizado em grupo e aula invertida, o ambiente duro das salas de aula, cheia de mesas e cadeiras, com uma lousa à frente, torna quase impossível a execução de uma experiência mais criativa, mais solta, mais participativa.

Baseados nessa premissa, um grupo de arquitetos e designers começou a pensar e projetar escolas nas quais os modelos de ensino do século 21 fizessem sentido, ou seja, ambientes adequados para uma Educação na qual o professor não é mais a figura central da aula, o aprendizado não deve ser dividido em disciplinas, a tecnologia é parte da rotina escolar e competências sócio emocionais, como empatia e a colaboração, devem ser estimuladas.

A holandesa Rosan Bosch, idealizadora da rede de escolas Vittra, na Suécia, faz parte desse grupo. A frustração de ver seus filhos irem para a escola cheios de curiosidade e, depois de algumas semanas, voltarem para casa desanimados, achando que a única coisa interessante da vida escolar era o recreio, a designer resolveu dedicar a sua vida e conceber escolas diferentes, onde o espaço ocuparia um papel central e a palavra de ordem seria motivação!

“O ambiente desenhado com o objetivo de promover o aprendizado pode transformar a forma de pensar, de funcionar e de agir”, diz Bosch, para quem o design é mais do que uma peça decorativa, é uma ferramenta para promover mudanças sociais e o desenvolvimento humano.

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Na sua concepção de escola, a coisa mais importante a se considerar é que cada criança aprende de forma diferente e tem necessidades diferentes na hora de absorver os conhecimentos. Por isso, ela concebeu espaços multifuncionais, que consideram todas essas possibilidades. Em seus projetos, há desde cantinhos para os que precisam de silêncio e grandes espaços de convívio para uma interação colaborativa. Os ambientes para aulas expositivas não deixam de existir, mas são montados na hora, de acordo com a necessidade. Nesta escola ideal, com tanta flexibilidade, os elementos mais flexíveis têm que ser o aluno e o professor, pois ela tem como princípio um alto nível de liberdade, de individualidade, de respeito e de responsabilidade.

Alguns estudos respaldam a importância da arquitetura escolar no aprendizado, como o realizado pela Universidade Salford, na Inglaterra. Durante um ano, pesquisadores acompanharam 751 alunos de 34 escolas de educação básica e concluíram que fatores ambientais (cor, escolha, conexão, complexidade, flexibilidade e luz) podiam impactar em 25%, para mais ou para menos, o desempenho dos alunos em matemática, leitura e escrita.

Tudo isso pode parecer muito longe da nossa realidade, principalmente se considerarmos as nossas escolas públicas. Mas elas terão que mudar. E talvez um choque de realidade que venha da estrutura física possa assustar menos o status quo, diminuindo a resistência em relação às mudanças que estamos tentando fazer dentro do sistema.